A pálida luz que tremia sobre a entrada do beco morreu quando Max Porter jogou a guimba do cigarro em uma poça d’água, antes de esgueirar-se viela adentro. Chovia o suficiente para abafar o barulho de seus passos, mas a chuva e o barulho eram a menor de suas preocupações: era hoje o dia do acerto de contas. Parou atrás de uma caçamba de lixo e observou a porta dos fundos do Havana Club se abrir e seu proprietário, o empresário Wilson Creed, sair sozinho em seu impecável smoking branco, abrir despreocupadamente o guarda-chuva e caminhar na direção de um sedan azul-marinho estacionado em frente à porta. A mão direita de Porter alcançou o cabo da pistola e o apertou com força. Aquela era a hora do acerto de contas. Porter saiu de trás da caçamba e, com a arma em punho, rendeu o empresário.

– Parado aí, Creed. Temos algumas contas a acertar.

Wilson Creed parou e levantou a mão livre, em sinal de rendição. O sorriso de Porter se abriu: teria enfim sua vingança, assistiria sua arma cuspir chumbo quente contra o corpo do homem que lhe custou dez anos na prisão e, depois que o corpo de Creed estivesse estirado sem vida sobre o chão do beco, enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Prepare-se para morrer, Creed. É hora de você… ei, ei, ei! Dá para repetir a última frase?

(…) enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Desculpa, mas isso não vai acontecer. Por que eu tenho que beijá-lo?

Porque é o que está no roteiro.

– Então faça o favor de reescrever o roteiro, porque eu não vou beijar esse cara. Para início de conversa, isso tudo não faz o menor sentido: eu chego aqui no beco querendo encher o sujeito de chumbo porque ele me fez passar dez anos na cadeia e no final eu beijo ele na boca?

Bom, muitos homens se descobrem gays após longos períodos na prisão.

– O quê? Você está falando sério? Muitos homens são estuprados nas prisões, isso sim.

Você quer dizer que ninguém pode se descobrir na prisão sem que haja violência sexual? Ninguém tem revelações sobre sua própria vida na cadeia?

– Não estou dizendo isso… mas também não é esse o caso. O caso é que eu não vou beijar esse sujeito!

Posso saber por que não?

– Porque não, ué.

Ué, uma explicação têm que ter.

– Que tal esta: eu não quero beijar o sujeito?

Mas é só uma cena!

– Ah, é só uma cena? Então por que você não vem até aqui e termina a cena para mim?

Eu não posso ir até aí, eu sou o narrador.

– Ah, sei…

O que você quer dizer com isso.

– Eu quero dizer que você é um hipócrita. É muito fácil mandar os outros beijarem o sujeito no beco, mas você mesmo não beijaria o cara.

Você está distorcendo as minhas palavras… podemos continuar com o texto?

– Claro que não. Eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o… Creed, é esse o nome dele não? Sim, é sim. Então… eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o Creed e enquanto não alterar o final da cena.

Eu não tenho que admitir nada. Eu sou o narrador, a minha função é esta e eu a estou cumprindo, ao passo que você, que deveria ter beijado o Creed para que o texto continuasse, não está cumprindo o seu papel. Você não é profissional.

– Eu não sou profissional? Eu não sou profissional? Eu estou aqui num beco mal iluminado, debaixo de chuva e porque eu me recuso a beijar um cara pelo fato de eu não ver nexo nesse ponto da trama, enquanto você tenta se agarrar na sua desculpinha esfarrapada de “eu sou o narrador” e não quer admitir que você também não beijaria esse sujeito aqui com esse terninho cafona…

– Que foi? Vai ficar mudinho agora? Não vai mais falar comigo?

– Vai me dar tratamento de silêncio? Depois eu que não sou profissional. Você é um crianção.

Porter abre seu sobretudo, revelando-se vestido de corpete, cinta-liga e meia-calça arrastão vermelhos, e começa a rebolar em volta de Creed.

– Ei, ei, ei… pára com isso, rapaz!

Ué, você não quer mudar a cena? Pois eu estou mudando a cena. Seja feita a vossa vontade.

– Escuta aqui, rapaz: você quer resolver isso no braço?

Eu? Brigar com você?

– Desce aqui e a gente resolve isso.

Eu não vou descer até aí.

– Mariquinha…

Não me chame de mariquinha!

– Mariquinha! Mariquinha! O narrador é um maricas.

Pára de me chamar assim. Eu não sou maricas!

– É um maricão, isso sim! Mariquinha, Maricota! Vai chorar, seu maricas?

Pára… de… me… pára…

– Err… você está chorando mesmo? É sério isso?

Não… eu não estou chorando. São as minhas alergias…

– Rapaz, também não precisa chorar, eu só estava…

Só estava atrapalhando o meu trabalho! Eu não escrevi o texto, eu sou apenas o narrador. E ainda tenho que aturar essa… humilhação? Ser chamado publicamente de mariquinha? Eu não tenho culpa de nada, eu sou apenas o narrador. Se eu pudesse, eu mudava a cena, mas eu não posso! Eu só leio o que está escrito.

– Ok, ok, eu peço desculpas. Você não é mariquinha.

Mesmo?

– Mesmo.

Obrigado. Podemos continuar com o trabalho?

– Tudo bem, tudo bem… já que não foi você quem escreveu esse texto, não pode modificar e eu preciso mesmo da grana vamos lá… deixe-me ler a cena de novo. Ok, a arma cospe chumbo, vamos lá e… pronto, Creed está morto. Agora o corpo dele está jogado no chão do beco, seja o que Deus quiser… pronto, está beijado. E agora?

A vingança de Porter estava concluída, mas ele ainda precisava correr para alcançar sua amada Jane Lee antes que o último trem partisse… eu não posso ler isso. É clichê demais!

– Ei, ei, ei! Como assim? Vai terminar de ler sim, senhor! Eu acabei de beijar um cara, por que você não vai ler o texto?

Depois dessa cena, o texto vira um amontoado de lixo! Clichê em cima de clichê! Eu me recuso a tomar parte disso!

– Ah, você se recusa, seu mariquinhas? Eu vou aí na cabine e eu quero ver você não ler esse texto!

Não me chame de mariquinhas!

VIII.

Com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas, Gérson encontrava-se sentado no vão entre o sofá de couro preto e a parede, segurando duas facas de açougueiro. Sua respiração era pesada e seu coração batia em ritmo acelerado, como se ele acabasse de disputar a final dos cem metros rasos em uma Olimpíada. Os olhos giravam inquietos nas órbitas, escaneando cada centímetro do apartamento. “Ninguém vai me pegar, ninguém vai me pegar”, ele sussurrava com as facas cruzadas à frente de seu rosto. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto e mergulhou na barba por fazer. Fazia duas noites que ele não dormia. Gérson tinha medo que o matassem em seu sono e ninguém o mataria sem uma luta.

Levantou-se olhando com cuidado cada canto da sala e foi ao banheiro. Empurrou as portas do corredor com os ombros, entrando em cada um dos dois quartos com as facas em riste antes de entrar no banheiro. Nunca cairia em uma tocaia. Abriu o armário sob o espelho e procurou o pequeno frasco, mas lembrou-se que havia consumido o resto da cocaína minutos atrás, quando quase caíra no sono. E ele não podia dormir. Se ele cochilasse, talvez não acordasse mais. Gérson não queria morrer, era jovem demais para deitar-se em um caixão com chumaços de algodão nas narinas enquanto as pessoas comentavam como ele era jovem e bonito e que era um grande desperdício de vida um rapaz tão novo ir ao encontro do Criador sem ter se casado, sem ter tido filhos, sem ter tido cabelos brancos, sem ter conhecido todo o país e sem ter visto a Seleção jogando no Maracanã, sem ter comido acarajé, sem ter comido vatapá e sem sequer ter comido uma baiana. Gérson não queria fazer aquilo tudo, mas e se ele um dia quisesse? Morto ele não ia poder fazer. Então ele decidiu que não dormiria. Mas precisava de mais brilho. Seus olhos começavam a perder a vigilância, piscando cada vez mais. Era difícil mantê-los abertos sem o brilho. Suas mãos tremiam novamente, tremiam como varas verdes, tremiam como o México tremeu naquele grande terremoto nos anos 80. Ele precisava de mais, precisava de mais, não muito mais, apenas o que o mantivesse acordado e vivo. Teria que sair. Teria que ir buscar. Foi até o quarto e calçou um par de tênis que estava embaixo da cama e abriu o armário em busca de uma camiseta limpa. Vestiu-se, pegou a chave do carro em cima da escrivaninha e saiu em direção à porta, mas ao tocar na maçaneta, lembrou-se que não podia sair com as facas. Algum guarda poderia pará-lo, talvez extorquir algum dinheiro, mas isso seria mal para sua carreira. As pessoas não gostam de pessoas com ficha policial. Colocou as facas em cima da pia e abriu a porta. O corredor do prédio estava mergulhado no breu. Gérson ficou temeroso de sair. Estava desarmado, seria um alvo fácil, mas ele precisava da cocaína. Respirou fundo e colocou o primeiro pé fora do apartamento, depois o outro. Virou-se para trancar a porta do apartamento, sentiu alguém agarrar com força seus cabelos. Ele tentou gritar, mas outra mão colocou-se em frente a sua boca, silenciando-o. Gérson tentou, em vão pedir socorro. Seus gritos, abafados, perderam a força quando sentiu entre as costelas a rigidez fria do golpe de uma lâmina. Seus olhos se arregalaram quando sentiu que o metal avançou pele e músculo adentro e perfurou seu fígado. O sangue quente e escuro escorreu por suas pernas trêmulas e ele ainda tentou lutar, mas outra estocada atingiu-lhe o diafragma e Gérson começou a soluçar, golfando sangue. Seu corpo dobrou-se para frente e ele caiu de joelhos sobre o capacho da porta. Com as mãos segurando o abdômen, ele emitiu um gemido fraco, quase um miado, e então sentiu a lâmina tocar sua bochecha e arrastar-se vagarosamente por sobre seu rosto livre se rugas de preocupação, abrindo um fino corte de onde seu sangue jovem desceu imediatamente em um fino filete escarlate. E então sua mente turvou-se e a última coisa que Gérson sentiu foi a pressão da lâmina arrebentando sua traquéia quando a faca trespassou seu pescoço. Então tudo ficou escuro e quieto.

IX.

– Você viu o Gérson na festa, amor? – Walter sussurrou no ouvido de Fernanda, que conversava com as esposas de dois diretores da fábrica Dortella. Como ele pensou, todos no salão não tiravam os olhos de Fernanda. O vestido ficara ainda mais bonito envolvendo o belo corpo da sra. Dortella.
– Acho que ele não veio, querido – ela respondeu, ainda sorrindo para as duas senhoras. E já está começando a ficar tarde. É melhor mandar servir o jantar.

O salão nobre Jóquei Clube estava cheio de gente. Empresários, políticos, jogadores de futebol, socialites e alguns parentes compunham a lista dos trezentos e cinqüenta convidados para as bodas de Walter e Fernanda Dortella. A banda tocava light jazz e as pessoas conversavam sobre a festa, sobre o jantar e sobre as vidas das outras pessoas na festa, enquanto os garçons circulavam com bandejas de champanha e uísque importado. Precisamente à meia-noite, a banda parou de tocar e Walter e Fernanda subiram ao palco para fazer um brinde. Os convidados fizeram silêncio e Fernanda começou seu discurso.

– Eu gostaria de, acima de tudo, agradecer a todas as pessoas que hoje estão aqui presentes, pois sem vocês esta noite não seria tão brilhante – ela disse e virou-se para Walter. – E queria também agradecer ao meu marido, pois sem ele eu não estaria aqui, feliz e completa. Obrigado, meu amor.

O salão inteiro aplaudiu o discurso de Fernanda, que colocou as mãos na frente da boca e lançou um beijo à multidão e depois beijou o marido nos lábios. Grande parte dos homens no salão daria um braço para estar no lugar de Walter naquela hora. Após receber a carícia da esposa, o empresário pegou o microfone, olhou para as pessoas no salão e começou a falar.

– Bom, primeiro eu gostaria de avisar que a segurança tem ordem de expulsar quem não bater palmas – o salão inteiro explodiu em gargalhadas. – Brincadeiras à parte: muito obrigado a vocês por dividirem conosco esta alegria que é comemorar doze anos de uma união maravilhosa, que me deu mais alegrias do que eu podia esperar – ele disse e piscou para Amanda, que retribuiu a piscadela do pai com um sorriso. – E gostaria também de agradecer a minha esposa por ter segurado minha mão nas horas de dificuldade, por ter sorrido nas horas de alegria, por ter me amado em todas as ocasiões do nosso relacionamento e, principalmente, por ter me dado a Amanda, que é a maior alegria que eu tenho neste mundo – um garçom subiu ao palco com duas taças de champanha em uma bandeja. Walter as pegou e entregou uma à sua esposa, erguendo sua taça e olhando nos olhos de Fernanda. – Eu brindo ao seu amor, Fernanda.

Todas as taças do salão se ergueram e os aplausos encheram o ar. Os olhos de Fernanda encheram-se de lágrimas e ela brindou com o marido, brindou ao amor que Walter sentia por ela e pelo amor que ela sentia por ele. E brindou pela noite maravilhosa que estava se desenrolando. Tudo era belo demais, feliz demais, as luzes brilhantes demais. E então, após um clarão, as luzes se apagaram.

X.

Um calor incômodo fez com que Fernanda despertasse. Onde ela estava? Que horas eram? Sentia um cheiro enjoativo de bosta de vaca. Abriu os olhos, mas sua vista estava embaçada e ela achou que estava em um tipo de barracão. Havia moscas zumbindo e pousando em seus cabelos, mas quando ela tentou espantar uma grande mosca-varejeira que pousara em seu rosto, percebeu que não conseguiu mexer os braços. Quando seus olhos voltaram ao foco, ela pode ver que estava amarrada a uma pilastra de madeira. Suas roupas haviam sumido e havia alguém amarrado ao seu lado. Ela piscou algumas vezes e então conseguiu identificar o rosto próximo ao seu.

– Gérson? Cadê o Walter? O que estamos fazendo aqui?
– Eu estou aqui, Nanda. E pode parar de gritar, pois o Gérson não vai acordar – disse Walter, sorrindo. Estava sujo e sem camisa, arrastando um grande saco de lona.
– Walter, o que está acontecendo? O que está acontecendo, amor? – ela perguntou, piscando.
– Durante doze anos eu te amei, mas meu amor não era o suficiente, não? – ele disse, seco, abrindo o saco e tirando de lá de dentro uma pá. – Eu amei, cuidei… até cozinhei para você. Aliás, você gostou da comida não? Carne à chinesa. Você sabia que eles comem cachorro na China?

O estômago de Fernanda se contraiu e ela vomitou. Ela não vira Zazá o dia inteiro.

– Enojada? Fique sabendo que você me enojou muito mais – ele disse, lacônico.
– Do que você está falando, Walter? – A voz de Fernanda começou a ficar chorosa. Suas mãos transpiravam.

Fernanda sentiu o rosto arder quando a mão do marido a acertou, espalmada, no rosto. Sentiu que havia sangue correndo de onde o tapa a acertara.

– Você ainda tem a pachorra de perguntar do que eu estou falando, sua puta? – a voz de Walter perdera o gelo. Agora estava carregada de raiva.
– Walter, é mentira. Eu juro que é mentira – Fernanda começou a chorar. Seu rosto ardia muito.

Outro tapa estalou e Fernanda gemeu, chorando e soluçando. Walter mexeu no bolso traseiro da calça e puxou de lá o envelope azul-celeste, abrindo-o e tirando uma fotografia de seu interior.

– Isto aqui é mentira? Isto aqui é mentira? – ele esfregava a foto no rosto de Fernanda. Era uma foto de Fernanda e Gérson. Estavam nus. – Você estava sorrindo, sua puta. Vai dizer que ele te estuprou? Ele te estuprou e você sorriu? Estava sendo estuprada e estava sorrindo, na minha cama, sua vagabunda? – Walter espumava de raiva. Seu rosto estava vermelho.

Fernanda abaixou a cabeça e começou a gemer baixinho. Não havia mais defesa. Tudo o que podia fazer era suplicar a Walter que a deixasse ir embora. Ela jurou que não pediria pensão e que esqueceria da filha, mas ele não a olhava, apenas despejava com a pá aos pés da esposa o conteúdo do saco. Carvão vegetal.

– Você sabe qual é o segredo da carne Dortella? – ele disse, rindo. – Uma vaca que passe o dia inteiro deitada e um bom corte – ele disse, aproximando-se dela, com uma grande faca de açougueiro.

Fernanda encolheu-se e começou a gritar, pedindo para que Walter não a cortasse, mas ele apenas colocou a faca paralela ao rosto dela e começou a gargalhar. Ao abrir os olhos, Fernanda entrou em desespero: o reflexo na lâmina mostrava seu belo rosto todo cortado. Por isso a ardência e o sangue. Ele escrevera “puta” várias vezes com a ponta da faca em seu rosto. O desespero aumentou quando ela percebeu que não era apenas o rosto, mas nos braços e pernas, no corpo todo. Ela começou a chorar convulsivamente e Walter apenas ria. Abaixou-se e tirou do saco de lona um saco menor, abrindo-o com os dentes e derramando um punhado do conteúdo em sua mão.

– Sabe por que precisamos de um bom corte? Porque só com um bom corte o sal pega direito na carne – ele disse esfregou com força a mão pelo rosto e pelo corpo de Fernanda. Ela gritou, com o corpo ardendo. A brutalidade de Walter fez com que os cortes se abrissem e jorrassem pequenos filetes de sangue e o sal encarregou-se do resto do tormento. Fernanda sacudia-se em desespero. Queria que aquilo fosse um pesadelo, queria despertar logo daquele pesadelo. Com os olhos cheios de lágrimas ela viu que Walter dançava, às gargalhadas, com seu vestido de seda à mão. Ele o atirou com força contra o rosto de Fernanda. – Eu sempre disse que eu era um açougueiro, amor. Agora aproveite, Nanda – ele disse, banhando a esposa e o cadáver do assistente em gasolina. – este sim vai ser um churrasco de seda.

Fernanda nada fez quando Walter riscou o fósforo. O fogo tomou envolveu rapidamente os corpos dos dois amantes e espalhou-se pelo abatedouro que um dia fora do pai de Walter. Sentindo o cheiro de sua carne queimando, Fernanda sorriu. Talvez por saber que o sofrimento havia terminado, talvez por saber que o fogo não permitiria que ninguém visse seu corpo perfeito todo retalhado. “Sim, Deus me quer bonita”, ela pensou, enquanto as chamas a conduziam à inconsciência.

Epílogo

– Quanto tempo até chegarmos em Miami, pai? – Amanda perguntou, abraçando o pai na fila do check-in.
– Algumas horas, filha – ele respondeu, com um sorriso pálido que mal mostrava seus dentes perfeitamente alinhados.
– E nós vamos à Disney todo fim de semana mesmo? – ela olhou para Walter, com um sorriso nos lábios que lembrava muito o sorriso de Fernanda.
– Sempre que você quiser, meu amor – ele sorriu e beijou a filha na testa. – Vamos, é a nossa vez – ele disse e encostou-se no balcão da companhia aérea, onde despachou suas grandes malas de couro e encaminhou-se em direção à sala VIP de mãos dadas com Amanda, que estava linda em seu vestido favorito, azul-celeste.

VI.

Sentado em frente à televisão, Walter fazia hora para ir dormir assistindo a um filme de caubói e bebendo uma cerveja. Já fazia isso havia tanto tempo que Fernanda nem mais se preocupava em chamá-lo para a cama. Ela não entendia como ele tinha paciência para assistir àqueles filmes em preto e branco, mas Walter era apaixonado por clássicos do western. Seu sonho de criança era desmontar de um cavalo preto empunhando duas Colt 45 e instaurar a ordem na cidade. Fernanda não sabia, mas quando pequeno Walter contava os dias para o fim de semana chegar, para que seu avô o levasse ao cinema para ver os filmes de caubói. Hoje ele os assistia sozinho em frente à sua TV. Todas as noites antes de dormir, como um pequeno ritual, uma homenagem à sua infância.

Assim que o filme terminou, Walter desligou a TV e caminhou para a cozinha. Colocou a garrafa de cerveja vazia na lixeira e bebeu um último copo d’água, apagou a luz e foi em direção ao quarto. Ao passar em frente ao escritório, viu pela porta entreaberta que o computador ainda estava funcionando, apenas o monitor estava desligado. Entrou no escritório e ligou o monitor. A tela foi clareando e a página que aparecia era da sua caixa de correios. Lá estava a mensagem que ele ia ler quando Amanda entrou no escritório. A mensagem da tal Celeste.

– Quem é você, Celeste? – disse ele, enquanto clicava na única mensagem não lida.

Apenas lia-se no e-mail a frase “espero que seu aniversário de casamento seja uma ocasião inesquecível”. Walter coçou o queixo, olhando para a tela sem entender a mensagem. Apagou o e-mail e desligou o computador, indo para o quarto e deitando-se ao lado de Fernanda. Abraçou a esposa e fechou os olhos, mas nem a cerveja nem o calor do corpo ao seu lado conseguiam fazer a mente de Walter parar de trabalhar. As engrenagens em sua cabeça trabalhavam movidas pelo enigma do remetente do e-mail. Quem era Celeste? Será que aquela mensagem era apenas um desejo de felicidades de alguma funcionária que ele não recordava o nome? Possível, já que Walter era dono de 25 lojas só no Estado do Rio de Janeiro. Levantou-se com cuidado para não acordar Fernanda e foi até o escritório. Ligou o computador, conectou-se e recuperou o e-mail apagado. Ficou algumas dezenas de minutos olhando fixamente para a tela, talvez esperando encontrar no e-mail de Celeste alguma mensagem oculta. Levou as mãos aos cabelos castanhos e curtos, e olhou para cima, como se a solução fosse cair do teto. Ao baixar os olhos para a bancada, um pedaço de papel azul no meio das contas chamou sua atenção. Era um pequeno envelope azul. Azul-celeste. Com sua mão direita, apanhou no porta-canetas um abridor de cartas em forma de gládio e começou a abrir o envelope com cuidado para não danificar o conteúdo, pois talvez naquele pequeno envelope estivesse a resposta de sua dúvida.

VII.

– É lindo! É lindo, Walter! – Fernanda saltava em torno do marido, abraçada com o vestido vermelho.
– Não tão lindo quanto você, meu amor – Walter sorria, exibindo seus dentes perfeitos em um sorriso que parecia dizer “sabia que você ia gostar”.
– Eu nem sei o que dizer, querido. É lindo demais! – os olhos de Fernanda brilhavam de felicidade.
– Você não precisa dizer nada, Nanda. Apenas tem que vesti-lo hoje à noite, na festa – Walter sorriu e beijou os lábios da esposa com paixão. – Agora deixe o vestido aí e vamos aproveitar que a Amanda está na casa da minha irmã e vamos para a sala de jantar, pois eu preparei um almoço especial para você.

A sala de jantar da casa dos Dortella, como as outras dependências da casa, era um cômodo amplo e arejado. As paredes brancas refletiam a sala a luz que entrava pelo janelão panorâmico no fundo do cômodo, que brindava a todos com uma vista espetacular da pedra nua de um morro próximo e a vegetação densa à sua volta. De frente para aquela paisagem, à cabeceira da mesa, Walter fez com que sua esposa se sentasse. Colocou ao lado do prato os talheres envoltos em um guardanapo de linho e saiu, voltando minutos depois trazendo a comida em uma bandeja de prata polida. Na louça branca do prato octogonal, tiras crocantes de cenoura e salsão ornavam um belo pedaço de carne mal-passada, coberto de alho e cebolinha. Fernanda respirou sobre a comida e começou a salivar ao sentir cheiro de gengibre e pimenta vermelha.

– O que é isso, Walter? Está bem cheiroso – ela perguntou, desenrolado os talheres e pousando o guardanapo no colo.
– É carne à chinesa. Não me pergunte o nome em chinês, pois é capaz de eu dar um nó na minha língua – ele sorriu enquanto abria uma garrafa de vinho tinto.
– Onde você conseguiu essa receita, amor? Está delicioso! – Fernanda disse, bebendo um gole do vinho recém-servido.
– Na Internet. É impressionante o que a gente encontra na Internet – ele sorriu, servindo-se de uma taça de vinho.
– Realmente está ótimo. Você não vai comer, amor? – ela perguntou, estendendo-lhe o garfo.
– Não, senhora – Walter colocou-se com as costas eretas, colocando um braço atrás do corpo e o em frente ao abdômen, com o guardanapo no antebraço. – Hoje sou apenas o seu garçom.
– Acho que sei como vou pagar a conta do restaurante – Fernanda sorriu maliciosamente, escorregando por baixo da mesa e abrindo a calça do marido. – Depois da sobremesa você me leva ao salão de beleza? – ela disse, olhando Walter nos olhos enquanto lambia seu sexo.
– Você já é bonita, amor – Walter sussurrou, com os olhos fechados.
– Mas vou ficar muito mais bonita para o meu homem – ela disse, beijando a virilha do marido.
– Levo… levo… – ele sussurrou, segurando-se com força no encosto da cadeira.
– Você gosta de me ver bonita, não gosta? – ela disse, fazendo bico e esfregando o pênis em seu rosto e levando-o à boca mais uma vez.
– Eu adoro… adoro… adoro… – os dentes de Walter se crisparam. O corpo do empresário se jogou para frente em um espasmo e ele segurou com força os cabelos da esposa, que soltou uma gargalhada e pegou o guardanapo do braço de Walter e enxugou a boca.
– Estou te esperando no carro, querido – ela disse, com um sorriso maroto nos lábio, deixando a sala de jantar, metade do prato e Walter com um sorriso bobo no canto da boca.

Continua

IV.

Walter olhou-se no espelho: tinha agora 40 anos, mas ninguém acreditava que ele tivesse mais do que 35 anos. Tirando uma ou duas entradas e alguns fios grisalhos em sua barba, a natureza o havia poupado do resto dos sinais de envelhecimento, como manchas ou linhas de expressão. Nem todos os homens chegavam aos 40 anos com o físico que ele exibia, a maioria de seus amigos estava fora do peso, mas Walter tinha o corpo de um ginasta. Exercitava-se 4 horas por dia, todo santo dia. Mas o que o fazia sentir-se mais jovem não era seu abdômen, mas a beleza de Fernanda. Aos 32 anos, Fernanda estava mais bonita do que nunca. Era impossível não notá-la, onde quer que ela estivesse. Seu corpo era perfeito nas medidas, nada faltando ou exagerado. Seu rosto parecia esculpido de tão belo e Walter costumava dizer que o rosto de Fernanda era a imagem da perfeição. E talvez fosse mesmo, pois ninguém conseguia desviar os olhos daquela mulher ou de seus olhos amendoados. Walter não se cansava de admirá-la. Sentou-se na beira da cama e afagou os cabelos da esposa, que dormia tranqüilamente. Andando devagar para não acordá-la, ele voltou ao escritório e juntou as contas que estavam espalhadas no chão, colocando-as de volta à bancada do computador. Na tela do aparelho, um ícone piscava, indicando que havia e-mails novos. O cursor do mouse correu pela tela e o empresário começou a separar os e-mails pessoais dos e-mails profissionais. “Eu devia contratar alguém para fazer isto para mim”, ele pensou, enquanto enviava a propaganda de um site pornográfico para a lixeira virtual. O último e-mail recebido chamou a atenção de Walter: apenas lia-se “espero que seu aniversário de casamento seja uma ocasião inesquecível”, assinado por alguém com o nome de Celeste.

– Você me ajuda com meu trabalho de geografia? – disse uma voz suave, vinda da porta. Era a voz de Amanda. Amanda era a única filha de Walter e Fernanda e a maior alegria que Deus tinha dado ao empresário. Os professores desfiavam elogios à sua inteligência, os pais se desmanchavam ante a sua candura. O falecido pai de Walter costumava dizer a todos que sua neta era com um raio de sol em um dia de chuva, e para Walter ela realmente era: mesmo quando o dia era difícil no trabalho e ele chegava em casa de mau-humor, era no carinho da única filha que ele encontrava o seu sorriso.
– Claro, amor. Você pode esperar o papai terminar de checar os e-mails? – ele disse com doçura.
– Ah, você fica muito tempo na frente do computador, pai – ela disse e franziu a testa. Tinha os mesmos olhos amendoados da mãe.
– Não é porque eu quero, filhota – ele disse e a puxou para perto de si, abraçando-a. – Façamos o seguinte: eu vou deixar os e-mails para amanhã. Agora nós vamos terminar o seu trabalho e vamos sair para tomar um sorvete. O que você me diz? – ele sorriu e desligou o monitor.
– Eu quero de morango – ela sorriu e abraçou o pai com força.
– Então de morango será! – ele a segurou no colo e a levou para fora do escritório.

V.

Escondida dentro de uma gaveta, no armário da roupa de cama, ficava uma caixa de charutos feita em madeira onde Fernanda costumava guardar fotos dos seus anos de solteira. Momentos da infância no Rio Grande do Sul, fotografias de colégio, momentos imortalizados na passarela. Se algum dos admiradores – e eram muitos – de Fernanda olhasse bem aquelas fotos, com certeza afirmaria que o conteúdo da caixa uma mostra da evolução da beleza dela. A cada pose de Fernanda parecia superar a anterior e nenhuma delas batia a do último evento onde desfilara, 10 anos antes. Era a foto preferida dela, depois de uma das fotos de infância onde ela brincava com dois patinhos. Fernanda gostava de apertá-la contra o peito e fechar os olhos, este era o modo como ela fazia sua mente voltar no tempo. Sentia novamente o calor dos holofotes fazendo-a transpirar e sentia a vista incomodada pelos flashes das câmeras. Sim, Fernanda sentia em sua carne mais uma vez o desejo nos olhares da platéia e ouvia seus aplausos, assobios e até mesmo seus gracejos. E foi incontável a quantidade de gracejos que ela ouviu enquanto sua carreira de manequim durou. Muitos homens e mulheres desejaram o que apenas Walter conseguiu: possuir Fernanda em corpo e espírito.

Ela colocou as fotos mais uma vez na caixa, com um suspiro longo e um sorriso nos lábios e a escondeu sob uma colcha antiga, no fundo do gavetão. Aquelas recordações a faziam sentir-se leve e ela saiu do closet com um semblante de felicidade pura. A luz do fim de tarde venceu as nuvens de chuva e avermelhou as paredes do quarto, enquanto ela debruçou-se no parapeito da janela do quarto, que dava vista para a piscina e área para churrascos, onde Walter ajudava Amanda com seu dever de casa. “Cada dia maior”, ela pensou, enquanto olhava para a menina e acariciava o próprio ventre. Ela sorriu ao lembrar-se do dia em que Amanda nasceu: a agitação do marido, as dores, o medo de que seu corpo não fosse mais o mesmo. Bem, realmente não era, já que seus seios aumentaram um pouco por causa do leite, mas mantiveram a mesma firmeza, quase que por milagre. Ela sorria ao pensar na inveja que as amigas sentiam dela por não ter tido varizes em excesso ou por seus seios não terem ficado flácidos. “Deus me quer bonita”, ela divertia-se em repetir isso quando alguém duvidava que ela já havia dado à luz e seu corpo permanecia inalterado. Sorrindo, saiu da janela e prostrou-se em frente ao grande espelho que ficava ao lado de seu leito conjugal. Ajustou o espelho e despiu-se do roupão, observando seu belo corpo bronzeado. Sem tirar os olhos do espelho, deitou-se lentamente e afastou suas longas pernas, levando as duas mãos ao ventre. “Deus me quer bonita”, repetia, quase sussurrando, entre gemidos.

Continua

III.

Durante quatro anos, Gérson ouviu seu chefe dizer que havia dois segredos para uma boa carne: o bom manejo de faca amolada e uma vaca que não se mova muito. A parte das vacas era fácil, já que o gado de corte era criado em uma fazenda do dono da rede de boutiques de carne onde Gérson trabalhava. Na tal fazenda, boa parte dos bois era colocada em cercados que eram pouco maiores que os animais e isso fazia com que tudo que os animais faziam era comer, deitar e levantar, evitando que seus músculos fossem exercitados e a carne endurecesse. O gado criado na fazenda Dortella produzia, segundo revistas especializadas e o paladar dos consumidores, a carne mais macia do país. “É como fazer churrasco de seda”, diziam os anúncios de rádio e TV. A parte do manejo da faca não foi fácil, mas Gérson aprendeu. Seu chefe era muito exigente em relação ao corte da carne. Fazia questão de ir pessoalmente conhecer os funcionários que trabalhavam em sua fábrica e em suas lojas e os ensinava o segredo do corte. Como usar a faca, que tipos de faca, como conservar as facas bem amoladas. Walter Dortella era tão preciso com uma faca quanto um médico com seu bisturi.

Em quatro anos, Gérson aprendeu tudo que podia ter aprendido sobre carnes com Walter. Havia até quem dissesse que ele era tão bom quanto o chefe e foi esse boato que fez com que o chefe pousasse seus olhos sobre o rapaz. Gérson tinha 21 anos quando começou a trabalhar para a família Dortella e aos 23 anos já era gerente regional. Claro, havia o talento, mas a simpatia que Walter tinha por Gérson o ajudou bastante em sua ascensão profissional. Walter via no rapaz um possível sucessor, pois o rapaz era inteligente e ambicioso. Por isso Walter o encarregou de fazer as inspeções e as demonstrações. Não havia quem não gostasse daquele rapaz de cabelos que caiam pelo rosto e de seu sorriso franco, o sorriso que os jovens sempre exibem em seus rostos isentos de marcas de preocupação. Ou quase sem marcas de preocupação.

Um pequeno envelope azul-celeste jazia sobre a escrivaninha no quarto de Gérson. Ao seu lado, o jogo de facas do rapaz. Eram facas bem trabalhadas, cabos sólidos e lâminas bem forjadas. Com uma pequena pedra preta, Gérson amolava cada lâmina daquele jogo, presente de seu chefe, de seu amigo Walter Dortella. O suor brotava da testa do rapaz e pingava na madeira escura do móvel. Sob a única luz de uma pequena luminária para leitura, os dedos ágeis do rapaz espremiam a pedra preta contra o aço espanhol. O suor escorria pela sua face, que ainda exibia uma ou duas espinhas como recordação da adolescência. Suas mãos também estavam suadas e trêmulas. Descuidou-se e a lâmina beijou-lhe a mão e o sangue jovem brotou alguns segundos depois da linha estreita ser marcada na carne do rapaz. Com a mão na boca, Gérson praguejou e encaminhou-se ao banheiro. Atrás do espelho do banheiro havia éter e ataduras, que Gérson usou para fazer o curativo. Seus olhos alcançaram um pequeno frasco escondido atrás de um pote com algodão. “Isto vai manter meus nervos em ordem”, ele pensou, carregando a frasco para o quarto e despejando o conteúdo sobre a lâmina de uma das facas. Com outra faca, ajeitou uma carreira e aspirou com força o pó. Apertou os olhos por alguns segundo, com o rosto chanfrado em uma careta e logo os abriu, como se nada tivesse acontecido e voltou a amolar as facas. Agora ele não podia se dar ao luxo de ter facas cegas em casa.

Continua

I.

– Precisamos conversar – a voz de Gérson praticamente escorregou pelo fone, tão trêmula que estava. Suas mãos suavam.
– Não tenho nada a tratar com o senhor – Fernanda respondeu, seca, enquanto observava a rua através de uma fresta nas cortinas de renda. Havia acabado de amarrar o cordão do roupão branco.
– Nanda, a gente precisa conversar – Gérson disse com a voz embargada.
– Já disse que não temos nada para conversar. Por favor, não me ligue mais – Fernanda sibilou, fazendo uma concha com a mão direita. Era a terceira vez que Gérson telefonava naquela semana, desrespeitando o pedido que Fernanda fizera havia um mês. Será que ele não percebia que estava sendo inconveniente, ligando para a casa de uma mulher bem casada e mãe de uma linda menina, ainda mais quando ela o tinha dispensado? E se sua filha ou seu marido atendesse? Fernanda não queria nem pensar naquilo. Odiava escândalos.

II.

A fina chuva de verão chocava-se contra o vidro e era recolhida pelo pára-brisa do carro de Walter. Faltava cinco dias para seu aniversário de casamento e ele era só sorrisos. Em verdade, sempre fora um homem sorridente, simpático e bem-quisto por todos em sua vizinhança, dono de um sorriso sincero e largo, composto por dentes extremamente alinhados e brancos. Mas naquele dia em especial, seu sorriso estava mais branco e mais brilhante: havia conseguido o presente ideal para sua esposa. Foram meses de procura, mas ele havia enfim encontrado o vestido que sua esposa tanto queria. Seu sorriso abria-se cada vez mais toda vez que ele imaginava o corpo perfeito de Fernanda coberto pelo tecido fino, seus lindos seios marcando a seda e suas coxas aparecendo pela fenda lateral da roupa. Sim, ela ficaria lindíssima em seu novo vestido de seda vermelho-sangue e ofuscaria todas as mulheres que estivessem presentes na comemoração de suas bodas. Doze anos de casamento e ela ainda continuava linda como no dia em que eles se conheceram. O sorriso de Walter não poderia estar mais brilhante.

Estacionou o carro e, com muito cuidado, escondeu o vestido em uma caixa na mala do carro. “Ela vai ter uma surpresa e tanto”, Walter pensou. Subiu a rampa da garagem e caminhou até a caixa de correios, onde as contas de luz, telefone, do cartão de crédito e da TV por assinatura o aguardavam. Pegou os envelopes e, enquanto os examinava, percebeu um pequeno envelope azul-celeste endereçado a ele, sem remetente. Sem importar-se, colocou o envelope entre os outros e caminhou até a entrada da casa, respirando profundamente o cheiro das plantas molhadas que ladeavam o pequeno caminho de largos seixos que conduzia à porta principal. Enquanto a chave girava na engrenagem da fechadura, Walter ouviu o bater de pequenas patas e unhas na madeira escura da porta. Era Zazá, a pequena cadela pinscher de Fernanda, que latia e batia as pequenas patas na porta, esperando Walter entrar para fazer-lhe festa. Walter ajoelhou-se sobre o tapete da entrada e acariciou a barriga de Zazá, que latia ininterruptamente. Ergueu-se, apoiando uma das mãos na parede e adentrou na sala, onde sua esposa estava colocando o telefone no gancho.

– Olá, amor. Era para mim? – Walter perguntou, beijando com suavidade os lábios de sua esposa.
– Não, era do bufê perguntando se queríamos filet mignon ou camarão para o jantar do nosso aniversário de casamento – ela respondeu, olhando Walter nos olhos e sorrindo.
– Diga que você pediu o camarão – Walter sorriu, franzindo a testa.
– Anda enjoado da carne, querido? – Fernanda sorriu e beijou-lhe os lábios.
– Passe o dia inteiro dentro de um açougue e você vai me entender – ele respondeu, beijando-lhe a testa e indo em direção ao escritório, para guardar as contas.
– Boutique de carnes! Açougue era aquilo que o seu pai tinha – ela retrucou, torcendo o nariz.
– O que meu pai tinha era um abatedouro, ele matava os bois. Eu vendo carnes, o que faz de mim um açougueiro – ele disse, ligando o computador e separando os envelopes das contas.
– Você é um empresário, Walter. Açougueiros passam o dia cortando carne e você não faz mais isso, graças a Deus. Hoje você é proprietário de uma rede de boutiques de carne – ela falou severa, olhando-o separar os envelopes por cima de seus ombros. – Alguma carta para mim?
– Não, mas se você quiser ficar com a fatura do cartão de crédito, fique à vontade – ele virou-se na direção de Fernanda e estendeu-lhe a correspondência, com um sorriso no canto direito da boca.
– Dispenso, querido. Esse é o pequeno preço que você paga por ter uma mulher bonita como eu – ela disse e sorriu, puxando o cordão do roupão, que caiu a seus pés e revelou a bela nudez de Fernanda, um corpo perfeito ainda salpicado com gotas d’água. Ela sentou-se no colo de Walter, que a abraçou, beijando com avidez os mamilos rosados e intumescidos de sua esposa. Ele a tomou no colo e a colocou em cima da bancada do computador e, com as mãos trêmulas, abriu o zíper de sua calça e encaixou-se entre as coxas grossas de Fernanda. Os papéis cairam do móvel enquanto o casal se entregava ao desejo e o chão ficou coberto com as contas de água, luz, TV por assinatura, orçamentos de consertos de um motor de um refrigerador e um pequeno envelope azul-celeste, onde lia-se em letras pretas apenas o nome de Walter.

Continua

– Otávio? T@vito? – ela perguntou, tocando-lhe o ombro esquerdo.
– Fernanda? Nandinha25ES? – perguntou, virando-se e fitando-a de baixo a cima, e detendo-se em seus olhos.
– É, eu mesma – ela disse, com um sorriso tímido no canto dos lábios.

Houve um breve instante de silêncio, onde eles apenas se olharam.

– Alguma coisa errada? – ela perguntou, prendendo a respiração. Afastou com a ponta dos dedos uma mecha que cismou em cobrir-lhe o rosto.
– Não, nada errado. É que você é um pouco mais alta do que eu imaginava – ele respondeu quase de imediato, com um sorriso amplo.
– Descrições de Internet são não lá muito precisas, não? – ela sorriu e olhou para o chão. Ele realmente usava tênis coloridos, como havia mencionado em um e-mail.
– Alguma coisa errada? – ele perguntou, enfiando as mãos nos bolsos. Não queria que ela visse seus dedos trêmulos.
– Não, de forma alguma – ela sorriu, voltando a olhá-lo nos olhos. – Bom, sua voz pode não ser tão grave quanto soa nas minhas caixas de som, mas você tem muito mais cabelo do que a maioria garante ter – ela disse, desalinhando os cabelos dele.

E os dois começaram a rir. Ele achou bonito o jeito como as narinas dela tremiam enquanto ela ria. Tantas vezes a vira pela câmera e esse detalhe havia passado desapercebido.

– Café? – ele perguntou, apontando para o balcão. – Forte, sem açúcar?
– Forte, com adoçante. – ela respondeu, deixando que ele a conduzisse até o balcão. – Pensei que sua memória era… como você disse mesmo? Prodigiosa? – ela disse, sorrindo e erguendo uma das sobrancelhas.
– Costuma ser quando eu tenho o histórico dos chats à mão – ele sorriu e olhou para o chão. Ela calçava sapatos de boneca, que ele achou apropriados, pois combinavam com seu sorriso e sua pele, alva como louça. – Estou adorando estar aqui com você. A gente só descobre de verdade quem está do outro lado do monitor em momentos assim.
– Eu brindo a isso – ela disse, soprando a fumaça do café e sorrindo para ele.

Durante horas conversaram e riram, tentando se acostumar com a ausência do barulho das teclas. Acharam graça de como nunca haviam se visto, mas sentiam-se confortáveis um com o outro como se o laço que os unia fosse mais do que os muitos quilômetros de cabos telefônicos, como se estivessem juntos desde a maternidade.

– E agora, o que você quer fazer? – Otávio perguntou, segurando a mão de Fernanda e ajudando-a a passar pela porta entreaberta da cafeteria, quando as luzes se apagaram. – Quer conhecer os bares da cidade? Ir a um restaurante? Encontrar uma LAN house 24 horas e escrever sobre o seu dia em seu blog? – ele a olhava nos olhos, sorrindo.
– Talvez descobrir o que mais esconde o outro lado do monitor – ela disse e o beijou, sob a luz do letreiro de neon.