Era comum vê-lo sentado à pequena mesa circular da varanda, fazendo palavras-cruzadas. Era um ritual diário, o único vício que ele ainda cultivava. Muito tempo atrás havia o cigarro, a bebida e a madrugada, mas apenas as palavras-cruzadas conseguiram acompanhá-lo até que seus cabelos tornaram-se grisalhos, as rugas riscaram seu rosto e a vista precisou da ajuda dos óculos que ele tanto detestava na juventude. Por mais voltas que os ponteiros do relógio pudessem dar, ele permanecia, de certa forma, inalterável; talvez com as arestas um pouco gastas, mas ainda o mesmo. Morava em uma grande casa amarela no campo, a muito havia se cansado do jeito corrido e impessoal da cidade e decidiu colocar o pé na estrada para não voltar mais. Nos vinte anos que haviam se passado desde que trouxera seus livros, discos e quadros para a casa amarela, traço algum de arrependimento surgiu em seu rosto. Aquela casa era tudo que ele sempre desejara: um grande gramado na entrada, cortado por uma escadaria de pedra ladeada por flores que perfumavam o ar quando a chuva caía, quartos de sobra para hospedar os amigos que vinham da cidade nos feriados e uma área coberta nos fundos, com uma churrasqueira, perto da piscina. E tinha também a varanda, o seu lugar preferido da casa. Era lá que ele passava a maior parte do tempo, lendo e escrevendo quando a luz do sol beijava o assoalho ou dedilhando um velho violão quando a lua aparecia em noites de pouco frio.

Os corredores da casa eram cobertos de quadros e fotografias, recordações que ele gostava de admirar vez em quando. Às vezes fechava os olhos e sentia que podia ouvir suas vozes, sentir seus cheiros, tocar seus ombros. Sua foto preferida no meio de tantas recordações era uma de seu filho, deitado sobre seu peito, no gramado na frente da casa. Costumava dizer que, se um dia pudesse ir à Terra do Nunca, esse seria esse o pensamento feliz que o faria voar, mesmo depois de perder as contas de quantas vezes lera a história de Peter Pan para seu filho dormir e quanto tempo havia se passado desde que seu menino começara a contar a história e cantar as canções de ninar para seus próprios filhos. E sempre que as recordações faziam seus olhos marejarem, ela segurava sua mão e dizia, certa de fazê-lo sorrir:

– Por que não vamos à varanda e cantamos aquela música que você fez quando me achava a mulher mais bonita do mundo?

E assim iam, sorrindo de mãos dadas, à varanda. Como quando saíram da igreja na juventude, como juraram fazer até o fim da vida.

então está bem
a gente se amarra bem forte
e se segura
– tá amarrado?
– tá sim…bem forte
blz…agora o furacão pode passar…

Ei…vai dar tudo certo. viu?

Os olhos piscaram vagarosamente, tentando fazer foco conforme consciência era recobrada. Sentia-se um tanto enjoado, mas não sabia o que lhe causava aquele mal-estar, como não sabia onde estava nem como havia chegado àquele lugar estranho: uma sala cúbica de pé direito baixo, aparentemente hermética, cuja fraca luminosidade vinha de uma pequena janela retangular em uma das paredes.

Ergueu-se lentamente, sentindo as pernas fracas e o estômago dando voltas. Apoiou-se com a mão espalmada em uma das paredes, quase um tombo, e notou que a parede era feita de metal. Seu estômago contraiu-se com tanta força que o fez dobrar o corpo, arfando. Percebeu então que o chão da sala era do mesmo metal das paredes e, limpando a boca com uma das mangas da camisa, descobriu que o teto também era do mesmo material. Forçando a vista, notou que havia um pequeno respirador no canto direito do teto.

– Socorro! – gritou na direção do respirador. – Alguém pode me ouvir? Eu estou preso aqui – ele gritou, enquanto batia nas paredes, mas ninguém respondeu seu pedido de ajuda. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele começou a bater com mais força e a gritar mais e mais, mas sua voz e as batidas nas paredes de metal eram os únicos sons que reverberavam pela sala. Os joelhos fraquejaram e ele tombou no chão, chorando copiosamente. Sentia-se fraco, sentia-se enjoado, queria sair dali, queria voltar para casa. Então, a luz que vinha da pequena janela tornou-se mais forte.

Arrastou-se pelo chão metálico, tentando chegar à janela. Sentia-se cada vez mais fraco, mas precisava alcançar a janela, precisava descobrir se havia alguém além do vidro que pudesse ajudá-lo a sair de sua prisão metálica. Sua respiração foi ficando mais pesada à medida que se aproximava da janela, mas ele continuou se arrastando até esbarrar em um objeto metálico tombado no chão da sala. Tateando, descobriu que era um banco, com longas pernas de metal. Utilizando o banco como apoio, conseguiu se erguer mais uma vez e apoiar-se na parede, alcançando a janela. Com espanto, descobriu que o que havia além do vidro era uma réplica exata do banheiro de sua casa: as cubas, as toalhas, tudo exatamente igual; mas não acreditou em seus olhos quando viu sair do box um homem exatamente igual a ele. Confuso, tentou bater no vidro e chamar a atenção de seu sósia, mas seu corpo não o obedeceu. Estranhamente, começou a imitar, simétrica e simultaneamente, os movimentos do homem à sua frente, que penteava os cabelos com um sorriso no rosto.

– Aposto que você está confuso, mas logo você se acostuma à sua nova morada. Não é tão bonita quanto esta, mas é um bom lugar – disse o homem do outro lado da janela, retocando o penteado com a ponta dos dedos. – E poupe o seu fôlego: não adianta gritar ou bater nas paredes, porque ninguém pode lhe ouvir. Na verdade, só eu sei que você está aí – o sósia disse, sussurrando, e começou a rir. – Enfim, livre… depois de tantos anos procurando uma saída, estou finalmente livre do confinamento e desse joguinho idiota de mímica.

Ele tentou parar seus braços e controlar seu rosto, mas cada movimento do homem do outro lado da janela fazia com que seu corpo agisse por conta própria. Quis gritar, mas apenas um sorriso surgiu em seus lábios.

– Por favor, entenda: não é nada pessoal. – disse o sósia, sorrindo ao ajeitar a gola da camisa. – Viva feliz do outro lado do espelho – ele disse e saiu do banheiro, apagando a luz.

– Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!
– …
– …
– Por que você está me olhando assim?
– Não notou nada?
– O quê?
– Você realmente não percebeu?
– O que teve para perceber?
-…
-…
-…
– Ainda vai ficar me olhando desse jeito?
– Claro!
– Por quê?
– Você realmente não sabe o porquê?
– Não.
– Então não sou eu quem vai te contar. Humpf!
– …
– …
– …
– Eu espirrei, seu mal-educado!
– Hein?
– Eu disse que eu espirrei.
– Ah!
– …
– …
– E você não vai me dizer nada?
– E eu tenho que dizer alguma coisa?
– Claro! Toda vez que alguém espirra, quem está perto sempre diz alguma coisa, seu mal-educado.
– Ah, é?
– É! E você vai dizer?
– Ok, eu vou.
– Então diga!
– Saia de perto de mim que eu não quero pegar gripe.

Todos os dias, antes de dormir, acendia uma vela e pedia que nunca mais despertasse, pois muito havia desde que sua sede pela vida terrena sumira. Viajou pelos cinco continentes, visitou os maiores teatros e museus, teve filhos, escreveu livros, plantou árvores, desvendou os mistérios do sexo oposto. E então raiou o dia em que acreditou já ter visto o sol nascer o suficiente. Progressivamente, a comida ficou insípida, a vida perdeu as cores e até mesmo a libido se extinguiu; a única coisa que restou foi a fé em um novo começo, além da carne e do sangue. Assim começou sua rotina de acender velas e pedir pela chegada do fim. Por acreditar que, por nascer aqui sob o signo de Peixes, recomeçaria outro ciclo em outro plano com o sol em Áries.

Sempre detestei a fase de adaptação que inicia toda mudança. Toda essa coisa de ter que começar do zero… ah, isso sempre me deu no saco, principalmente a sensação de ser observado o tempo todo. Mesmo contra sua vontade, você se torna o centro das atenções, já que você é o cara novo. É impressionante como ser o novato chama a atenção das pessoas! Em todo lugar que você vai as pessoas lhe olham, as pessoas querem lhe cumprimentar… aliás, “querem” não: elas têm uma necessidade patológica de lhe cumprimentar, de conversar com você, de querer saber da sua vida. E ainda esperam que você retribua o mesmo sorriso imbecil que elas trazem estampados no rosto, enquanto conversam consigo. Ah, faça-me o favor… por que eu sou obrigado a passar por isso em toda mudança?

Para ser honesto, se os graúdos não me obrigassem a me transferir para cá, eu não viria mesmo! Eu já achei um saco quando me transferiram para lá onde eu estava! E quando eu finalmente me adaptei, eles batem o martelo e me mandam para cá. E para passar por todo o transtorno desnecessário que foi o raio da minha viagem de ida. Ontem, já no primeiro dia! Era para ser uma viagem tranqüila; relativamente demorada e cansativa, mas tranqüila. Mas não, foi um pandemônio de vinte e duas horas! Tem idéia do que são vinte e duas horas de viagem? E quando eu chego, enfim, cansado e com fome, ainda tenho que aturar todos aqueles olhares e aquela multidão de bobos alegres com seus sorrisinhos idiotas. Ninguém merece!

Bom, tive que vir, então eu vim. Sob protestos, mas eu vim. E tomara que seja a última vez que eu reencarno. Não tenho mais paciência para outra dessas.

A respiração de Edivaldo acelerava o passo a cada instante. Seus olhos pesavam, mas ele sabia que não podia fechá-los. Precisava manter-se acordado a qualquer custo. Deitado no chão áspero sob a janela, segurava o abdômen ferido com a mão esquerda, enquanto a outra tateava as gavetas da cômoda atrás do velho revólver Rossi. Estava perdendo muito sangue, muito rápido. “Não posso morrer agora”, Edivaldo pensou, com os dentes crispados. Seu olhar se detive na fotografia de seus pais, na parede oposta à janela. Fitava o rosto do pai e sua expressão endureceu ainda mais. Odiava aquele rosto, detestava tanto a imagem do próprio pai que a pendurou em frente à própria cama para que toda manhã saísse de casa inspirado para trabalhar. Edivaldo era matador.

Uma bala zuniu pela janela e estourou a lâmpada do cômodo. Do lado de fora, uma voz gritou em tom de escárnio:

– Perdeu, Edivaldo! A gente vai te quebrar, filho da puta!

A mão direita, trêmula, apertou o cabo do revólver com mais força. Sabia que o grito tinha sido dado pelo sargento Oswaldo. De todas as pessoas que Edivaldo detestava, Oswaldo ocupava o topo da lista muito antes de se tornar o policial desonesto que prestava serviço ao tráfico, quando ainda era o moleque mau-caráter que judiava de meninos menores da favela apenas por diversão. Edivaldo era um desses meninos menores.

Uma segunda bala varou a parede e alojou-se na porta do armário.

– Aparece p’ra morrer, seu merda! Se você não vier aqui, a gente vai invadir e vai te apagar de qualquer jeito!

Edivaldo começou a sentir frio. Olhou para a mão esquerda, que cobria o rombo feito por uma 765 e jurou por seu sangue que se aquele era a hora da sua morte, levaria Oswaldo com ele. Não morreria antes de ver o corpo de Oswaldo sem vida não chão, antes que seu sangue imundo lavasse a calçada de sua casa e o vingasse de sua vida miserável, de todas as surras e das curras que deram a Edivaldo o apelido que ele sempre odiou e que fez com que seu pai o escorraçasse de casa e usasse o velho Rossi para covardemente findar sua vergonha.

– Vamos invadir essa porra! Chegou a tua hora, Caga Leite!

A mão esquerda esqueceu a ferida e alcançou a 9mm que estava às costas. Num último esforço, Edivaldo levantou-se e, aos berros, descarregou sob forma de chumbo quente sua fúria sobre Oswaldo e seus homens. Após 21 disparos, o cheio de pólvora invadiu a rua e Edivaldo fechou os olhos, perguntando-se se conheceria, enfim, a paz.