Uma gota de suor correu pela testa de dona Idalina e perdeu-se no xale amarelo de lã que abraçava seu pescoço. Era uma tarde comum de domingo e o sol brando brilhava sobre o Rio de Janeiro. Ela olhou para o céu e franziu a testa, enquanto ajeitava seus grandes óculos de aro grosso: não lembrava se havia tomado ou não seu remédio para pressão alta antes de sair de casa. Ajeitou o xale ao sentir a brisa que começou a soprar e voltou a apoiar-se na bengala de peroba. Temia que o tempo mudasse, porque toda vez que o tempo mudava seus joelhos doíam. Voltou então a se concentrar em seu tricô. Queria terminar os sapatinhos da filha da vizinha de baixo antes do fim da semana.

– A senhora está pronta, dona Idalina? – perguntou o árbitro, estendendo a mão para ajudá-la a levantar-se do banco.

Ela agradeceu a ajuda e levantou-se, deixando as agulhas de tricô em cima do banco. Sob os gritos das torcidas, dona Idalina caminhou lentamente pelo gramado do Maracanã em direção à meta. Quando chegou à entrada da grande área, o goleiro titular a entregou seu par de luvas e gentilmente beijou-lhe a testa, desejando boa sorte. Em seus lábios brotou um sorriso que apenas os octogenários sabem sorrir e agradeceu ao rapaz por cima dos bifocais. Calçou as luvas e colocou-se em cima da linha, apoiada na bengala de peroba. Desejou ter uma bala de tamarindo, mas mesmo que tivesse alguma em sua bolsa, seria difícil pegá-la com aquelas luvas desajeitadas. Enquanto dona Idalina pensava em onde poderia comprar balas de tamarindo nas redondezas, a bola foi colocada a dois metros da grande área e o juiz aproximou-se da idosa, pousando gentilmente a mão em seu ombro.

– Posso autorizar a cobrança, dona Idalina? – ele perguntou, em voz baixa.

Ela balançou a cabeça de forma afirmativa, sorrindo. Ajeitou os óculos mais uma vez e soltou a bengala, abrindo os braços e flexionando os joelhos. E então soou o apito e a bola subiu em arco por sobre a barreira, indo em direção ao canto superior esquerdo. As varizes de dona Idalina pareciam querer estourar a pele de suas frágeis pernas quando ela tomou impulso e saltou. Em pleno ar ela esticou braço esquerdo ao máximo que pôde, mais do que quando ela conseguiu vencer a multidão de mulheres que cercavam Lupicínio Rodrigues e tocar seu rosto, na saída de um show na década de 50. Nos dois lados da arquibancada o silêncio imperava, até que veio a comemoração: dona Idalina havia conseguido tocar a bola com a ponta dos dedos, mas não conseguiu impedir o gol. O placar mostrava 3×1, resultado que sagrava o time adversário campeão. Sob aplausos, fogos e vaias, ela pegou sua bengala e caminhou lentamente para fora do campo, sentando-se no banco de reservas, ao lado do goleiro titular, visivelmente transtornado. Com um gesto ela chamou o técnico, que se aproximou dos dois com a cabeça baixa.

– O senhor tem alguma coisa a dizer a ele? – ela disse, voltando a tricotar os sapatinhos da filha da vizinha.
– Você estava certo e eu peço desculpas – disse o técnico, envergonhado. – Nem mesmo a sua avó conseguiria defender aquela bola.

Ele dedicou horas dos seus dias ao treino exaustivo da correta utilização da guitarra. A postura adequada, a empunhadura perfeita, o melhor ajuste da correia. Produziu excesso de pele na ponta dos dedos, calos, para que as cordas não as machucassem. Virou o garoto do colégio que, apesar de desajeitado e espinhento, era o centro das atenções femininas.

Decorou cifras, tons, cordas, a ordem das notas de trás para frente: dó, si, lá, sol, fa, mi, ré, dó. E as dizia em velocidade impressionante. Palhetava as cordas alternadamente, para cima e para baixo. Memorizou escalas pentatônicas, diatônicas, pentatônicas com blue note. Aprendeu a fazer harpejos. Se tornou o único garoto da rua que tinha uma banda de rock.

Desenvolveu ouvido absoluto. Tocava de olhos fechados, com a guitarra nas costas e de cabeça para baixo, pendurado em uma barra de exercícios. Conhecia os efeitos disponíveis, os possíveis e também os inimagináveis. Era um músico, sem dúvida alguma.

E tudo isso para um dia, diante de milhares de pessoas, estraçalhar o instrumento contra uma parede enorme de caixas acústicas, até fazer com que restasse em suas mãos apenas lascas de madeira com curtos pedaços de aço dependurados.

Agora sim, era homem. Sem dúvida alguma.

Você me dá tesão. não dos poucos. em doses cavalares. há muito tempo. e depois que fiz o que fiz. cheguei até perder o sono. confessei aos poucos. baixinho na timidez de um computador o que sentia por você. sentia sem ao menos sentir sua mão vagarosamente em meu rosto. ou um beijo demorado. longo. daqueles em que a morte instantânea do ar se torna macia e deliciosa. não queria que fosse assim. poderia ter sido no café. com você me comendo com os olhos. e eu saciando uma sede vascular. podia ter sido no meio de uma tarde, com qualquer coisa no som e nos ouvindo em silêncio. ouvir o que o corpo pede (melhor dizer clama) parei pra pensar no toque suave de suas mãos. que gosto tem tua boca? passei horas outro dia pensando. maldade pensar. e seu nome na lista dos conectados no msn. janela. eu queria mesmo é uma janela pra estar ai. bem próximo, tão próximo que o meu corpo é o seu corpo encostado no meu. maldito tempo e distância (ou melhor timidez) e você ali, parado na mesa do lado tomando sopa pelos dentinhos da frente. eu na outra ponta. observando. certeza? nenhuma, e se não for, pago o mico? Pago. Não pago? Indecisão geminiana terrível. queria você próximo dos meus quadrantes, queria você esquentando o corpo nesta tarde fria e chuvosa de São Paulo.

Bebeu mais um gole de aguardente e tomou coragem para atravessar a avenida. Quase nenhum carro circulava àquela hora pelo centro da cidade e a chuva, que caía pesada em plena véspera de Natal, começava a cobrir o chão imundo sob marquise que lhe oferecera abrigo. Os grossos pingos bateram com força em seu rosto e encharcaram suas roupas, mas ele seguiu com seu passo reto pelas seis pistas até chegar ao ponto de ônibus coberto que havia do outro lado da avenida. O banco alto sob a cobertura de acrílico pareceu um bom lugar para esticar as pernas. Colocou a mochila que carregava no ombro direito na ponta do banco e recostou a cabeça naquele arremedo de travesseiro. Estava tão cansado que nem mesmo o ruído do velho transformador enferrujado no poste ao lado da banca ou o guincho dos ratos fugindo dos bueiros inundados para não se afogar podiam impedi-lo de cair no sono. Deitou-se em posição fetal no banco estreito e fechou os olhos, esperando que o sono chegasse.

– Com licença? O amigo sabe informar se o 254 pára neste ponto? – perguntou um senhor idoso de voz muito grave, usando óculos de aro grosso e sorrindo sob um guarda-chuva quadriculado.
– Não sei informar, senhor. Não sou daqui – ele respondeu com um bocejo. A chuva apertou.
– O amigo se incomoda de me dar um canto no banco? Sabe como é, meus joelhos não são mais como costumavam ser – o senhor disse e ampliando ainda mais o sorriso sob a barba grisalha. – Meu nome é Agildo – ele disse, estendendo a mão.
– Zacarias – respondeu, apertando a mão do senhor e abrindo vaga para que ele se sentasse no banco. O relógio no canteiro central da avenida marcava 23h.
– Vejo que você vem de família religiosa – Agildo disse, olhando as gotas d’água se chocando contra o teto de acrílico do abrigo e depois aos dois lados da avenida deserta. – Você não deveria estar com eles esta noite?
– Deveria – Zacarias respondeu com desapontamento, tomando um gole de aguardente. – Deveria mas não consegui. Sou de fora da cidade, cheguei aqui faz duas semanas para trabalhar em uma obra que acabou hoje, mas quando terminei o serviço e cheguei na rodoviária, disseram que não tinha mais passagem para a minha cidade; e quando eu voltei para a pensão onde eu estava hospedado, disseram que o meu quarto já tinha sido ocupado… e cá estou, esperando alguma condução para voltar à rodoviária. Falando em condução, vem vindo um ônibus aí…
– Não serve para nenhum de nós dois, infelizmente – Agildo disse com os olhos espremidos sob as lentes. – Eu também estou tentando sair daqui do Centro. Encerrei meu turno e estou aqui esperando a minha condução.
– O senhor é vigia? – Zacarias perguntou, bebendo um gole de aguardente e oferecendo a garrafa a Agildo, que recusou com um gesto.
– Um tanto velho para o cargo, mas sim, trabalho como vigia. – Agildo disse, colocando a mão no ombro do rapaz – Você não devia maneirar com a bebida? Nesse ritmo, acho que você não vai conseguir chegar na rodoviária antes do ano novo… – ele disse e começou a rir.
– É, talvez eu deva maneirar mesmo – Zacarias disse, limpando a boca na manga da camisa. – Mas é que dá uma tristeza tão grande passar o Natal desta forma, debaixo de um aguaceiro como este e tão longe dos amigos e da família – disse, olhando para os inúmeros círculos se formando na água empoçada. Atirou longe a garrafa, que se estilhaçou no asfalto da avenida.
– Bom, chegou a minha condução… e logo atrás vem a sua, Zacharias. Tenha um feliz Natal! – Agildo disse, com sua voz grave, mas com um tom animador.
– Feliz Natal para você também, Agildo – Zacharias disse, virando-se para cumprimentar o simpático senhor, mas viu-se sozinho no ponto de ônibus. Em cima do banco, apenas sua mochila e o guarda-chuva quadriculado. Chamou várias vezes por Agildo, mas não a única coisa que ouviu foi um ronco de motor. A três pontos de distância, do outro lado da avenida, vinha bem devagar um ônibus para a rodoviária. Zacarias jogou no ombro sua mochila, abriu o guarda-chuva e tomou coragem para atravessar as pistas sob a forte chuva, fazendo o sinal da cruz.

Eu deixo que a raiva se apodere de mim. Do meu corpo, do meu pensamento, do meu subconsciente se assim for preciso. Eu deixo o ódio tomar conta de mim. Dos meus instintos, do meu arco reflexo, da minha imagem disforme refletida no espelho emporcalhado do banheiro. Eu deixo a agressividade falar por mim. Por minha postura inadequada, por gestos obscenos, por minha fala entrecortada por palavras de baixo calão.

Sou um sociopata encaixado perfeitamente na contemporaneidade das minhas ações. Engulo drogas lícitas para adormecer. Fumo drogas lícitas para me preencher. Bebo drogas lícitas para me esquecer.

Porém, eu amo meus filhos, minha mulher e o meu cachorro. Não duvide: eu faço tudo isso por eles, seu filho de uma puta!

– Pode anotar o que eu estou falando: as mensagens subliminares estão soltas por aí.
– Ah, deixe de ser paranóico, rapaz!
– Mas é a verdade, cara!
– Eu não acredito nessas coisas.
– Não acredita? Pois bem, eu lhe provo que isso existe sim.
– Ah, é? Como?
– Vamos lá: você come pipoca quando vai ao cinema?
– Como, ué.
– Já reparou no logotipo na entrada do cinema? São sacos de pipocas ladeando um rolo de filme! Aquela sugestião fica na sua cabeça e é por isso que você compra a pipoca.
– Não seja ridículo…
– E vai dizer que quando você vê aquela propaganda de refrigerantes na TV, aquela com a garrafa molhada no meio dos cubos de gelo, você não fica com sede?
– Bem, nunca reparei nisso…
– Claro que fica! Eles lhe induzem aquela imagem refrescante na sua cabeça para que você sinta sede e compre o refrigerante.
– Ah, não acredito nessas coisas.
– Ainda duvida? Lembra de quando você vimos a continuação de Matrix?
– Lembro! Nós assistimos na sua casa, em DVD.
– Lembra daquela cena onde tinha um monte daquele agente, que já fez papel de elfo e travesti, lutando com o mocinho?
– Claro! É uma das cenas principais do filme.
– O que você fez assim que você foi embora?
– Hmmm… entrei em uma loja e comprei um CD.
– De que grupo?
– Do The Smiths.
– Viu?
– …
– …
– Garçom! Desce a conta, por favor!

você abriu a porta do carro e me jogou pela rua. e eu fui descendo ladeira abaixo com todos os meus sentimentos deturpados. quando você julgou que eu não era mais necessária simplesmente acenou e disse vá embora. você não soube me entender. eu não quis te entender. me desculpe. não consigo ainda aceitar que tive que sair da sua vida só porque você não sabia lidar com determinada situação. você me mostrava, como boneca para todos. fazia questão dos beijos mais ácidos em públicos, mas no one-a-one você me ignorava. queria distância . era muito mais interessante a piscina, o dia de sol, do que minha companhia. então eu decidi sair de vez da sua vida. me aprumar pra minha .viver meus dias. minhas noites. e agora você me quer no seu carro de volta. uma noite a mais pra te proporcionar prazer. quer minha mão correndo pelo seu corpo e meu amor pleno explodindo os poros. desculpe. não posso mais. não quero mais. porque não sei lidar com sua carência. não consegui aprender a lidar com a imensa bola de pêlo que forma dentro de você quando se vê sozinho no vazio. e o silêncio anda gritando com você, falando tudo aquilo que eu ignorei. tudo que me perturbava. ele anda dizendo que existe uma felicidade muito maior dentro de mim, principalmente quando estou distante de ti. e agora não adianta dizer te amo. não adianta ligar. não adianta chorar. eu já fui. no dia que você me pediu para ir embora. eu decidi que nunca mais ia voltar pra tua vida.