Um. O elevador tem espelho. Os botões vão do um ao doze, arranjados em duas colunas iguais. O térreo é representado pela letra a. A de térreo? O botão de emergência é vermelho. Emergência. Para estes casos, existe um interfone que se comunica diretamente à mesa de controle da portaria.

Dois. Há câmeras. Sorria, você está sendo filmado. Baixarias em elevadores são adoráveis. Filmes eróticos, não pornográficos, porque eróticos têm história, ficam deliciosos vistos de cima, em preto e branco, com qualidade inferior.

Três. A porta pantográfica. Ah, a porta pantográfica. Mantenha as mãos longe das portas pantográficas. Aquelas pelas quais é possível observar o concreto assustador e odioso entre os pavimentos.

Quatro. Um interruptor para luz. Será que há pessoas que preferem subir no escuro? Talvez as mesmas pessoas que fazem sexo no elevador. Ou não. Pois sexo em um elevador com câmera é vouyerismo.

Cinco. É possível ouvir os cabos. Eles estalam, fazem barulhos ensurdecedores. São complexos cabos de aço, resistentes, reforçados. Quando passam por um pavimento completo fazem um ruído engraçado. Não rio. É um barulho engraçado, como se ele pudesse sorrir amarelo.

Seis…

Ela mora no sete. Mas este é o seis? Eu posso ver no mostruário antigo, que fica acima da porta pantográfica. O número fica aceso. O seis está aceso. Mas não ouço aquele barulho amarelo. A luz pode falhar. O interfone, ocupado. Emergência! Emergência! Emergência.

Ah, se ela soubesse. Que o meu coração dispara, minhas mãos suam frio, minha espinha se arrepia e é preciso afrouxar o colarinho. Não por causa da iminência de encontrá-la, mas porque o elevador pode parar. Ah, se ela me visse neste instante, desabando do alto da sanidade como um doente, me entregando por completo ao pânico, com as mãos para cima e o corpo mole feito marionete desalinhavada.

Ainda o seis.

Sete. A porta pantográfica abre-se esplêndida, coreografada. Me recomponho e toco a campainha feito macho reprodutor que preciso ser. Vamos direto para o quarto e fazemos sexo feito animais selvagens. Ela me chama de garanhão, pede palmadas no bumbum e que eu a chame de puta.

Ah, se ela soubesse que o meu coração dispara.

Dramatis Personae:
– Damiano, um músico louco, que possui muitas coisas ruins
– Renata, uma mulher incomodada com algo que ela não sabe ainda
– Sem violão (porque seria óbvio demais e o Costinha disse uma vez em uma entrevista que o que ele mais detestava era os pedidos para ele contar piada, só porque ele era um humorista, capicci?)
– O louco do telefone
– Jussara, menina de 10 anos do 5º andar
– Mãe de Jussara

Dramatis Literae
Damiano e Renata estão sentados no sofá tomando cerveja. ele com a cabeça em temas fáceis da vida (mulher e tristeza), o ela pensando no sangue no meio dela, do filho que ela nunca teve, da vida que nunca teve. Lembra da mãe dizendo: vai se acostumado com o mundo, depois te vira minha filha, te vira, hoje é só barulho de sangue, e logo vem o barulho do mundo e dos homens. Eles estão ali, sem querer nada. sentados diante um do outro, ele prolixo, e ela sem saber o que quer, vai ficar uma emboladeira que no fim das contas não vai sair nada com nada, mas vamos prosseguindo.

No andar de cima, mãe de Jussara na cozinha lavando louça e Jussara, a menina do 5º andar brincando no corredor do prédio com todos os seus brinquedos espalhados no chão, certa que alguém irá cair neles a qualquer momento.

Cena 1
Renata – Damiano.o que fazes? o que pensas?
Damiano – Que poderia juntar todas as coisas menos ruins e fazer um disco…nao sei..não sei na verdade. Re, pega outra Bohemia pra mim?
Renata: ok. Bohemia? Lembrei da música triste.
Damiano: Qual? A do Nelson?
Renata: Sim, essa mesmo. “boêmia..aqui mi tens de regresso” Ai credo, Pára.
Damiano: boa musica
Renata: Voltamos?
Damiano: pra onde?
Renata: onde vc quer voltar?
Damiano: pro sofá?
Renata: isso..de volta pro sofá
Damiano: tem bohemia?
Renata: sim..tem..perai

Cena 2
Damiano: Rê?
Renata: oi.
Damiano: fiz uma coisa aqui
Renata: o que?
Damiano: mas acho que está uma boa merda. nem vou te mostrar

(silêncio. ela levanta do sofá e fica uns minutos parada. em silêncio. ele olha ela com aquela camiseta velha do deep purple. toda suja rasgada. desfeita. Ela em silêncio)

Jussara do 5º andar: Mãeeeeeeeeee, manhêeeeeeeeeeeee posso brincar no parquinho…mãeeeeeeeeeeeeeeeee MAEEEEEEEEEEEEE, posso?
Mãe de Jussara: Não Jussara, você acabou de tomar banho. Fica quieta menina.
Jussara do 5º andar: Mãe então deixa só eu pegar meus brinquedos no meio do corredor?????? Deixaaa vaiiiiii
Mãe de Jussara: Fica quietinha ai Jussara pra mãe terminar de limpar a cozinha..quietinha

(Jussara começa a gritar e chorar no quarto)

Damiano: ei. hummm
Renata: oi, calma. estou me recompondo. me mostra
Damiano: recompondo de que?
Renata: acabei de ter um lampejo de pensamento. Mas não interessa, me mostra o que você fez.
Damiano. Não, me conta sobre seu lampejo. mas nao vou te mostrar não..tras outra bohemia?
Renata: então.algo me irrita. não sei o que é. irrita. incomoda. pifa. algo me deixa doida. não não sou eu. não é você. não é o emprego. não é o amor. não é a família. nem doença. nem tia. nem pia. nem nada. não sei. entende? sei lá. algo me deixa incipiente. restrita. fulaninha da silva sauro. sabe?
Damiano: eu sou o que seu?
Renata: não sei. o que somos?
Damiano: bem…nao sei. nos conhecemos ha qto tempo?
Renata: há muito tempo.você já sabe disso! não se lembra?

(ele prolixo, nem se lembra. Ela com cólica lembra que não sabe o que quer. Não quer conversar sobre o passado. O passado lhe sobe as paredes do estômago, como a cólica que lhe comia a alma neste momento)

Cena 3
Damiano:Re.. qdo foi que nos conhecemos?
Renata: eu peguei carona contigo.vc estava indo atrás da música, e eu atrás de um rumo
Damiano: aí vc me chamou pra tua casa. Estávamos perdidos
Renata: sim..
Damiano: o que é que te incomoda? Estamos perdido e já basta
Renata: me diz o que vc escreveu. mesmo sendo uma merda vai.
Damiano:Re.. nao vou mostrar nao..sei lá. Tá muito ruim
Renata: Que droga Dami. Mostra porra.
Damiano começa cantar baixinho, sem guitarra, nem violão, só lá olhando pro nada”não quero saber mais disso.. éramos um só… o que aconteceu?”
Renata: não sei. nos perdemos. você se perdeu também
Damiano continua: “atravesso a rua, e nada resta, já é hora de ir pra casa, ver televisão com os amigos”
Renata: vou ali do lado descabelar e já volto. vou des-ca-be-lar. vou me rebelar.revelar.
Damiano sem perceber os manifestos de Renata preenche o vazio com mais um verso “e mandar fazer pipoca.. e esquecer de tudo!

Jussara do 5º andar corta a sintonia de Damiano. Depois de descobrir que chorar não faz efeito mira da cama pro chão um pulo, e continua a pular. E a gritar. pular e gritar. Grita tudo que pode. Renata e Damiano olham pra cima. Foi bom ter perdido aquele filho.

Renata: Dami para de cantar essa canção maluca poxa.

(silêncio)

Damiano:viu? sabia que nao ia gostar…
Renata: não é isso.
Damiano:então..
Renata: pra onde vamos?

Renata pensa “ele não me entende mais…Eu fiquei de sobreviver. Estupidez isso de querer voltar sempre para algum lugar. Para onde você quer voltar? De onde você veio? Eu quero você”
Damiano: Esquece isso. esquecer de tudo.. das coisas desse mundo
Renata: ai meu deus, vou-me embra
Damiano: nao
Renata: vou é me escafeder-se de vez. Me perder de vez
Damiano:espera…
Renata: vc é louco dami
Damiano:talvez
Renata: eu sou louca e estamos perdidos demais.
Damiano:talvez
Damiano:”ponha isso na cabeça, pois é o que te resta”
Renata: Para de cantar essa merda de música Damiano! Mas que droga!

Cena 4
(o telefone toca). Silêncio. Dois toques. Jussara berra mais uma vez.

Renata: não deixa tocar
Damiano: nao atende Rê
Renata: eu atendo
Renata: Alo.
Damiano: NAOOOOOOO. não atende. droga..
Renata: é o louco. Fala louco. Que cê quer? Não. Nós não vamos mais. Onde estamos? Não sei , onde você está?
Louco: estou do outro lado da esquina, desistiu de fugir comigo Rê?
Damiano: o que ele quer?
Renata: não..as coisas não estão bem. não está nada bem
Renata: eu vou embora Louco, vou embora, sumir de você, do Dami..de todos
Damiano: Não. Não vai
Renata: toma Dami o telefone
Louco: Rê..calma o que houve? Alô? Rê?
Damiano: Alô? Quem é?

Tu tu tu tu tu tu
Jussara puxa o fio do telefone no andar de cima achando que ele serve pra ela pular corda. Mais uma distração antes de derrubar o prédio com seus gritos.
Mãe de Jussara: Jussaraaaaaaaaaaaaaaa, pára menina. Será o benedito CRISTO que você não consegue ficar parada drogaaa! JUSSARAAAAAAAAAA CALADAAAAA! Vai desce…

Jussara desce as escadas e antes de chegar no térreo encontra um urso no meio do caminho.

Damiano:se eu pedir pra você ficar?
Renata: vou embora
Damiano: se eu pedir com jeitinho..? Segurando a sua mão?
Renata: Pára Dami, você só me deu carona porque sabia que ia me comer, que ia me curtir, que ia se divertir. Foi bom por um tempo. Mas você é prolixo demais, eu sou perdida demais, e estamos todos fora do rumo.

Final
Renata bate a porta, não percebe o brinquedo de Jussara no meio do caminho, tropeça e escorrega na escada, cai e morre.
No primeiro andar um pouco de sangue escorre. Jussara coloca a mão no chão e grita: TINTAAAAAAAAAAAA!!!! E segue o caminho do sangue pra ver se acha outras cores.

Damiano grita: Re!!! Não Rê??? Eu te amo porra! REEEEEE
Desesperado entra dentro de casa
Descobre que está com muita sede. O corpo de Renata no corredor lhe dá sede. Vira o copo de cerveja muito rápido.
Engole seco
Morre engasgado.

O louco do outro lado da linha pensa: as imundas coisas desse mundo, as coisas minhas e suas… desse mundo. Acho que isso dá uma canção.

Jussara sobe. Enocntra seu brinquedo, recolhe, vê a porta entreaberta e encontra dois corpos, um do lado de dentro e um do lado de fora. Em cima da mesinha de cabeceira muitas revistinhas do Cebolinha e uns papéis com algumas palavras que ela ainda não entende. Ao lado dessas coisas todas um pote de balas. Passa a mão no pote, nas revistas e toca subir enquanto sua mãe berra do 5º andar.

trilha sonora adjacente: nobre vagabundo, daniela mercury

The End

Agradecimento mais que especial a Fe Barão pela ajuda neste post e pela companhia no msn enquanto eu delirava na história…

É para você deitar de barriga para cima, com as pernas levemente arqueadas para dentro e as palmas das mãos viradas para cima. Respire lentamente. Deixa a cabeça pender sobre o travesseiro e pense apenas no bem que você fez. Esqueça todo o mal, pois ainda há tempo para a redenção. Eu recomendo que você feche os olhos. Fica mais fácil deste jeito.

Imagine uma praia paradisíaca, onde todos os seus sentidos podem descansar. Sinta os estímulos do mar, da areia, do vento. Esvazie a consciência de preocupações ou angústias. Depois de alguns segundos, sua mente deve ficar completamente descontraída e em branco. Mesmo que o pescoço se enrijeça um pouco, não se assuste.

Agora você vai sentir uma leve picada. Logo depois, um calor vai percorrer todo o seu corpo. É a química da injeção letal abrindo caminho até o coração, dilatando as suas veias. Em pouco tempo estará tudo acabado.

Que deus lhe receba de braços abertos.

ele achou que eu fosse idiota. uma idiota qualquer com quem ele poderia farrear um pouco, tirar uma lasca sabe? achou que eu era a menininha que espera o príncipe encantado no cavalo branco. achou que pelos beijos e pelo largo abraço eu não iria perceber que ele estava sim me usando. coitado. ele achou. no fundo não percebeu que meus doces beijos molhados eram mais uma forma de saciar uma sede que em mim permanece viva: desejo. só o desejo. vontade de sentir prazer e só. nada mais. levantar, recompor, vestir-me e escafeder-se. Ele achou que eu esperaria telefonemas na tarde seguinte, papos longos no msn. achou errado. não suportaria bater longos papos no msn. sua safadeza me cansa, tanto quanto seus trocadilhos ordinariamente comuns. o telefonema na tarde seguinte só me lembraria do detalhe: não quero pertencer a ninguém. não posso. sou larga e espaçosa demais para caber em seus braços baby. ele achou que o que eu queria era subir mais uma vez no seu apartamento e gastar o desejo, achou errado, eu só queria pegar meu cd e ouvir aquela canção toda minha. achou que eu me apaixonaria, só esqueci de dizer que não acredito mais em amor, muito menos esse, que você insiste em me dar por conta de uns beijos trocados, de uma carícia maldita.

Eu segui exatamente as indicações que você desenhou no guardanapo. Encontrei as referências em retângulos sublinhados. Virei nas ruas com nomes abreviados, em letra de forma. Não era assim?

“Olha, você pega essa rua aqui, segue reto, ela só dá mão pra cá. Aí você vai ver um posto de gasolina na esquina. Não vira. Mais à frente tem uma livraria enorme. Aí você pega essa rua, à direita, e segue até o fim. De repente tem uma bifurcação. Vira à esquerda e vai reto-toda-a-vida. Lá no final, você vai ver um bar bonitinho, com mesas na calçada. Meu prédio fica ao lado. Número XXX, apartamento X02.”

Eu só queria ter um mapa como esse para o nosso pequenino labirinto particular.

Mais uma vez, você é convidado(a) a imaginar que sua cadeira é a poltrona de um teatro, a do Theatro Jacta Est. Pegue sua pipoca e o guaraná, pois a peça de hoje começa agora.

Cenário: A mesa nº5 do restaurante Le Cygne Bleu.
Personagens: O pacato garçom Nogueira, Lauro Coimbra e sua esposa, Solange.

***

As longas velas brancas adornam a mesa nº 5 do Le Cygne Bleu, o restaurante mais refinado da serra fluminense, onde Lauro Coimbra e sua linda esposa Solange decidiram comemorar suas bodas de prata. O maître os conduz pelo grande salão à mesa reservada, próxima a uma grande janela, de onde pode-se ver a lua cheia.

L: (puxando a cadeira para Solange) Espero que você goste daqui, meu amor. (sentando-se em frente a Solange e segurando sua mão) Pedi para que uma mesa próxima à janela porque eu sei o quanto você gosta de olhar a lua, (sorrindo para Solange) que está linda hoje, mas não tão linda quanto você.
S: (fascinada) Meu Deus, Lauro… está tudo tão lindo! (sorrindo para Lauro) Mas você não devia…
L: (colocando o indicador em frente aos lábios de Solange) Devia sim. Hoje completamos 25 anos de casados e você merece que tudo esteja perfeito.
N: (aproximando-se da mesa) Bem-vindos os Le Cygne Bleu, meu nome é Nogueira e hoje serei seu garçom. (sorrindo para o casal) Os senhores desejam fazer o pedido?
L: (acariciando a mão de Solange) Nogueira, faça o favor de nos trazer uma garrafa do melhor vinho que a casa tiver e gostaríamos de pedir uma salada de mangas como entrada, coq-au-vin como prato principal e de sobremesa bavaroise de chocolate com amêndoas.
N: (anotando o pedido) Claro, senhor. Dentro em breve a comida será servida. Com licença (sai de cena).
S: (com a voz embargada) Ah, Lauro… que romântico! Mas você não devia…
L: (interrompendo e sorrindo para Solange) Sim, devia: hoje é uma data importante e eu quero que tudo seja perfeito. Você merece que tudo esteja perfeito.

Cinco minutos se passam e Lauro e Solange conversam sobre os bons momentos de seu casamento, como a cerimônia, a lua-de-mel e o nascimento de seus filhos. Nogueira volta à cena, trazendo em uma das mãos uma grande travessa.

N: (inclinando-se sobre a mesa) Com licença, com licença: eis a salada de mangas. (servindo o casal, com um sorriso no rosto) Espero que esteja ao gosto dos senhores.
L: (provando a salada e sorrindo) Ah, está deliciosa, Nogueira. Realmente o cozinheiro está de parabéns e… (olhando com cuidado para o prato) epa! Tem um cabelo na minha comida! (irritado) Tem um cabelo na minha comida, Nogueira!
S: (segurando a mão de Lauro) Lauro, você não devia…
L: (olhando para Solange com severidade) Solange, eu exijo que tudo esteja perfeito hoje. (virando-se para Nogueira) Você vai trocar esta salada, não vai?
N: (perplexo) Perfeitamente, senhor. Perfeitamente. (sai de cena)
L: (visivelmente irritado) É um absurdo que em um restaurante como o Le Cygne Bleu possa se encontrar um cabelo na comida. (gesticulando, com a faca em riste) Um absurdo, um absurdo!
N: (colocando outra travessa à mesa e servindo o casal) Aqui está, senhor. Em nome da casa, peço desculpas pelo incidente.
S: (sorrindo para o garçom) Sem problemas, Nogueira. O Lauro não devia…
L: (irritadíssimo) Devia e faço de novo: eis outro cabelo na minha salada. (olhando para Nogueira) Como você explica isso?
N: (espantado) Não sei, senhor. O cozinheiro é careca e…
L: (falando com os dentes trincados) Leve esta imundice daqui, agora. Eu quero ir embora daqui.
S: (segurando a mão de Lauro) Lauro, querido… você não devia…
L: (aos berros) Olha a quantidade de cabelos que tem nesta salada! (mostrando o prato a Solange) Olha aqui! (virando-se para Nogueira) Pois bom, eu vou ficar. Não quero saber da entrada: sirva logo o coq-au-vin. (com o dedo em riste) Mas se eu vir um só cabelo na comida…
N: (assustado) Sim, senhor. Vou buscar o coq-au-vin. (correndo em direção à cozinha) Só um minuto!
L: (tentando acalmar-se e olhando para o teto) Juro que se eu vir um único cabelo no coq-au-vin, mando fechar esta espelunca. (esmurrando a mesa) E ganharam cinco estrelas naquele guia de restaurantes… que absurdo!
N: (empurrando um carrinho com a comida) Eis o coq-au-vin, senhores! (sorrindo nervoso para Lauro) Eu inspecionei pessoalmente o prato, senhor. (servindo o casal) Podem comer com gosto, que não tem cabelo nenhum na comida.
L: (esmurrando a mesa ao olhar para o prato) Você é um excelente inspetor, Nogueira! (levantando-se e colocando o prato na altura do rosto do garçom) Conte: quantos cabelos têm neste prato?
N: (perplexo) Não é possível! Não havia cabelo algum!
S: (tentando acalmar Lauro) Amor, você não devia…
L: (impacientando-se com a esposa) O que eu não devia, Solange? Não devia reclamar? No meu aniversário de 25 anos de casado eu devia comer comida com cabelo? Devia pagar uma fortuna para comer mal? (virando-se para Nogueira) Fique você sabendo que eu tenho amigos na Vigilância Sanitária e amanhã mesmo esta espelunca vai ser fechada. (rindo maliciosamente) Você pode apostar a sua carreira miserável que amanhã esta pocilga estará lacrada e…
S: (aos berros) Cale a boca, Lauro!
L: (estupefato) S-Solange?
S: (arfando) Pare de gritar com o pobre do rapaz, que faz mais de uma hora que eu estou tentando lhe dizer que você não devia ter saído de casa sem tomar seu remédio para calvície!

Cai o pano.

Ele sorriu para ela como se fossem dois estranhos. Ela retribuiu. Com um ar “sem-graça” ela se dirigiu a ele e o cumprimentou, sentindo o peso da obrigação de fazê-lo. Ele até que a recebeu agradavelmente, e no curto espaço de tempo de um beijo no rosto, assim mesmo, sem palavras, aquela antiga e arrebatadora paixão de outrora faiscou nos olhos e nos corações de ambos.

O corpo dela se aqueceu como que tomado por uma febre súbita. O dele estremeceu. Naqueles poucos instantes em que estiveram próximos depois de tanto tempo, sentiram-se novamente pertencentes um ao outro.

O perfume dela inebriou os pensamentos dele. A textura de sua pele o fez sentir o mundo rodar. O toque das mãos dele em seus braços a fez sentir como se flutuasse. O calor de seu hálito a enrubesceu. Várias recordações passaram pela mente dos dois. Da primeira vez que se viram na praia, no verão de três anos atrás. Do primeiro beijo no píer do hotel na noite enluarada. Do dia em que conheceram os pais um do outro. Da primeira vez que passaram uma noite juntos. Da primeira briga por motivos bobos. Dos planos para o resto da vida. Dos nomes que escolheram para os filhos que gostariam de ter. Dos aniversários, natais, festas de fim de ano. Da sempre constante atração sexual. Das loucuras, dos ciúmes. Todo o passado recente e maravilhoso de duas vidas tornadas uma lhes iluminou naqueles poucos instantes, no tempo de um beijo no rosto.