Ela foi embora sem ao menos dar uma olhada para trás, para ver o estado em que me deixou. Ainda bem que ela não se virou. Veria um rosto de formas retorcidas pela tristeza. Talvez não tenha se virado porque sabia que meus olhos ainda a acompanhavam na ignóbil tentativa de reter a sua silhueta, que com o tempo fatalmente viraria um vulto borrado sem qualquer legibilidade. Talvez ela quisesse ser esquecida, talvez quisesse garantir que nenhum resquício dela permaneceria em minhas retinas. Ela, de costas, era a última coisa que eu veria, talvez assim quisesse. Talvez porque ela também estivesse com os músculos da face prestes a se contrair, não sei. Talvez para o riso, talvez para o choro, não vou saber nunca – e talvez essa tenha sido a intenção dela.

Eu a vi caminhando, indo embora.

Eu a vi mexendo as ancas num rebolado sinuoso enquanto aumentava a distância entre nós dois.

Eu vi aquela bunda indo embora.

A bunda e ela.

A bunda dela.

 

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