Posterior / anterior

Ela foi embora sem ao menos dar uma olhada para trás, para ver o estado em que me deixou. Ainda bem que ela não se virou. Veria um rosto de formas retorcidas pela tristeza. Talvez não tenha se virado porque sabia que meus olhos ainda a acompanhavam na ignóbil tentativa de reter a sua silhueta, que com o tempo fatalmente viraria um vulto borrado sem qualquer legibilidade. Talvez ela quisesse ser esquecida, talvez quisesse garantir que nenhum resquício dela permaneceria em minhas retinas. Ela, de costas, era a última coisa que eu veria, talvez assim quisesse. Talvez porque ela também estivesse com os músculos da face prestes a se contrair, não sei. Talvez para o riso, talvez para o choro, não vou saber nunca – e talvez essa tenha sido a intenção dela.

Eu a vi caminhando, indo embora.

Eu a vi mexendo as ancas num rebolado sinuoso enquanto aumentava a distância entre nós dois.

Eu vi aquela bunda indo embora.

A bunda e ela.

A bunda dela.

 

This entry was posted in Conto and tagged . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

*
*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>