Gotas d’água chocavam-se violentamente contra a janela, endossando a notícia que o locutor de voz sorumbática acabava de transmitir no rádio: aquele seria o maior temporal que a cidade via em cinco anos. Sentado na beira da grande cama de casal, alheio à barulheira da chuva martelando janelas, calhas e telhas, ele olhava fixamente uma velha fotografia em preto e branco como se quisesse mergulhar nas recordações impressas naquele pedaço de papel fotográfico em suas mãos, que mostrava um dia completamente diferente daquele dia chuvoso e plúmbeo. Um dia feliz, um sábado perfeito de sol.

Alguém batia à porta do quarto, mas seus ouvidos estavam inundados com o riso das crianças que corriam pela grama do parque naquela tarde de sábado em que ele ajudara àquela bela desconhecida recuperar o cachorro que havia se soltado da coleira. Bastou lembrar da primeira troca de olhares para um turbilhão de recordações inundasse seu pensamento com a mesma força da chuva que caia pesadamente sobre a cidade. Reviveu jantares, passeios, sussurros, brigas, beijos, o som da respiração pesada; e assim como o céu cinzento, ele chorou copiosamente.

As batidas na porta do quarto aumentaram de intensidade e ele despertou de seu devaneio. Olhou pelo vidro semi-embaçado e fitou a enchente carregando correnteza abaixo a sujeira das ladeiras próximas, então escancarou a janela e deixou a chuva entrar e molhar-lhe o corpo, como se toda tristeza que sentia pudesse ser carregada pela água e desaparecer no carpete, junto com suas lágrimas. As batidas aumentaram de intensidade e, mesmo com o barulho do temporal castigando tudo sob o firmamento, era possível ouvir uma voz fora do quarto pedindo que ele abrisse a porta. Lentamente ele encaminhou-se para o armário, enquanto a maçaneta girava violentamente. De dentro do armário tirou um terno preto, com corte italiano. Os gritos e as batidas continuavam do lado de fora do cômodo, mas ele pacientemente deu o nó na gravata e, sentado à beira da cama, laceou os sapatos. Segurou mais uma vez a fotografia e um sorriso brotou de seus lábios no mesmo instante que uma chave destravou a fechadura e a porta se abriu, batendo contra uma pesada cômoda que barricava a porta.

– Abra! – disse o dono do braço que tentava avançar pela fresta da porta entreaberta. – Abra, pelo amor de Deus! Sou eu, seu irmão!
– No momento que eu a vi sabia que ela era perfeita para mim – ele disse, olhando para o belo rosto em preto e branco na fotografia.
– Pelo amor de Deus, não faça nenhuma besteira. – o braço tentava, inutilmente, empurrar a porta. – Uma mulher que abandona um homem bom como você no altar não merece que você cometa uma estupidez, irmão! Abra esta porta! Você vai encontrar uma mulher que o mereça de verdade!
– Já a encontrei, irmão. Já a encontrei. – ele disse e com delicadeza beijou a testa da moça que jazia sem vida, vestida de noiva, na grande cama de casal – Ela está mais bonita do que quando nos conhecemos – ele disse, ajeitando o retrato em preto e branco sobre seus seios e deitando-se ao lado dela. Abriu a gaveta do criado mudo e de lá tirou uma pistola. O vento forte fez com que as gotas de chuva alcançassem a cama, diluindo no colchão o vermelho que se espalhou após o estampido.

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