Os olhos piscaram vagarosamente, tentando fazer foco conforme consciência era recobrada. Sentia-se um tanto enjoado, mas não sabia o que lhe causava aquele mal-estar, como não sabia onde estava nem como havia chegado àquele lugar estranho: uma sala cúbica de pé direito baixo, aparentemente hermética, cuja fraca luminosidade vinha de uma pequena janela retangular em uma das paredes.

Ergueu-se lentamente, sentindo as pernas fracas e o estômago dando voltas. Apoiou-se com a mão espalmada em uma das paredes, quase um tombo, e notou que a parede era feita de metal. Seu estômago contraiu-se com tanta força que o fez dobrar o corpo, arfando. Percebeu então que o chão da sala era do mesmo metal das paredes e, limpando a boca com uma das mangas da camisa, descobriu que o teto também era do mesmo material. Forçando a vista, notou que havia um pequeno respirador no canto direito do teto.

– Socorro! – gritou na direção do respirador. – Alguém pode me ouvir? Eu estou preso aqui – ele gritou, enquanto batia nas paredes, mas ninguém respondeu seu pedido de ajuda. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele começou a bater com mais força e a gritar mais e mais, mas sua voz e as batidas nas paredes de metal eram os únicos sons que reverberavam pela sala. Os joelhos fraquejaram e ele tombou no chão, chorando copiosamente. Sentia-se fraco, sentia-se enjoado, queria sair dali, queria voltar para casa. Então, a luz que vinha da pequena janela tornou-se mais forte.

Arrastou-se pelo chão metálico, tentando chegar à janela. Sentia-se cada vez mais fraco, mas precisava alcançar a janela, precisava descobrir se havia alguém além do vidro que pudesse ajudá-lo a sair de sua prisão metálica. Sua respiração foi ficando mais pesada à medida que se aproximava da janela, mas ele continuou se arrastando até esbarrar em um objeto metálico tombado no chão da sala. Tateando, descobriu que era um banco, com longas pernas de metal. Utilizando o banco como apoio, conseguiu se erguer mais uma vez e apoiar-se na parede, alcançando a janela. Com espanto, descobriu que o que havia além do vidro era uma réplica exata do banheiro de sua casa: as cubas, as toalhas, tudo exatamente igual; mas não acreditou em seus olhos quando viu sair do box um homem exatamente igual a ele. Confuso, tentou bater no vidro e chamar a atenção de seu sósia, mas seu corpo não o obedeceu. Estranhamente, começou a imitar, simétrica e simultaneamente, os movimentos do homem à sua frente, que penteava os cabelos com um sorriso no rosto.

– Aposto que você está confuso, mas logo você se acostuma à sua nova morada. Não é tão bonita quanto esta, mas é um bom lugar – disse o homem do outro lado da janela, retocando o penteado com a ponta dos dedos. – E poupe o seu fôlego: não adianta gritar ou bater nas paredes, porque ninguém pode lhe ouvir. Na verdade, só eu sei que você está aí – o sósia disse, sussurrando, e começou a rir. – Enfim, livre… depois de tantos anos procurando uma saída, estou finalmente livre do confinamento e desse joguinho idiota de mímica.

Ele tentou parar seus braços e controlar seu rosto, mas cada movimento do homem do outro lado da janela fazia com que seu corpo agisse por conta própria. Quis gritar, mas apenas um sorriso surgiu em seus lábios.

– Por favor, entenda: não é nada pessoal. – disse o sósia, sorrindo ao ajeitar a gola da camisa. – Viva feliz do outro lado do espelho – ele disse e saiu do banheiro, apagando a luz.

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