A pálida luz que tremia sobre a entrada do beco morreu quando Max Porter jogou a guimba do cigarro em uma poça d’água, antes de esgueirar-se viela adentro. Chovia o suficiente para abafar o barulho de seus passos, mas a chuva e o barulho eram a menor de suas preocupações: era hoje o dia do acerto de contas. Parou atrás de uma caçamba de lixo e observou a porta dos fundos do Havana Club se abrir e seu proprietário, o empresário Wilson Creed, sair sozinho em seu impecável smoking branco, abrir despreocupadamente o guarda-chuva e caminhar na direção de um sedan azul-marinho estacionado em frente à porta. A mão direita de Porter alcançou o cabo da pistola e o apertou com força. Aquela era a hora do acerto de contas. Porter saiu de trás da caçamba e, com a arma em punho, rendeu o empresário.

– Parado aí, Creed. Temos algumas contas a acertar.

Wilson Creed parou e levantou a mão livre, em sinal de rendição. O sorriso de Porter se abriu: teria enfim sua vingança, assistiria sua arma cuspir chumbo quente contra o corpo do homem que lhe custou dez anos na prisão e, depois que o corpo de Creed estivesse estirado sem vida sobre o chão do beco, enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Prepare-se para morrer, Creed. É hora de você… ei, ei, ei! Dá para repetir a última frase?

(…) enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Desculpa, mas isso não vai acontecer. Por que eu tenho que beijá-lo?

Porque é o que está no roteiro.

– Então faça o favor de reescrever o roteiro, porque eu não vou beijar esse cara. Para início de conversa, isso tudo não faz o menor sentido: eu chego aqui no beco querendo encher o sujeito de chumbo porque ele me fez passar dez anos na cadeia e no final eu beijo ele na boca?

Bom, muitos homens se descobrem gays após longos períodos na prisão.

– O quê? Você está falando sério? Muitos homens são estuprados nas prisões, isso sim.

Você quer dizer que ninguém pode se descobrir na prisão sem que haja violência sexual? Ninguém tem revelações sobre sua própria vida na cadeia?

– Não estou dizendo isso… mas também não é esse o caso. O caso é que eu não vou beijar esse sujeito!

Posso saber por que não?

– Porque não, ué.

Ué, uma explicação têm que ter.

– Que tal esta: eu não quero beijar o sujeito?

Mas é só uma cena!

– Ah, é só uma cena? Então por que você não vem até aqui e termina a cena para mim?

Eu não posso ir até aí, eu sou o narrador.

– Ah, sei…

O que você quer dizer com isso.

– Eu quero dizer que você é um hipócrita. É muito fácil mandar os outros beijarem o sujeito no beco, mas você mesmo não beijaria o cara.

Você está distorcendo as minhas palavras… podemos continuar com o texto?

– Claro que não. Eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o… Creed, é esse o nome dele não? Sim, é sim. Então… eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o Creed e enquanto não alterar o final da cena.

Eu não tenho que admitir nada. Eu sou o narrador, a minha função é esta e eu a estou cumprindo, ao passo que você, que deveria ter beijado o Creed para que o texto continuasse, não está cumprindo o seu papel. Você não é profissional.

– Eu não sou profissional? Eu não sou profissional? Eu estou aqui num beco mal iluminado, debaixo de chuva e porque eu me recuso a beijar um cara pelo fato de eu não ver nexo nesse ponto da trama, enquanto você tenta se agarrar na sua desculpinha esfarrapada de “eu sou o narrador” e não quer admitir que você também não beijaria esse sujeito aqui com esse terninho cafona…

– Que foi? Vai ficar mudinho agora? Não vai mais falar comigo?

– Vai me dar tratamento de silêncio? Depois eu que não sou profissional. Você é um crianção.

Porter abre seu sobretudo, revelando-se vestido de corpete, cinta-liga e meia-calça arrastão vermelhos, e começa a rebolar em volta de Creed.

– Ei, ei, ei… pára com isso, rapaz!

Ué, você não quer mudar a cena? Pois eu estou mudando a cena. Seja feita a vossa vontade.

– Escuta aqui, rapaz: você quer resolver isso no braço?

Eu? Brigar com você?

– Desce aqui e a gente resolve isso.

Eu não vou descer até aí.

– Mariquinha…

Não me chame de mariquinha!

– Mariquinha! Mariquinha! O narrador é um maricas.

Pára de me chamar assim. Eu não sou maricas!

– É um maricão, isso sim! Mariquinha, Maricota! Vai chorar, seu maricas?

Pára… de… me… pára…

– Err… você está chorando mesmo? É sério isso?

Não… eu não estou chorando. São as minhas alergias…

– Rapaz, também não precisa chorar, eu só estava…

Só estava atrapalhando o meu trabalho! Eu não escrevi o texto, eu sou apenas o narrador. E ainda tenho que aturar essa… humilhação? Ser chamado publicamente de mariquinha? Eu não tenho culpa de nada, eu sou apenas o narrador. Se eu pudesse, eu mudava a cena, mas eu não posso! Eu só leio o que está escrito.

– Ok, ok, eu peço desculpas. Você não é mariquinha.

Mesmo?

– Mesmo.

Obrigado. Podemos continuar com o trabalho?

– Tudo bem, tudo bem… já que não foi você quem escreveu esse texto, não pode modificar e eu preciso mesmo da grana vamos lá… deixe-me ler a cena de novo. Ok, a arma cospe chumbo, vamos lá e… pronto, Creed está morto. Agora o corpo dele está jogado no chão do beco, seja o que Deus quiser… pronto, está beijado. E agora?

A vingança de Porter estava concluída, mas ele ainda precisava correr para alcançar sua amada Jane Lee antes que o último trem partisse… eu não posso ler isso. É clichê demais!

– Ei, ei, ei! Como assim? Vai terminar de ler sim, senhor! Eu acabei de beijar um cara, por que você não vai ler o texto?

Depois dessa cena, o texto vira um amontoado de lixo! Clichê em cima de clichê! Eu me recuso a tomar parte disso!

– Ah, você se recusa, seu mariquinhas? Eu vou aí na cabine e eu quero ver você não ler esse texto!

Não me chame de mariquinhas!

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