Sua vida mais parecia uma sopa de letras. Por mais que tentasse separar vogais e consoantes para formar frases completas na borda do prato, tudo o que conseguia era deixar a colher submergir em direção ao fundo do caldo como um grande submarino. Não sabia por onde começar, apesar de ter a completa certeza de que algo deveria ser feito.

Deixou o vapor atingir seu rosto e sentiu nos poros o calor que evaporava do centro do prato. Era como se cada um de seus sonhos fosse minúsculas gotículas de sopa tentando ansiosamente transformar-se em nuvens creme de cebola.

Queria furar cada uma destas nuvens de dentro de uma grande aeronave e fazer a chuva se formar em lágrimas salgadas. Queria estar abaixo delas quando os primeiros grandes pingos tocassem o solo e fizessem com que cada uma de suas peças de roupa se colassem para sempre junto ao seu corpo. Queria sentir os fios de cabelo unirem-se em pequenos bandos e cada bando tornar-se uma pequena goteira castanha em forma de espiral derramando sopa.

Ali estava ela, de volta, em frente ao prato. Bastou voltar para a realidade que aos poucos palavras foram se formando na borda do prato. E assim a sopa transformou-se em poesia circular. Sem início. Sem fim. Sugou com vigor todo o líquido que restava e deixou algumas poucas letras bagunçadas ao centro. Uma ou duas vogais. Quatro ou cinco consoantes. E nada mais. Apenas uma sopa de letras, como era sua vida.

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