A respiração de Edivaldo acelerava o passo a cada instante. Seus olhos pesavam, mas ele sabia que não podia fechá-los. Precisava manter-se acordado a qualquer custo. Deitado no chão áspero sob a janela, segurava o abdômen ferido com a mão esquerda, enquanto a outra tateava as gavetas da cômoda atrás do velho revólver Rossi. Estava perdendo muito sangue, muito rápido. “Não posso morrer agora”, Edivaldo pensou, com os dentes crispados. Seu olhar se detive na fotografia de seus pais, na parede oposta à janela. Fitava o rosto do pai e sua expressão endureceu ainda mais. Odiava aquele rosto, detestava tanto a imagem do próprio pai que a pendurou em frente à própria cama para que toda manhã saísse de casa inspirado para trabalhar. Edivaldo era matador.

Uma bala zuniu pela janela e estourou a lâmpada do cômodo. Do lado de fora, uma voz gritou em tom de escárnio:

– Perdeu, Edivaldo! A gente vai te quebrar, filho da puta!

A mão direita, trêmula, apertou o cabo do revólver com mais força. Sabia que o grito tinha sido dado pelo sargento Oswaldo. De todas as pessoas que Edivaldo detestava, Oswaldo ocupava o topo da lista muito antes de se tornar o policial desonesto que prestava serviço ao tráfico, quando ainda era o moleque mau-caráter que judiava de meninos menores da favela apenas por diversão. Edivaldo era um desses meninos menores.

Uma segunda bala varou a parede e alojou-se na porta do armário.

– Aparece p’ra morrer, seu merda! Se você não vier aqui, a gente vai invadir e vai te apagar de qualquer jeito!

Edivaldo começou a sentir frio. Olhou para a mão esquerda, que cobria o rombo feito por uma 765 e jurou por seu sangue que se aquele era a hora da sua morte, levaria Oswaldo com ele. Não morreria antes de ver o corpo de Oswaldo sem vida não chão, antes que seu sangue imundo lavasse a calçada de sua casa e o vingasse de sua vida miserável, de todas as surras e das curras que deram a Edivaldo o apelido que ele sempre odiou e que fez com que seu pai o escorraçasse de casa e usasse o velho Rossi para covardemente findar sua vergonha.

– Vamos invadir essa porra! Chegou a tua hora, Caga Leite!

A mão esquerda esqueceu a ferida e alcançou a 9mm que estava às costas. Num último esforço, Edivaldo levantou-se e, aos berros, descarregou sob forma de chumbo quente sua fúria sobre Oswaldo e seus homens. Após 21 disparos, o cheio de pólvora invadiu a rua e Edivaldo fechou os olhos, perguntando-se se conheceria, enfim, a paz.

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