Mais de dois bilhões de habitantes do terceiro planeta à partir do Sol, tomados por um incrível sentimento de perplexidade, franziram a testa ao mesmo tempo ao notar que seus calendários, que deveriam registrar o primeiro dia de março, mostravam-lhes um trigésimo dia em fevereiro. O barulho dos bilhões de computadores sendo resetados ao mesmo tempo, somado ao ruído de bilhões de calendários de papel sendo manuseados fez com que pássaros por todo o mundo se assustassem e alçassem vôo rumo a um céu estranhamente cintilante, que fez com que os pilotos de todos os aeroportos do planeta se mantivessem em solo, observando boquiabertos, juntamente com suas tripulações e passageiros, o estranho brilho prateado que descia do firmamento e lentamente dourava o chão. Então, ouviu-se um estrondo como nenhum outro, que fez com que todos parassem o que estavam fazendo e saíssem de suas casas para assistir um carro de fogo surgir nas nuvens e cortar o céu dos trópicos em alta velocidade. O bólido incandescente desacelerou e pousou com suavidade no canteiro central de uma avenida movimentada, fazendo que os transeuntes se aglomerassem à sua volta, assustados e atraídos pelas labaredas azuladas. Subitamente, as portas do carro de fogo se abriram e seu passageiro se revelou para os que assistiam a chegada do enviado do Céu.

– Véio, é Jesus! – disse um motoboy, agarrando-se à touca que usava. – Mas ele não tá meio… fortinho?
– Que Jesus o quê, mano… Jesus tem cabelão, a testa do sujeito aí vai quase na nuca, ‘tá ligado? – sussurrou um contínuo, tamborilando os dedos no envelope de papel pardo. – Será que é Moisés? Eu não ‘tô vendo cajado nenhum…
– Vocês são dois ignorantes. – disse uma velhinha, abrindo caminho na multidão para ver o carro de fogo mais de perto. – Se o calendário está marcando 30 de fevereiro, esse só pode ser São Nunca.

O santo limpou a garganta e a multidão ficou em silêncio. Então sua voz grave ribombou pela avenida.

– Ouvi e ouvi com atenção, pois quem vos fala é emissário d’ Aquele cujo nome é Eu Sou! Venho do Reino dos Céus para avisar-lhes que Deus está muito descontente com o rumo das coisas aqui na Terra e… o que a senhora acha que está fazendo? – disse São Nunca, indignado com a velhinha, que passava a bengala nas chamas do carro.
– É o mesmo carro de fogo que levou Elias ao Céu, não? – perguntou a velhinha, examinando a bengala por cima dos bifocais. Não havia marcas de queimadura.
– Sim, é o mesmo carro que levou o Elias. – respondeu São Nunca, fingindo paciência. – Se a senhora me dá licença, eu preciso falar ao povo sobre…
– Dá licença, santidade! – disso o contínuo, retirando os fones de ouvido enquanto se aproximava do santo. – Desculpa aí a intromissão da mina terceira idade, mas é que o povo não ‘tá acostumado a ver essas carretas de fogo por aí, ‘tá ligado? Aliás, sem querer ser parecer abusado nem nada… qual é o consumo?
– Oito quilômetros por litro na cidade, onze na estrada e nada no Inferno, onde tudo é quebra-molas. – respondeu o santo, impacientando-se. – Jesus amado… é para isso que me tiraram do Céu? Nem um minuto e já tem gente atrapalhando o meu serviço! Quer saber? Eu não vou é falar mais nada com vocês. Para que lado fica essa tal de ONU?
– Ih, mano… tu ‘tá longe. A ONU fica lá… lá… lá fora do Brasil, ‘tá ligado? – Disse o motoboy, encolhendo-se diante do santo, visivelmente zangado. – Mas pra alguém que já fez dois milagres num dia só, fazer aparecer 30 de fevereiro no calendário e parar as duas pistas da Paulista sem ninguém reclamar nem tomar multa, chegar lá é moleza, certo? – disse e sorriu para São Nunca, que não parecia menos mal-humorado.
– Nova Iorque. – disse a velhinha, firmando-se na bengala.
– Capital dos Estados Unidos! – o motoboy e o contínuo disseram em uníssono e se abraçaram, entre risos.
– A capital dos Estados Unidos é Washington, seus ignorantes! – a velhinha ralhou com os dois, sem tirar os olhos do santo. – É uma cidade enorme, no norte das Américas.
– Já que é tão sabida, a senhora vai comigo até a ONU – decretou São Nunca e as portas do carro de fogo se abriram. – E vocês dois vão junto para ajudá-la. – mal o santo falou e ambos correram para ajudar a velhinha a entrar no carro.

São Nunca olhou para o céu, que ainda cintilava, mais uma vez antes de entrar no carro de fogo e fez o sinal da cruz, pedindo paciência a Deus na próxima etapa de sua jornada. Então o carro de fogo subiu e apontou para o norte, desaparecendo do olhar incrédulo dos transeuntes da Paulista em meio ao firmamento prateado.

Continua

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