A primeira vez em que almas se encontram é quando tudo realmente acontece. Os bons momentos, as boas sensações, as conversas inesgotáveis, os gostos comuns, as bobagens que serão lembradas por toda uma vida, com um perpétuo gostinho de quero mais.

No segundo encontro das almas há certa magia inicial. Após longa distância física, enfim o mutuamente desejado reencontro. E logo, a alegria de poder reviver todo o velho encantamento é substituída pela triste constatação de que algo ficou perdido nos distintos caminhos, às vezes antagônicos.

O terceiro encontro já não é de almas, apenas físico, e ainda assim, distante. No lugar da empatia, a apatia. Ali já não há mais nada, no máximo um incômodo constrangimento de tanta confidência e intimidade trocadas com um, agora, estranho. E talvez a lição para vigilarmos nossas melhores relações, a fim de que elas permaneçam sempre em seu primeiro, único, e aí sim, quem sabe, eterno encontro de almas.

 

– A senhora se considera uma mulher feliz? – ele perguntou, enquanto folheava o bloco de notas, vasculhando os registros anteriores.
– Se eu fosse feliz não estaríamos conversando. Feliz é uma palavra muito ampla – ela respondeu, ajeitando-se no divã. O velho estofamento era mais incômodo que a pergunta.
– Então a senhora não se considera feliz? – ele perguntou enquanto ajeitava os óculos que teimavam em correr para a ponta de seu nariz.
– Eu me considero uma mulher satisfeita, essa é a palavra adequada – ela disse olhando para o teto. Pensou em perguntar onde ele havia comprado aquele lustre.
– Lembro-me que, naquela entrevista que deu para a TV uma ou duas semanas atrás, a senhora afirmou que era muito feliz – disse ele, conseguindo manter os óculos fixos no rosto. Detestava-os e não sabia por qual motivo não usava lentes de contato.
– Se o senhor acredita em tudo que se diz em entrevistas, também deve acreditar em tudo que os políticos dizem em seus comícios, doutor – ela disparou, virando-se e olhando para o terapeuta pela primeira vez desde que instalou-se no divã. Havia um sorriso debochado em seus lábios vermelhos. – Eu disse o que se espera que uma pessoa pública diga em uma entrevista. O populacho quer sonhar com a vida perfeita das celebridades vendida pela mídia, eles não se interessam em saber que tudo não passa de fumaça e espelhos.
– Então a senhora não se considera uma mulher comum? – indagou com olhos fixos no verde implacável dos olhos dela. Enxugou a testa, forçando-se a não descer a vista até o decote.
– Sou exatamente igual a qualquer outra mulher do planeta, doutor. Apenas tive mais oportunidades que a maioria delas – ela sentenciou e voltou seu olhar ao lustre, pensando que o escritório do apartamento de Ipanema ficaria perfeito com um lustre igual. – Por isso eu me considero uma mulher satisfeita: a minha vida é ótima, não tenho do que reclamar! Sou jovem, bonita, tenho posses e tenho influência.
– Influência? – perguntou enquanto rabiscava qualquer coisa no bloco de notas. Seus olhos estavam perdidos nos fartos seios dela, que se empinavam mais ainda a cada vez que ela se ajeitava no divã.
– Três meses atrás fui fotografada usando uma saia que foi desenhada por uma estilista amiga minha e poucos dias depois todas as vitrines do Sudeste tinham uma peça igual em exposição. Semana passada eu mudei o corte do cabelo e só no caminho da minha casa até aqui eu vi cinco mulheres com o mesmo penteado. Influência, doutor – ela disse, abrindo a bolsa e pegando um maço de cigarros.
– Carisma – ele retrucou, cruzando as pernas para esconder a excitação. – Peço que a senhora não fume durante a sessão.
– Seis e meia-dúzia – ela deu de ombros, retornando o maço de cigarros à bolsa. – Como eu dizia, vivo bem e não tenho do que me queixar. Agora, felicidade… felicidade é uma coisa que eu realmente não possuo. Não sou uma pessoa triste, mas não acordo sorrindo todas as manhãs apenas por começar um novo dia.
– A senhora se sente solitária? – ele arguiu, colocando as mãos no colo e fitando o lustre. Se não tirasse os olhos dela, a ereção não passaria.
– O senhor só pode estar brincando, doutor. Com a minha assessoria, agenda, fãs e paparazzi, eu só fico sozinha na hora de dormir. E se o senhor está se referindo à minha vida amorosa, a minha cama só fica vazia quando eu quero – ela disse, com um sorriso malicioso.
– E ainda assim a senhora sente que falta alguma coisa na sua vida. – ele pontuou, ajeitando-se na cadeira. A dor na virilha era quase tão forte quanto sua vontade de possuí-la no chão do consultório.
– Sim, falta. Falta alguma coisa que eu não faço ideia do que seja, mas que ainda assim me deixa muito angustiada. – ela suspirou, levando a mão à bolsa. Precisava de um cigarro.
– Infelizmente o tempo acabou, mas falaremos mais sobre a sua angústia na próxima sessão. Nos vemos na próxima semana? – ele perguntou, abrindo a porta do consultório e escondendo meio corpo da mesma, tentando desafivelar o cinto de uma forma que ela não percebesse.
– Com certeza, doutor. – ela sorriu, louca por um cigarro e por nunca mais se deitar naquele divã incômodo.

Cara, não querendo ser estraga prazer ou coisa do tipo, lá vem ele. De novo. Esqueça tudo o que conhece ou aprendeu. Ele é intolerante, insolente e megalomaníaco. Sim, ele que tudo vê e tudo sabe. Ele. Não se iluda com os livros de Kafka, Sartre ou mesmo os de culinária que ele carrega debaixo do braço. Se a discussão se enveredar por um lado mais, digamos, real e árduo (idéias que façam você e o meio em que vive se moverem, meu caro), pronto, o assunto acaba voltando para o lançamento do último filme do novo cinema tanzaniano (tá bom, admito, é o efeito Copa do Mundo). Por quê é tão importante se afirmar como uma pessoa culta, mas sem uma consciência social e política realmente importante, ou mesmo interessante? E todo esse conhecimento vale alguma coisa de verdade, ou é apenas status perante outras pessoas que não são ligadas nesse “mundinho descolado legal único de minha vida”?  Será que o não votar é tão descolado assim? E colocar a culpa dessa situação (sua, do país, tanto faz, você faz parte de todas) em alguém, estrategicamente falando, com uma porção de palavras bonitas e frases feitas de grandes pensadores, (alternativos, é claro!) também é ser legal?

Esse culto ao cérebro anabolizado de idéias e conceitos vagos podia muito bem ser proibido (por quem, eu não sei, mas que deveria ser feito rápido, deveria), pois mostra um dos piores comparativos que eu já vi na vida: O que é pior, uma pessoa culta, inteligente, que sabe que pode mudar o panorama da sua sociedade, mas que nada faz (sem motivo aparente, apenas não o faz) ou o ser humano que nada faz, pelo simples motivo de não saber o poder que tem, ou por não ser descolado o suficiente?

Mas vamos deixar de lado todo esse papo de ser adulto, chato e responsável, o que vale é garantir o lugar na fila para comprar o último disco do coral banda jazz-rock-samba-soul Nasci em Montevideo (é, se a ortografia está certa eu não sei, mas que é descolado, é!).  Não me leve a mal, mas estou indo embora, antes que eu fique culto demais!

 

Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2020.

Olá Letícia,

Finalmente chegou a data tão esperada para que pudesse abrir esta carta. Dez anos se passaram desde que a escrevi, projetando sonhos e idealizando planos. Espero que ao lê-la sinta-se realizada.

Dez anos, dez anos atrás, correspondiam a 20% de uma vida. Para sua surpresa hoje já corresponde a 10%. Por isso, não se decepcione se você ainda não tiver plantado uma árvore, gerado um filho ou escrito um livro. Você ainda tem alguns anos para fazê-lo (se assim o quiser).

Decidi não perguntar como anda sua carreira, se continua escrevendo ou se mantém seus conflitos entre produzir e realizar coisas. Sei que continua envolvida com as artes, mas isto não importa agora. Minha maior curiosidade, dez anos depois, é saber se entendeu por que está aqui, se consegue ser feliz todos os dias ao ver o sol nascer ou a chuva cair. Os anos passam e acreditamos que devemos fazer parte de uma rotina sem fim que envolve trabalho, estudos e família. Espero que depois de dez anos tenha descoberto que isto não é uma verdade. Seu futuro certamente já deve ter lhe mostrado isso. Espero.

Você pode ter feito muitas coisas ao longo destes dez anos. Mas o que realmente quero saber é o que fez de bom para as pessoas que a cercam, quais foram suas atitudes que mais lhe deram orgulho, o que você aprendeu ao longo de todo este tempo. Quando você escreveu esta carta, tinha 30 anos. Era casada, feliz, estava finalmente se realizando profissionalmente sem perder sua individualidade e cuidando de si mesma, ao seu tempo, sem pressa. Seu primeiro livro havia recém sido escrito e você o deixou de lado por alguns dias, com medo de que ele pudesse ser verdadeiramente publicado. Certamente publicou outros livros, não é mesmo? Por favor, não me diga que ele continua na gaveta.

Naquela época sua maior preocupação era para onde viajar no Ano Novo. Você já sabe para onde vai agora aos 40 anos? Conseguiu dar a volta ao mundo nos últimos anos? Conheceu pessoas, lugares, comidas, culturas? Ou mudou completamente seu jeito de ser e fica extremamente feliz apenas com o conforto de um ar condicionado?

Continua sorrindo todas as manhãs simplesmente porque pode acordar e ver a luz do sol ou sentir o cheiro de terra molhada pela chuva? Espero que o tempo não tenha sido capaz de mudar sua essência. Dez anos parece muito, mas não passa de um breve suspiro marcado por uma carta que enviou para si mesma.

Desejo profundamente que continue querendo apenas ser feliz e fazer com que outros, ao seu redor, também o sejam. Há dez anos, aos 30, você tinha o dom de alegrar os amigos com seu jeito de ser, com seus textos e com a maneira que levava sua vida. Espero que não tenha perdido isto aos 40. E se estiver verdadeiramente frustrada com o que se tornou agora que suas mãos refletem um pouco mais de idade, não se decepcione consigo mesma, pois é sempre tempo de recomeçar.

Pegue uma folha de papel e uma caneta – se é que elas ainda existem e não se transformaram em alguma outra coisa com uma maçãzinha prateada gravada – e escreva uma nova carta para si mesma. Desta vez a data será 19 de outubro de 2030 e ao abrí-la, você terá 50 anos e muitos outros pela frente. Você vai conseguir e mais uma vez, ficar surpresa ao abri-la.

Felicidade, lembre-se que é a única coisa que realmente importa. Nos vemos novamente em dez anos.

 

Minha “vó” faleceu em 1994. Eu tinha apenas 14 anos e ela 64. Foi cedo demais para quem sonhava conhecer a França. Cedo demais para que eu pudesse sentir sua falta. Quando completei vinte anos, decidi escrever sua história. Descobri traços de sua personalidade passados de mãe para filha. Traços passados de filha para neta. Comecei admirá-la como adulta. Lamentei não ter ficado mais tempo ao seu lado. Lamentei não tê-la visitado mais vezes. Não ouvi suas histórias pessoalmente. Não a abracei tanto quanto deveria. Já quase não lembro de sua fisionomia senão por retratos. Mas ela será eternamente a minha avó onde quer que esteja. E por isso jamais abandonou meus cadernos e escrita. Sua história de vida é tão linda quanto os romances que lia. E por isso precisei dez anos para concluí-la. [Apesar de não considerá-la terminada ainda.] Minha “vó” se tornou página, livro, narrativa e história. E se um dia ela quiser, agora posso levá-la através das palavras para passar uma tarde em um café de Paris.

“O amor é uma escolha! Ele era, racionalmente, a melhor coisa para mim!”

“Tenho um namorado, to procurando um marido!”

“Você já casou, se divorciou…agora é minha vez…também quero casar e me divorciar!”

– E eu continuo solteira…

 

Na vida, são tantos os que procuram a felicidade e não a encontram. Desde a infância, quando começamos a tomar consciência de quem somos. Na adolescência quando a todo tempo tentamos reafirmar essa nossa consciência. Na vida adulta, essa consciência atrelada à maturidade, nos permitindo reflexões sobre a vida, mas… e a morte?

Buscando a felicidade na vida e não a encontrando, me pergunto por que não tentar o inverso. De fato, muitos já tentaram e ainda outros mais tentarão, equivocando-se. Porque assim como nos equivocamos com o conceito de vida, ao aniquilá-la, biologicamente falando, também nos equivocamos com o conceito de morte.

O homem ainda apresenta dificuldades em lidar com a morte, e todas as crenças em torno desse conceito se perdem quando descobrimos o que de fato é verdadeiramente viver e morrer. René Descartes disse:

“Penso, logo existo”

Se existo, sofro. Se sofro, não vivo. Se não vivo, morro. Se morro, não mais existo.

Eu fiz diferente. Sofria vivendo em busca do que almejo, quando na verdade eu deveria matar o que não desejo. Parei de alimentar sonhos fora de mim e passei a aniquilar os pesadelos dentro de mim. Finalmente tive uma morte feliz.

Se morro, não mais existo, então morri. Morri em parte, porque nem tudo em mim era sofrimento. Um espaço abriu-se em mim para que tudo o que almejo pudesse entrar. Hoje sou a parte boa que sobrou de mim, antes sufocada, agora livre pra respirar. Respirar é vida. Respiro, logo vivo!

O medo da morte é ainda o medo do novo. A destruição faz parte do ciclo da natureza e é extremamente necessária para a transformação. A transformação em algo melhor.

Sobre a felicidade? Ah, sim! eu não fui mais buscá-la. Ela simplesmente veio, instalou-se e hoje posso afirmar que vivo de verdade, não aquela falsa, aquela imposta pela sociedade, mas a verdadeira felicidade.