1. Arrume uma criança;
  2. Forneça colo e carinho;
  3. Brinque com ela.
  4. Cante pra ela dormir. Mesmo que sua voz pareça a da Simony ou do Mauricio Mattar;
  5. Coloque-a no berço e fique olhando-a deitada, até o seu sono chegar;
  6. Acorde no meio da noite, tendo seu descanso interrompido por um choro cortante;
  7. Pegue a mamadeira, com o leite já previamente aquecido e dê para criança;
  8. Apoie a criança em seu braço direito e lhe dê suaves tapinhas em sua região dorsal superior, para provocar eructação (vulgo arroto);
  9. Troque sua fralda;
  10. Cante mais um pouco;
  11. Coloque-a no berço;
  12. Repita do passo 6 ao 11 aproximadamente de 10 a 15 vezes por noite;
  13. Acorde pela manhã cansado, com aquela sensação de que não dormiu o suficiente;
  14. Tome seu banho com cuidado, sem fazer muito barulho, se arrume, tome seu café e vá trabalhar;
  15. Após o serviço, recomece do passo 2, e só vá para o passo adiante daqui a 3 anos;
  16. Se você chegou aqui, parabéns! Considere-se mais um que concluiu com êxito o adestramento infantil.

Sua criança fez um belo trabalho com você.

Reclamar de tudo e de todos, mas sem sair de cima da nossa zona de conforto (isso mesmo meu querido, o seu precioso sofá!), está virando um dos esportes favoritos do brasileiro. Talvez esteja virando não, com certeza, é a nova mania nacional.

Imagina só se eu, importante e preguiçoso (e presunçoso também, por que não?), vou sair de meu trono pessoal, para fazer valer os meus direitos? Jamais o faria, mas não por ter de brigar por algo, mas por medo de perder a novela, sabe? As últimas semanas e os próximos capítulos serão imperdíveis, então, não terei muito tempo de participar daquela passeata por um transporte público melhor, ou ainda, corrida para arrecadar fundos para o lar-asilo-escola panamenho Señor Gutierrez. O trocar de canais do controle remoto (da TV ou do meu cérebro, hein?) já me desgasta demais.

Mas prometo praticar algum esporte ainda esta semana, mas só após os jogos de futebol e a análise da rodada, que por sinal, vai ser mais curta, pois aquele repórter chato vai entrevistar um político qualquer, candidato a algum cargo sem importância (aliás, alguém aí quer ser presidente? Temos uma vaga para preencher!). Mas, depois dessa coisa sem sentido, vai rolar algum filme, tipo desses em que o cara vira um herói nacional, só porque lutou contra algum vilão ou regime governamental tirano! Onde já se viu isso? Só em filme mesmo, e olha, já to cansado de tanta agitação. Talvez só aquela bebida energética do comercial para me ajudar a espantar o já recorrente cansaço que me assola. Pode ser que eu saia para comprar uma lata, mas só depois de saber o que vai ter de bom na programação (ah, que deve ser minha, só pode!). Será que tem diet?

 

Uma quer largar tudo e se tornar voluntária no Nepal. A outra quer poder esquiar no próximo feriado em algum lugar da América do Sul. Uma quer abrir mão de uma carreira de sucesso e ser uma pessoa normal. A outra quer enviar o curriculo para a UNICEF, UNESCO ou ONU e fazer algo de bom pelo mundo. Uma quer se mudar para outro país e aprender outra cultura. A outra quer comprar um apartamento e ter um escritório aconchegante dentro de casa. Uma quer escrever. Outra quer ser produtora. Uma que trabalha pouco, paga suas contas e curtir as pequenas coisas da vida. A outra quer trabalhar muito, gastar sempre que tiver vontade e realizar sonhos extravagantes. Uma quer trabalhar com turismo. A outra quer atuar com responsabilidade social. Uma quer fazer acrobacia aérea. A outra prefere assistir a um DVD em casa. Uma não pode entrar em uma livraria. A outra, não consegue dar conta de todos os livros que compra. Uma adora uma taça de vinho. A outra bebe fácil uma garrafa de champagne. Uma quer aprender italiano. A outra prefere parler français. Uma gosta de trabalhar demais. A outra não entende até hoje por que trabalha tanto. Uma se considera bem sucedida. A outra não liga de ser uma fracassada. Uma gosta de ficar entre amigos. A outra prefere manter relações solitárias. Uma gosta de banho bem quente. A outra prefere recitar mantras para Ganesha. Uma adora andar de metrô. A outra não suporta ter que sair de casa. Uma é normal e equilibrada. A outra tem crises e neurosos que a deixam louca. Uma sonha em conhecer a Espanha. A outra adoraria fazer um mochilão pela Ìndia. Uma não pode viver sem chocolate. A outra pensa em um dia parar de comer carne. Na maior parte das vezes as duas brigam o tempo inteiro. Em outras convivem em perfeita harmonia. E só mesmo quando as duas estão juntas… é que eu existo completamente. Sou uma e outra simultaneamente.

Existe algo que nos faz prosseguir. Mais forte do que todos os nãos, do que todas as cadeiras vazias, do que todas as páginas não lidas. Se me perguntarem por que insisto em fazer cultura, responderei que simplesmente não sei fazer outra coisa. Na verdade, nem tenho tanta certeza de que sei fazer isso a que chamam “cultura” direito. Mas se não o fizesse, nada mais faria. Sentido. Trabalhamos na maior parte das vezes de maneira solitária, colocando no papel algo que não se pode mensurar. Não sabemos quem está do outro lado da tela, escondido no escuro do cinema ou observando uma obra de arte em uma parede qualquer. Jamais ficamos sabendo de que forma nossa arte vai atingir o outro, quando ela verdadeiramente se aproxima dele.

Vez ou outra surgem as palmas, os elogios rasgados, os agradecimentos fortuitos. Nunca acreditamos. Não é por isso que fazemos cultura. Fazemos porque não há mais nada a fazer. Porque é só isso e mais nada que sabemos fazer. Esta é a nossa natureza, quer você vire a página ou não, quer você leia este texto até o fim ou não, quer bata palmas em pé ou sentado (ou simplesmente saia escondido no intervalo entre o primeiro e o segundo ato).

Somos movidos pela transformação. Se não em você, no leitor, no espectador, na platéia, pelo menos em nós. Mudamos a todo instante em favor de nossa arte. Somos artistas e quando finalmente assumimos isso para nós mesmos, não há mais nada a temer. Somos artistas. Artistas. Arte. Queremos transformar, mobilizar, mexer, instigar. Mas acima de tudo, queremos fazer. Porque se não o fizéssemos, o que seria de nós?

Somos artistas de nossas próprias vidas. Se não fazemos “cultura”, pelo menos criamos a nós mesmos… Infinitamente.

 

Complicado explicar porque, mas nunca tive lá muita confiança em guru usando terno. Digo… para mim, não são exatamente gurus, longe disso, mas a pretensão é se passar por um. O cara veste terno e gravata, livrinho na mão, projetor, PowerPoint, e começa um discurso motivacional que vai mudar sua vida. “Senhoras e senhores, dispensemos meias-palavras; sei porque estão aqui. Sei que estou diante de pessoas inteligentes, então cortemos os borogodós”, e começa a falar de VOCÊ. SUA vida. SEU drama pessoal-existencial-financeiro. “Sim, eu te entendo. Sei pelo que passa.” Do Amway ao “Perca peso, pergunte-me como”, do “Novo encontro com Jesus” ao “Como maximizar seu eu-produtivo em uma semana”, passando pelas palestras pré-cozidas dos porta-vozes do sucesso, cada um deles tem uma história para contar, de como um dia foram como você, de como após perder tudo para dívidas ou drogas, ou o filho ser internado na UTI, entenderam como as coisas funcionam e acordaram. Remodelaram a vida. Conheceram alguém (ou leram um livro) que lhes abriu portas para a redenção. Jesus, Amway, “Filosofia alimentar do novo milênio”. Você dá nome ao messias. Os gurus de terno sofriam o SEU sofrimento, mas uma luz os acolheu e os passou para o outro lado do muro, onde ficam os vencedores. Cada um deles descobriu “O segredo do sucesso”, e agora quer partilhá-lo com você, porque VOCÊ TAMBÉM É ESPECIAL. VOCÊ TAMBÉM PODE CONHECER O SEGREDO.

Pois é. Lembrou do livro, imagino. Segundo este, e o filme homônimo, qualquer sucesso, qualquer personalidade que tenha marcado a história, inventor, artista, sábio, escritor, estadista, cientista, profeta, guru, e hoje aparece na galeria dos “vencedores consolidados”, só o faz porque conhecia O SEGREDO. É a velha fábula da história como FIM. “Tudo converge para ISTO”, ESTA fórmula, ESTE concentrado do que realmente importa saber das psicologias de todas as civilizações que existiram, agora disponível por 39,99. Seja um Gandhi você também! Encontre o Einstein que existe no lado direito mágico de seu cérebro!

Coisa velha, ver a história como FIM, mas nada resiste a uma embalagem nova e convidativa. O guru de terno é uma versão “bussiness” do arauto da transcendentalidade. Pode ser um pastor fazendo milagres por atacado, o vendedor “manager” que está no alto da pirâmide vulgo “marqueting de rede”. Não importa. Ambos vão mudar sua vida num estalar de dedos em troca de dinheiro, devoção e mais membros para o rebanho. “Investimento”, dizem. Apelam a seu desamparo, sua fome por soluções e respostas consolantes, sua disposição em “correr atrás”. “Sim, eu posso, consigo, quero, tenho fé! Não vou desistir!” Sua mente aquiesce enquanto incorpora o discurso do guru que tem a velocidade da banda larga. Tecno-guru. Fala em Jung, Nietzsche, Gates, Confúcio e John Lennon em uma única volta retórica. Vai de Platão à Madre Teresa em oito segundos. Sem solavancos. Sem escalas. Para ele e para você, tempo é dinheiro, portanto, mais impacto, menos reflexão, mais linhas retas, menos devaneios. Este neo-sábio não medita, dispensa o silêncio, põe no ouvido o celular para sentir o gozo da tecnologia zumbindo em seu cérebro. Neurônios vibrando em 220, ecoando Rock Farofa a 500 decibéis para as caixas de som das cordas vocais, que transformam cacofonia em verbo. A platéia goza por tabela. Ri, chora, aplaude, grita “Aleluia” e reage a cada comando como um Bonecão do Posto recebendo santo. Eis o milagre do guru, que não promete, faz. Melhor ainda: faz prometendo. Seu produto como vendedor é o próprio ato de vender.

Mas em tempos de chiado e desinformação circulando em todo lugar, outdoors entupindo a visão, berros, urros e sirenes ofuscando o nexo porque precisam chamar você, não há brechas disponíveis ao processamento, não há equilíbrio que propicie análise e boas escolhas. Os sentidos viciaram no estímulo. Querem mais. Silêncio virou angústia e FALTA. “Preciso sentir para o vazio sumir”. “Quero choque em meus neurônios, batidão, tesão no tímpano e pico na veia! Padres são maçantes, Buda é gordo, vago, chato, e aquele ali do livro, complicado. Faz o seguinte… Pega os três, mais esse, esse e esse, põe no liquidificador e faz um chá de citações para mim, sim? E eu ainda posso botar no perfil do Orkut.”

O guru de terno não representa uma saída às doenças da modernidade. É um sintoma. Oferece milagres, soluções e certezas como se vende carrões na TV. Seduz com as armas da publicidade, e tem objetivos semelhantes. Quais? Ah, não te contaram essa parte, não é? Pois o verdadeiro segredo está aí, não nas prateleiras. Não por 39,99.

 

Certa vez, o poeta escreveu:

“Morro de saudade longe do seu beijo
Coração não pára de acelerar
Quase a duzentos por hora batendo no peito
Cria asas querendo voar…”

Fazendo uso de uma matemática simples, constatamos que 200 batimentos por hora correspondem a aproximadamente 3,33 batimentos por minuto. Considerando como parâmetros normais 60 a 100 bpm, o diagnóstico é fácil: querido poeta, você sofre de uma grave bradicardia.

 

Tenho amigos guarda-chuva. Aqueles que não convivem comigo diariamente, mas que estão sempre por perto quando o tempo fecha. Basta o clima esfriar ou as nuvens começarem a se formar para que eu imediatamente me lembre deste amigo que nem sempre está por perto, mas que tem hora certa pra chegar.

Meus amigos guarda-chuva não se incomodam de ser esquecidos de vez em quando. É normal deixá-los de lado por um tempo pois não fazem parte do meu dia-a-dia. Eles sabem o quanto são necessários e de como preciso deles ao meu lado de vez em quando. São amigos de momento.

Amigos guarda-chuva são aqueles que protegem e resguardam. Aqueles os quais esquecemos e lembramos. Imprescindíveis e necessários. Protetores e zelosos. Pequenos ou exagerados. Monocromáticos e coloridos. Tenho amigos guarda-chuva de todos os tipos. Aqueles que no dia-a-dia até atrapalham, mas que em certos momentos fazem uma falta danada. Devíamos ter sempre um amigo guarda-chuva na bolsa para os dias em que o clima muda de repente. Para dias de trovões e chuva forte.

Somos amigos do tempo. Amigos que nem sempre se falam quando o sol está claro e o céu límpido e aberto. Mas amigos que sempre se encontram quando os primeiros pingos de chuva atingem o solo. Amigos guarda-chuva estão sempre preparados. Seja para garoa ou tempestade. Seja para vento forte ou chuva fina. Amigos guarda-chuva sabem que não são esquecidos de propósito, pois confiam em na necessidade desta amizade.

Amigos guarda-chuva aparecem de novo em nossas vidas quando a gente menos espera…