Sentada num café, comendo meu delicioso waffle, comecei a observar um casal na mesa ao lado e pensar no casal que estará nessa mesma situação ainda essa semana (quer dizer, se ele me ligar né?).

Quanta expectativa colocamos numa xícara de café…sonhos…planos!

Quando duas pessoas assim se encontram a coitada da xícara se torna meracoadjuvante…às vezes até é deixada de lado…esquecida…pobre xícara!

Quando tudo corre bem entre o casal, é celebrada.

Quando tudo dá errado, serve de colo, consolo.

Mas, naquele momento crucial fica ali esquecida e nem reclama.

“”Quem diria?! Nós dois aqui hoje!”” – clássico né?

Não tanto quanto uma xícara de café!

A jovem tinha apenas duas compulsões na vida: livrarias e livros – mas só aqueles que são vendidos em livrarias, ela diria. Era incapaz de passar em frente a uma delas sem ter o ímpeto desejo de entrar. Dizia ir apenas dar uma olhadinha.

De tantas tentativas frustradas, entrava escondida com medo de alguém repreendê-la logo na porta. Sempre entrava. E quando era tarde demais para voltar atrás, sua segunda compulsão a arrebatava: os livros. Lombadas coloridas, variadas e espremidas lado a lado. Prateleiras que não tinham lugar certo para começar ou terminar. Um delicioso cheiro de página impressa que acaba de sair do forno e aguarda alguém com um apetite como o dela para o saborear.

Desistiu de se controlar. Até mesmo os livros começaram a aconselhá-la de fazer o contrário. E quando já não tinha mais forças para lutar contra livros e livrarias, viu um anúncio no jornal. Procura-se vendedoras. Foi assim, entre os livros que vendia, na livraria que a empregara, literalmente, onde encontrou a cura para a sua compulsão: a literatura.

Fracasso. Malogro. Insucesso. Ato de fracassar. Todos nós em algum momento de nossa vã existência já nos confrontamos com essa palavra. E fugimos, evitamos, procuramos com toda a força de nosso ser mantê-la bem distante de nossos sonhos e metas. E quando nos deparamos com ela? Negamos. Ou até aceitamos, pra justificar uma futura vitória. Quantas vezes já nos pegamos dizendo: – O que importa é o aprendizado!

Sim. O fracasso tem o poder de nos tirar o sono, de assombrar nossas metas, de nos fazer ter cautelas às vezes exacerbadas, nos fazer perder a cabeça, causar stress, mas… e quando o fracasso é inevitável? E vou além: e quando o fracasso é inerente ao ser em questão?

Sim. Eu faço parte de uma elite, nem tão elitizada assim, porém mal vista, digna às vezes de pena ou de deboche. Sim. Eu sou um fracassado.

Ser fracassado é ter a consciência plena de que nada que possa vir a fazer é passível de dar certo. Não adianta a formação, grau de instrução ou capacidade de aprendizado. Nada disso adianta. A sorte, que é elemento bem visível em grande parte dos seres humanos, em alguns mais que outros, é irrealidade pura para seres como nós. Como se a ventura estivesse sempre com um sorriso sarcástico em seus lábios maviosos.

Ser fracassado é saber que já que não pode se contar com a sorte, ter a certeza de que não se deve perder tanto tempo se dedicando a qualquer atividade. Pois não será agraciada com o dom da concretização. Se der certo, é porque outros elementos foram envolvidos, provindos de outras pessoas. E não se alegrem, caros colegas, vai acontecer pra eles e até resolverem cansar de sua companhia.

Ser fracassado é acostumar-se a viver sempre à margem dos acontecimentos. Mendigar pequenas migalhas de atenção e se satisfazer com isso, pois é o máximo que poderá obter em sua vida medíocre. Geralmente faz parte do perfil do fracassado ser boa gente. Até porque eu nunca vi um ser rude e grosso ser fracassado. Isso é característica dos seres agraciados pelo acaso.

Como reconhecer um fracassado? Existem alguns eventos que se realizam de uma forma natural e espontânea: o indivíduo nasce, cresce, estuda, trabalha, se relaciona, procria, trabalha mais um pouco, cuida da prole, se aposenta, envelhece e morre. Essa é a lei natural. Não adianta reclamar, caro leitor, discordar e dizer que “prefere de outra forma”. Essa é a lei natural. Tudo que se acrescenta a mais é um “bônus” que a vida nos oferece. O fracassado não obedece a essa regra, tampouco à ordem e certamente é privado de algum ponto acima descrito. Tem problemas na infância, ou não consegue um bom trabalho, ou é um zero à esquerda em relacionamentos e muito menos tem a prole que deseja para perpetuar seus cromossomos (até porque é a seleção natural: por quê a natureza permitiria a multiplicação da “raça fracassada”?). Você se aplica em algum deles? Eu particularmente me aplico em vários.

Mas ser fracassado não é apenas ônus. É também saber que faz parte do grande sistema de equilíbrio do Universo, afinal, como já se cita sabiamente no dito popular: “para um rir, alguém tem que chorar”. Já pararam pra pensar que existem pessoas extremamente agraciadas pela boa mãe sorte? Os chamados “virados pra lua”. Ora bolas, se existem esses serem iluminados, por que não haveriam de existir os que estão fadados ao fracasso? É a lei natural. Sorriam e alegrem-se, caros mancebos!

Pensem bem, nobres amigos, às vezes a resposta pra tanta lamentação, injúria, depressão e inquietação está na incapacidade de assumir a condição de fracassado. Não perca mais tempo brigando contra as leis naturais. A aceitação dessa condição é o caminho mais digno. Não desperdice ao menos isso, pois ao fracassado resta ao menos uma coisa: a dignidade.

Sejam bem vindos ao fracasso!

(E que o último a sair apague a luz…)

Almendra – Ana No Duerme

A arte desmistifica a vida. Destrói a imagem imaculada e sorridente envolta em rabiscos imperfeitos de sóis amarelos, iluminando verdes campos e casinhas de sapês.

A arte dá à vida os filmes humanistas de guerra, as fúnebres canções de amores perdidos, as poesias malditas, as impressões imprecisas de Monet, as tragédias dramáticas de Shakespeare… E assim a arte está para a vida não como um imitador barato, senão como seu próprio criador. Porque não há mais sentimento sobre a linha do horizonte, ao som do mar e a luz do sol, que dentre quatro paredes, sob um bolero portenho e ao calor nativo do peito.

Computadores fazem arte quando nossa alma é virtual.

Anjo,

Resolvi escrever-lhe, como prometera antes de sua partida, muito embora ainda não tenha entendido o real motivo de sua vinda.

Lembro-me quando lhe avistei pela primeira vez. Mal pude notar a auréola que lhe adornava, pois sua beleza, sua plena beleza, sobrepujava a tudo. Também jamais poderia imaginar que viria a mim. Foi quando o anjo cinzento, que eu já conhecia, lhe trouxe até mim, ou me levou até você – até hoje não consido distinguir se meu espírito se elevara ou fora o céu que me buscara. Naquele momento, um toque sublimar tirou-me de mim, de onde estive ausente poucas duas ou três semanas.

Tinha relva no céu e nuvens no chão. Tinha flores em ti. Tinha orvalho em meus olhos e brisa em meu peito, que soprava ligeiro e suavizava a tormenta da minh’alma.

Rápido e perene. Como num passe de mágica, você surgia, me encantava, desencantava e sumia. E cada hora passada parecia muitas. Mas hoje, quando me lembro, tenho a nítida sensação de que cada minuto era meio, e cada segundo era o último.

Você é um anjo, deve ter sido a última coisa que lhe disse. Mas faltava o céu a você, e faltava a terra a mim.

Então, veio o anjo cinzento, e tinha interrogação nas palavras. Tinha orvalho nos olhos. Tinha doença em ti. Tinha pouco de mim em mim.

Crêem meus botões que tudo não passsou de zombaria do anjo cinzento, que lhe criou e descriou a seu próprio vento. Mas eu não sei. Creio em ti, assim mesmo, como um anjo que veio e que foi. Afinal, para mim os anjos são assim. Surgem, urgem, afagam, encantam, e vão, e sobem, e somem, sem sequer terem existido.

Fazer um curso de humanas é como aprender a caçar dragões. É isso mesmo! Você passa quatro ou cinco anos lá, aprendendo todas as técnicas pra matar um dragão, a melhor lança pra acertá-lo, a anotomia do bicho, pra lança ir direto ao coração… E toda a teoria que precisa para ser um bom caçador de dragões.

Cinco anos são suficientes, mas normalmente em quatro você já sai um ótimo caçador de dragões. Aí se forma e vai a caça de alguns dragões pra poder aplicar suas técnicas.

O problema é que andamos em períodos com uma certa escassez de dragões, então, o estudante de hum… perdão, o nosso caçador de dragões só tem uma alternativa viável: voltar e treinar novos caçadores de dragões. E assim segue o ciclo sem fim.

Colaboração: Piter Punk
Fonte da imagem: http://www.revistaesoterica.com.br/metodo_oracoes/saojorge.jpg