as vezes, quando sobra um pouco de amor próprio, eu penso que o dia vai acabar muito mais rápido do que começou. a grande verdade é que eu não sou boa o bastante sozinha. parece que nasce de um momento para o outro uma oficina de erros, e eles chegam e se apossam de mim. um a um vão sentando e apontando todos os meus erros. é uma auto flagelação, autodestruição. como estar feliz quando se está prestes a perder tudo. é o último passo antes do precipício. a última nota daquela canção que a gente ama. é o último gole. os últimos erros. e se chove dentro de mim? aqui tudo é uma tempestade. já nem sei mais se quero fugir. as vezes penso que não. tudo passou. sorrisos inteiros. tardes boas. vozes ao telefone. e o vazio. um imenso. enorme. gigante vazio. tudo aqui tá vazio.

Às vezes o sentido da palavra “ignorância” se perde. Ignorar não é escolher não saber, é desconhecer alguma coisa, não ter conhecimento dela2.

Quase todo mundo já ouviu um dia uma expressão do tipo: “como assim, você nunca leu esse livro?”, ou então “fulano é um idiota, aposto que nunca leu ‘Autor X’”. De certo, essas pessoas se julgam mais inteligentes por terem lido tais autores, enquanto os que não leram sequer sabem o que estão perdendo, mas já levam a culpa. Isaac Newton devia ser um tremendo ignorante, já que nunca leu George Orwell…

Dia desses precisei dos serviços de um encanador. Provavelmente o Zé Encanador nunca leu um de meus livros prediletos, mas eu precisei dele, porque, infelizmente, não entendo nada de instalações hidráulicas. Agora me diz: que proveito tiraria João Tapeceiro dos sonetos de Camões, dos deuses greco-romanos, ou da teoria de Chomsky? E o que faria um professor de filosofia, que leu mais livros do que jamais lerei, com meu conhecimento de computação? Um über software ultra-pensante que computasse o sentido da vida, das coisas, e tudo mais3?

2 + 2 = 5

A verdade é subjetiva. O que é verdade para você, pode não caber na realidade do Zé, do João… Da mesma forma, o que cada um julga certo, correto, não será o mesmo para todos. Se alguém crê piamente em algo, para essa pessoa aquilo é uma verdade. E se ela estiver completamente errada sob todos os conceitos que você aprendeu na academia, ainda assim seria prudente não ignorar a possibilidade de seus livros empoeirados estarem todos enganados. E mesmo que isso seja improvável, não se esqueça que aquela pessoa não é pior do que você, ela só ignora algo que você sabe. Talvez porque dedicou boa parte do tempo para aprender serviços dos quais você precisa, ou pode precisar um dia, e jamais poderia fazer.

Antes que viesse o caos (será que antes mesmo?), já que cada um pode tomar como verdade o que bem entende, criaram a sociedade, as leis, a justiça. Simplesmente para organizar o que será considerado verdade para a coletividade, ainda que a coletividade possa estar enganada (o que não é incomum). Então, meu caro, cada um preocupe-se com suas próprias verdades, ou exerçam cidadania para discutir as verdades coletivas. Nunca queira interferir na verdade alheia.

A voz do povo é a voz de Deus

Dia desses ‘ouvi’ uma crítica de um texto que continha um jargão popular. Imediatamente me lembrei de um dos últimos livros que li, no qual o autor se deu o direito, em alguns momentos, de usar esse tipo de expressão, ainda que citasse o fato de que o professor de literatura dele provavelmente o mataria por isso. Às vezes o provérbio tem um poder de síntese do assunto muito maior que o autor (ou, principalmente, o crítico) poderia expressar em outras palavras, mas ainda assim, esse é tencionado a refutar o uso do dito por conta do que sempre aprendeu.

Esse é o problema de seguir a risca a cartilha acadêmica: ignorar o que cabe melhor à própria realidade em prol dos paradigmas pré-estabelecidos. Ignorar, por exemplo, a sapiência popular. Quanto mal não seria evitado se todos lembrassem que “em boca fechada não entra mosquito”? E mesmo que digam que “quem cala consente”, vale lembrar que “antes calar do que mal falar”. Quantas pessoas ignoram o quanto “falar é fácil, fazer é que é difícil”? Quem se lembra, diariamente, que “o sol nasceu pra todos” e “pra cada cabeça uma sentença”?

O Povo, como um todo, faz muita imbecilidade, mas a sabedoria popular ainda é maior do que a de muita gente. Especialmente, dos que ignoram isso.

Às vezes o sentido da palavra “humildade” se perde.

“A bom entendedor, meia palavra basta”.

Referências:
1 1984, de George Orwell
2 Dicionário Aurélio
3 O Guia do Mochilerio das Galáxias, de Douglas Adams

Deu-se que, numa casa não muito longe daqui, uma criança de quase 3 anos que até então não tinha falado um único monossílabo, profere seu primeiro grunhido decifrável.

– Aaaaaaaai, que lindo! Vem ver, amor! Vem ver!
– Que foi?
– O Alfredo Augusto! Ele falou, ele falou!
– Sério?!
– Sim!!! Você precisa ver!!!
– E o que ele disse? “Papai”?
– Não.
– “Papá”?
– Não…
– “Pá”…?
– Não!!!
– O que foi então?
– Ele disse “Blau”.
– Disse o que?
– “Blau”.
– (…)
– Repete, meu amor, repete pro papai ouvir! B – L – A – U!
E a criança:
– Blau.
– Ahhhhh, garotão! Que orgulho! Fala de novo pro papai ouvir, fala!
– Blau.
– Isso aí, campeão! Ana, vou ligar pro pessoal da firma! Eles precisam ouvir isso!
– E eu vou chamar a Dona Cotinha!

Ignorando o fato de que os primeiros raios de sol de um belo domingo tinham acabado de aparecer, marido e mulher foram buscar seus companheiros de trabalho e fofoca, respectivamente, para exibir as façanhas do pimpolho.

Da firma vieram três homens. Dona Cotinha chegou com sua filha e suas duas netas.

A platéia se acomodou no sofá, em círculo, de modo a deixar o centro da sala livre para o espetáculo. E que espetáculo, afinal o guri já tinha 3 anos!

– Fala, meu anjo, fala de novo pra mamãe, fala. B – L – A – U.
– (…)
– Fala, meu amor! Mostra pra Dona Cotinha! Vamos lá, repete com a mamãe: B – L – A – U!
– (…)
– Vamos, querido! Só mais uma vez! Mamãe ajuda você: B – L – A – U!

E nenhuma reação do rebento!
A platéia se entreolha.
O pai leva as mãos à cabeça e solta um suspiro.
A mãe, levemente envergonhada, ainda tenta:
– Presta atenção na mamãe, ó: B – L – A – U!

Sim, exatamente assim. Pausadamente. Começando com a língua no céu da boca e finalizando com o biquinho, no U.

E o guri ainda mantém os olhinhos de interrogação.

A mãe arrisca uma última tentativa:
– Por favor, querido. Olha só, todo esse pessoal veio só pra ouvir você falar! Diz pra mamãe, diz! Blau! Diz, meu anjo! Blau! Não é simples? Blau! Blau! Viu só? Não é difícil, não pode ser difícil!!! Pelo amor de Deus, diz essa…
– Calma, Ana! – interrompe o pai.

A mãe se senta no chão e olha pra criança, incrédula, enquanto o pai pede desculpas ao público por acordá-los tão cedo num domingo e os encaminha até a porta de saída.
– Humpf! – bravejou Dona Cotinha, ao sair.

– Eu vou voltar a dormir. – afirmou o pai.
– Eu também. Você ainda me mata de vergonha! – disse ao filho.

Tomou o pequenino pela mão e o levou de volta ao quarto de brinquedos. Deu-lhe um beijo na testa e voltou para seu merecido descanso.

Já da cama, pai e mãe se entreolham ao ouvir, de longe, uma voz infantil que cantava, ainda que sem ritmo:

– Meu uixinho blau blau de blinquedo, vou contar pla voxê um xegledo… ai ai ai, ui blau blau!

Senhoras e senhores, humildemente peço que desliguem seus telefones celulares e esqueçam a postura correta para que possamos prestar uma homenagem sincera à nossa infância, totalmente indolor e despida de qualquer tentativa de empurrar aos senhores qualquer de produtos de plástico vendidos numa loja pertinho de vocês. Por favor, esvaziem suas mentes de todos os problemas profissionais e/ou familiares para dar lugar às boas lembranças de quando nossas metas eram simples e não envolviam dinheiro, quando corríamos por gosto e não por causa do colesterol perigosamente alto, quando sorríamos apenas por sorrir.

Prontos? Então lembrem de como era bom sentir terra e grama entre os dedos dos pés, como era ver a paisagem do alto de uma árvore, como era colocar a cabeça para fora da janela do carro do seu pai para sentir o vento no rosto, em um dia de calor. Tentem ouvir o riso de todas as crianças com quem já brincaram e redesenhar seus rostos com hidrocor e giz de cera. Tentem ouvir suas mães gritando na janela, avisando que o almoço está pronto. Lembrem-se dos brinquedos e brincadeiras, de como a imaginação dava vida aos bonecos e bonecas e criava tramas inocentes que faziam as tardes passarem depressa. Vejam-se assistindo os desenhos animados e lendo os livros e revistas em quadrinhos que vocês tanto gostavam. Revivam as viagens em família, as festas de aniversários e as vésperas de Natal. Vejam, ouçam e sintam tudo outra vez e, se esta pequena viagem no tempo lhes foi agradável, façam uma grande reverência à infância e mantenham constante o contato com suas crianças interiores, porque um dos segredos de uma vida feliz é ver o mundo com os olhos de uma criança.

Feliz dia das crianças a todos!

Escrito ao som de: Piruetas – Chico Buarque & Os Trapalhões.

Ai é assim, você resolve escrever, de verdade, faz toda uma opção de vida de caráter definitivo, rejeita frivolidades, pega toda tua fé naquilo que acredita e se expõe. pelo menos pra mim é assim, não consigo escrever se não for de mim mesma. e de repente no meio do caminho você se entrega totalmente. Conhece essa absurda tarefa de escrever num país com milhões e milhões de analfabetos (…) um analfabetismo funcional e habitual de gente que de duas uma: não entende o que você escreve ou distorce aquilo que você diz.

Porém a uma certa altura da vida, em um dia qualquer , eles aparecem, os supostos amantes do teu trabalho, e você se delicia, abre o peito e conta aos poucos teus medos, que você também é de carne e osso, que muitas vezes chora muito, horrorizada com a crueldade da Terra, ai alguns dias você descabela, fica bêbada – sim queridos, porque um escritor se é muito bom escritor, tem mesmo que beber – porque se ele é muito bom, ele sente muito diferente do açougueiro da esquina, do príncipe boboca também, ele sente o fundo dilatado, sofre de compaixão e impotência, vê todos os canalhas do Planeta cometendo atrocidades, conhece todos os métodos do poder para aniquilar esperanças

Então, os amiguinhos que te amavam, a essa altura depois desta exposição já te acham um lixo e dizem pros outros que ainda te amam, mas de forma diferente. Pois é, vai conviver com o gênio e aí você vai ver como ele é. “Bizarro?” “Põe bizarro nisso! E como é que vocês queriam que fosse, ele escreve coisas geniais? Certinho, arrumadinho, abstêmio, fino, dissimulado, pactuando com elegância com todos os ignóbeis donos da miséria e do Poder?”

me desculpem, mas hoje eu vim pra guerra de vermelho. Vim atear fogo na terra e quero mais é que ela QUEIME!

A política nacional, há algum tempo, parece estar bipolarizada. De um lado, um grupo de pessoas supostamente bem intencionadas sendo manipuladas por um outro grupo de, sabidamente, corruptos. De outro lado, um escrete de velhos moribundos, teoricamente competentes no que fazem, mas com o livro didático de sociologia empoeirado.

Em suma, a escolha fica entre a corrupção ou a falha ideológica.

Obviamente ninguém quer aceitar a má fé, e deve ser senso comum que uma ideologia, ainda que furada, é melhor que nenhuma. O que me espanta é que eu tenha ainda mais pavor de ser governado por quem sabe o que quer, e não é nada do que eu quero, do que de ser governado por corruptos.

Você conhece Riachuelo?

Riachuelo era para ser agradável. Lembra riacho. Era para remeter ao barulho da água corrente, dos sapos à beira, dos grilos esfregando as longas patas umas nas outras. Um lugar pacífico, calmo, relaxante.

Você conhece a rua?

E de tanto dizerem que boemia rimava com nobreza, as canções perderam a graça. De tanto versarem libertinagem com malandragem, as mulheres perderam a graça. De tanto combinarem passado com dinheiro, o presente perdeu a graça.

Você conhece a Rua Riachuelo?

Rua Riachuelo não é nada aprazível. Lembra asfalto. Remete ao barulho dos gases tóxicos correndo pelo ar, dos mendigos nas calçadas, dos doentes estendendo as cansadas mãos aos outros. Um lugar caótico, nauseante, estressante.