Na minha humilde opinião, o maior invento do homem é a língua. Existe coisa mais genial do que catalogar cada som produzido por nossas pregas vocais – sem trocadilhos, por favor – e tranformá-los em fonemas e depois, unindo esses fonemas, criar palavras e articular frases? Aliás, criar um meio de comunicação onde os indivíduos não precisam decifrar mímicas. Imaginem quanto tempo uma pessoa não demorava para entender, entre grunhidos e gestos, que a sua aldeia estava sendo atacada por outro povo? Como toda invenção do homem, a língua foi se modificando, se modificando, se modificando, se modificando e se modificando um pouco mais até chegar ao que a gente conhece hoje. Mas não vou falar sobre como surgiu o português, inglês, alemão ou o francês e sim sobre um idioma menos conhecido, mas não menos falado: o namorês.

Pouca gente conhece o namorês – este estranho idioma que não se aprende na escola, nos livros ou nos cursos de conversação do CCAA, mas todos nascemos sabendo falá-lo fluentemente. A sábia natureza faz com que esta habilidade só se manifeste após uma certa idade (é algo muito semelhante ao surgimento de pêlos no corpo dos rapazes e a fixação por bolsas e sapatos das meninas). Após 2 ou 3 semanas de relacionamento monogâmico, o cérebro apaixonado envia uma informação para as gônadas, que confirmam a informação e a reenviam para o cérebro, que dá tilt e envia a informação para as pregas vocais. É assim que acontece toda a magia do idioma falado pelos casais apaixonados.

Apesar de ser uma língua primitiva e utilizada apenas por conta de estímulos fisicoquimicomongossexuais, o namorês obedece – assim como os outros idiomas – rígidas normas gramaticais. Por esta, nem o prof. Pasquale Big Mac esperava! Existem muitas diferenças entre o namorês e o português, principalmente no caso dos pronomes pessoais retos (eu, tu, eles, nós, vós, eles): o namorês só possui as duas primeiras pessoas do singular (euzim e meuamorzim). Outra peculiaridade é que, diferente do português que possui os modos verbais Indicativo, Subjuntivo e Imperativo, o namorês possui apenas o modo Implorativo. Veja como o verbo pegar fica flexionado no modo Implorativo, na frase abaixo:

Meuamozim pega cervejinha para euzim?

Fiquem ligado pois na semana que vem colocarei aqui uma lição sobre outras línguas muito faladas e pouco conhecidas, como o favelês, o impostoderrendês e a língua da professora do Charlie Brown.

Obs: Hoje é aniversário do Mondo Redondo (e meu também, por acaso). Coloquem os presentes caros na segunda prateleira, por favor.

Se me fosse concedida a escolha um dom eu não saberia dizer de cara o que escolheria, mas posso afirmar que não seria saber o futuro. Acredito que existam pessoas que tenham o dom de vislumbrar o que está por vir (ou não faria meus dois joguinhos de tarô anuais), mas também acredito que saber nitidamente tudo o que vai acontecer é uma maldição. Se você soubesse que bateria com o joelho em uma cadeira, com certeza evitaria a batida e poupar-se da dor, como teria cuidado com uma faca se soubesse que cortaria um dedo ou não sairia de casa sem um guarda-chuva se soubesse que ia chover. Mas essas são apenas as pequenas coisas, o começo da bola de neve. Com o tempo você ficaria tentado a mudar de lugar coisas maiores, como não fazer uma viagem por saber que ia chover o fim de semana todo ou não entraria naquele consórcio do carro zero por saber que nunca ia ser contemplado. E ainda maiores: exigiria que sua mãe se mudesse para sua casa para que ela não quebresse a perna escorregando no banho e demitiria a empregada antes que ela começasse a beber escondido em serviço. Então, um dia, você nem olharia para aquela menina de rabo de cavalo na rua, pois já sabia que com 10 anos de casados ela faleceria e você não faria amizade com aquele cara legal da mesa de bar porque ele abusaria da sua irmã 6 meses à frente. Por fim, você passaria a vida trancado em seu apartamento por saber demais, por saber até o dia e a hora da sua morte e o que todos iam dizer e pensar. Apenas esperaria o momento chegar, imóvel, evitando tudo que pudesse dar errado até a hora de fechar, de vez, os olhos. Talvez, se pudesse, evitaria seu próprio nascimento, para evitar a própria morte.

Acho que eu escolheria o dom de voar e passaria o dia inteiro entre as nuvens. Dizem que quem tem a cabeça nas nuvens não pensa no futuro. Parece sábio.

Chegará o dia em que você se desinteressará por mim. Nesse dia, meu rosto sumirá da sua memória e meu nome não fará diferença aos seus ouvidos. Talvez até os fira, como uma melodia desafinada ou um barulho incômodo, e faça você levar as mãos aos ouvidos ao ouvir falar de mim. Você vai passar pelos lugares onde vivemos risos e lágrimas e nada vai chamar sua atenção, serão apenas bancos de praça e mesas de restaurante. E nem mesmo as folhas amareladas na calçada ou a brisa salgada da praia farão com que eu apareça nos seus pensamentos.

Chegará o dia em que você vai acordar e eu não estarei mais ao seu lado na cama. Você abrirá o armário da cozinha e colocará apenas um prato e uma xícara na mesa. E quando você estiver mexendo o café, não sentirá a minha falta na cadeira em frente, lendo o jornal ou pedindo para que você passe manteiga em um pedaço de pão. E quando você for trabalhar, não vai se importar se eu não lhe der um beijo no portão de casa ou no ponto de ônibus, desejando-lhe um bom dia no serviço.

Chegará o dia em que você vai sair com os seus amigos e nem vai notar que meu riso não está entre o das outras pessoas na mesa. Você vai pedir ao garçom que lhe traga apenas um chopp e não dois, porque eu não estarei ao seu lado para brindar consigo. E quando um daqueles meninos pobres de terno roto lhe abordar, pedindo-lhe que compre uma rosa, você vai sorrir e dizer que comprará em uma outra ocasião, e nem vai atinar para o fato de eu não estar ao seu lado para receber ou agradecer pelo presente. Quando você chegar em casa e tirar os sapatos à beira da cama, deitar-se-á sem sentir saudades dos meus dedos afagando seus cabelos para que você pegue no sono. E nesse dia, quando você acordar no meio da madrugada mordendo o canto do lábio inferior, nem vai se lembrar que um dia meu corpo já esteve ao lado do seu, ansioso pela sua febre, seu desejo e sua satisfação.

Até que esse dia chegue, tudo que peço é que você me ame o máximo que você puder.

Sim, doutor. Uma crise. Meu marido e eu não estamos nos nossos melhores dias. Mas ele pediu, doutor! Ele fala demais e acaba ouvindo o que não quer! Como vou explicar…? Bem, doutor, imagine o seguinte o diálogo:

– Desligou o gás?
– Desliguei.
– Tem certeza?

Pronto! Você estava certo de que tinha desligado o maldito botijão, já é um hábito! Mas basta alguém perguntar se você tem certeza pra te tirar do seu merecido descanso pra verificar se o gás foi REALMENTE desligado. E, geralmente, foi.

Me entende, doutor?

Pois depois de umas dessas viagens do meu marido, nós marcamos uma noite mais… errrr… romântica. Sabe como é, doutor, quase quinze anos de casamento. Às vezes é necessário um tempo só pra nós e blá blá blá. Creio que me entende. E depois dessa noite, enquanto estávamos abraçados ouvindo uns CDs de jazz dele, ele me diz:

– A gente realmente precisava de uma noite assim. Provavelmente a melhor destes quinze anos, não é, amor?
– É sim, amor.
– Mesmo?

E o silêncio reinou, doutor. O silêncio reinou.

Você já parou para pensar no tempo desperdiçamos tentando descobrir o sentido da vida? A resposta é muito simples: viver – coisa que muitos de nós não fazem. Deveríamos viver mais e muito mais intensamente cada fração da nossa vida mortal, mas para se viver bem é preciso saber, primeiramente, como se viver. Ora, o que se mais vê pelas ruas é gente que não sabe viver! Pessoas cinzentas, sem brilho nos olhos, pessoas com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, pessoas com a respiração pesada, que não percebem que os cabelos estão cada vez mais alvos e ralos, mas que continuam, anestesiadas, sua procissão em direção à morte em vida. Pessoas que não aprenderam a viver e simplesmente vagam, como espectros. Não seja um espectro, aprenda a viver já!

Você deve estar se perguntando: mas como eu aprendo a viver? Bom, não existe um livro, um guia ou coisa do tipo. Aprende-se a viver simplesmente vivendo, mas é fácil saber quando não se está vivendo. Se você chega do trabalho numa sexta-feira e se ancora no sofá esperando a segunda-feira ou a morte (o que chegar primeiro), você não está vivendo. Se você está parado no ponto de ônibus e o farfalhar das copas das árvores não desviar a sua atenção dos ponteiros do relógio, você não está vivendo. Se você está no escritório e uma pipa bater na janela e isso não lhe trouxer recordações da sua infância, você definitivamente não está vivendo. Se você nunca afagou um cachorro, correu na grama, nadou nu, jogou bola na chuva, colocou refrigerante pelo nariz, roubou um beijo, escreveu um poema, chorou por amor, comeu com a mão, debruçou-se na janela, catou uma flor, sorriu à toa, dormiu abraçado, chegou em casa com o sol raiando, lambuzou-se de doce, colou o rosto em uma vidraça, comeu pipoca vendo TV, acordou com o sol no rosto, fingiu reger uma orquestra, sonhou que estava voando, deixou de ir trabalhar para brincar com as crianças, comemorou o gol do título, teve medo de trovão, rezou para passar em prova final, colheu fruta no pé, dançou na chuva, furou o dedo, leu um bom livro, bebeu com os amigos no meio da semana, cantou até ficar rouco em um show, fez alguém ter um orgasmo, caiu de um muro, bebeu água em uma fonte de beira de estrada, queimou o jantar, acendeu uma vela procurando paz, brincou de prender a respiração, perdeu o sono no meio da madrugada, comeu pizza no café da manhã, ralou o joelho ou disse “eu te amo” a alguém, você está muito longe de estar vivendo. Mas sempre há tempo para mudanças.

Viva. Viva de forma sábia e intensa. Trabalhe, crie, ria, chore, ame! Não há nada mais triste do que abrir o livro da sua vida, ao fim dela, e deparar-se com páginas em branco.

A Primavera é uma época maravilhosa do ano: o ar se enche com o cheiro das flores que acabaram de desabrochar e todos deveríamos agradecer aos céus pelo aroma das flores ou passaríamos a estação inteira sentindo cheiro de suor, afinal a Primavera é a também época de um dois mais belos fenômenos da natureza: o projeto carnaval.

O projeto carnaval é um fenômeno natural que ocorre há tempos e é muito simples de se compreender: quando a temperatura começa a aumentar, os machos e as fêmeas da espécie homo sapiens latinus ou bicho-homem sul-americano, como são popularmente conhecidos, percebem que falta apenas cinco meses para a época de acasalamento e migram em massa de seus sofás para as academias de musculação, a fim de livrar-se de toda adiposidade adquirida durante o outono e o inverno. Nesta época do ano, os bichos-homem tornam-se praticamente herbívoros, deixando de consumir carnes, massas e álcool; a atividade física torna-se intensa tanto para os machos quanto para as fêmeas, mas não de forma igual: os machos exercitam até a exaustão a parte superior do corpo, enquanto as fêmeas superdesenvolvem a parte inferior de sua anatomia, ambos com a finalidade de caberem em roupas justas a tempo do carnaval.

Após cinco meses de muito suor e privação de carboidratos, o projeto carnaval está quase no fim: os bichos-homem sul-americanos machos já têm seus braços, abdômen e peitoral definidos, enquanto as fêmeas exibem pernas e nádegas bem trabalhadas (ao contrário das fêmeas norte-americanas, que desenvolvem apenas o tórax). Então os machos e fêmeas deixam as academias e migram em massa para a costa vestidos em biquínis e sungas e, sob o sol forte, dão início à última etapa do projeto carnaval: o bronzeamento. Como se fossem répteis, os bichos-homens sul-americanos estendem-se sob sol e douram a pele para retirar todo o mofo que se acumulou nos alvos poros durante os meses frios e para atrair o sexo oposto. E é durante o processo de bronzeamento que começa a corte: o macho, atraído pelo cheiro do protetor solar que a fêmea exala, aproxima-se dela oferecendo bebidas e elogiando o seu corpo. A fêmea, que analisou o macho em menos de dois segundos, mostrará seu interesse puxando os óculos de sol para a ponta do nariz e sorrindo com a cabeça inclinada e com os olhos semicerrados. Caso isso aconteça, ambos esperarão o fim do dia e de muitas bebidas para copular. Após a cópula, o casal se separa para, talvez, nunca mais se encontrar. Alguns estudiosos acreditam que, no passado, alguns casais de bichos-homem se juntavam e passavam a vida toda juntos após a cópula, mas não há evidências que comprovem essa teoria.