Até pelo menos a metade do século passado, a maioria dos casamentos se dava da seguinte forma: um rapaz de boa família pedia a pai de uma moça de boa família autorização para cortejar a moça e, se o pai da jovem achasse que o rapaz era digno de sua filha após avaliá-lo pela aparência, reputação e poder político-econômico de sua família, autorizava que sua filha se casasse e o casal convidava a sociedade para comparecer à igreja para celebrar a união de duas famílias. Com o tempo, o casamento foi se modificando até se tornar a instituição que conhecemos hoje, onde grande parte as pessoas se une por escolha própria, livre de pressões sociais e de cerimônias religiosas. O casamento se modificou tanto que, nos dias de hoje, alguns casais fazem o que era impensável no tempo de seus pais e avós e convidam outras pessoas para consigo compartilhar o leito conjugal. Vivemos hoje na era do casamento aberto.

Por definição, o casamento aberto é o relacionamento onde ambas as partes, com o conhecimento e consentimento da cara-metade, têm liberdade para fazer sexo com outras pessoas, com ou sem a presença do cônjuge. Há quem diga que no futuro todos relacionamentos serão abertos, há quem diga que essa abertura é a ruína do matrimônio. A única coisa que se pode afirmar e que, ao contrário do que muitos acreditam, o casamento aberto não surgiu recentemente. É sabido que na Grécia antiga, por exemplo, os casais costumavam dividir suas camas com adolescentes de até 16 anos. Este terceiro elemento, que compartilhava a intimidade do casal era chamado por um termo cujo significado também mudou com o passador dos anos: amigo. Na década de 60, que foi uma época de grandes mudanças sociais no mundo todo, o casamento aberto se popularizou, não por significar a liberdade sexual, mas por significar uma ruptura com os padrões há muito herdados pela sociedade medieval, que se utilizava da união exclusivamente para angariar terras e alianças políticas; e pela Igreja, que sempre condenou o sexo sem fins reprodutivos. O amor livre dos hippies invadiu a cabeça da juventude da época e adentrou pelos anos 70. Surgiam cada vez mais casas de swing, locais onde casais podiam conhecer outros casais ou pessoas solteiras para se relacionar. Em filmes, em peças de teatro, nos versos da canção que Eric Clapton escreveu para a esposa do amigo George Harrison: os relacionamentos abertos estavam por toda a parte, apesar dos olhos repressores da sociedade conservadora e das instituições religiosas, que não viam com bons olhos homens e mulheres casados trocando de parceiros e parceiras, entregando-se à luxúria. A mesma sociedade conservadora que sempre se entregou à luxúria escondida sob o véu da traição e as mesmas instituições religiosas que sempre pregaram que deve-se fazer sexo apenas para procriar, mas sempre fecharam seus olhos para os sacerdotes que quebravam seu voto de castidade na beleza pura e pueril dos jovens iniciados nos mistérios do divino.

Quando alguém me pergunta se sou pró ou contra o casamento aberto, minha resposta é simples: cada um ama do jeito que sabe e pode amar. Apesar de manter meus relacionamento à moda antiga, acho que um casamento aberto deve ser visto como ele é: apenas como um casamento, cuja chama tanto pode dure até que a morte os separe como pode se extinguir com a velocidade de fogo de palha, como qualquer casamento que vamos ou vemos pela TV, e que não devemos classificar ou rotular as pessoas quanto às suas opções e preferências sexuais. Afinal, os pecados do amor não moram nos corações que guiam os lábios que se beijam, mas nas cabeças cujos olhos, míopes, apenas miram para censurar.

O homem criou a música, a escultura, a fotografia, enfim, as artes. Mas, na minha humilde opinião, a maior arte criada pelo homem é a arte de criar crendices. Claro que transformar uma tela em branco em uma natureza morta ou livrar a escultura de sua prisão no bloco de mármore têm o seu grande valor, mas criar crendices é a mais fina arte, tão elevada é a sua dificuldade! Não basta apenas criar um enredo: a crendice tem que ser lapidada, tem que inspirar o medo no coração dos homens e o matraquear das línguas desocupas – afinal a crendice é mãe do boato. E na crendice tem que haver desprendimento, pois o verdadeiro criador de crendices não revela seu nome, mantém-se no anonimato, após ter doado sua obra ao mundo.

Uma das mais antigas (e até hoje respeitada) crendices brasileiras é a do leite com manga, que data do Brasil-Império. A genialidade da pessoa que criou a lenda de que quem bebesse leite chupando manga morreria na hora, é sem precedentes. É uma crendice tão boa que até hoje, quase duzentos anos após sua invenção, as pessoas não misturam leite e manga. Outra crendice maravilhosa é a de que, quando está relampejando, todos os espelhos da casa devem ser cobertos, pois os raios podem sair por eles. Imaginação fértil, não? E aquela velha crendice de festa junina, que reza que deve-se esfaquear uma bananeira no dia de Santo Antônio e que a letra que a seiva formar na lâmina da faca é a letra inicial do nome da pessoa com que vai-se casar? É tão boa que é nessa época do ano que a Tramontina tem mais lucro!

E como não poderia deixar de ser, até o sexo tem suas crendices. E como não teria, já que se somos tão ligado ao sexo quanto às crendices, por que não juntá-los? Foi assim que surgiu a história de que fazer sexo após o almoço é letal. Isso fez com que muitos homens evitassem olhar sua esposa lavando a louça após a refeição, temendo uma congestão. Outra bem interessante: fazer sexo com uma mulher negra depura o sangue. O que me intriga nesta crendice é o porque da mulher ser especificamente negra, já que a única diferença entre uma mulher branca, uma mulher negra e uma mulher amarela é a tonalidade da pele. Também me intriga o fato dessa crendice não ter seguido outras vertentes, como afirmar que as mulheres brancas possam melhorar o sistema linfático ou que as orientais e índias façam bem ao fígado. Falando ainda nas orientais, tem gente que crê que a genitália das orientais é “atravessada”. Sim, na horizontal. Talvez para facilitar a cópula com a genitália dos homens orientais que, segundo a crença, não é lá muito avantajada. Aliás, o pênis é uma grande inspiração (mesmo sendo um pênis pequeno) para crendices. Dizem que a seiva de um pé de banana d’água aumenta o pênis, talvez uma tentativa de confirmar o velho ditado que “banana engorda e faz crescer”. Mesmo sendo sabido que seiva de bananeira é um material absurdamente ácido, o número das pobres árvores que são violentadas aumenta a cada ano, porque um amigo disse que o primo do pai do vizinho dele garantiu que é bom. E o número de emergências urológicas também, claro.

A arte de criar crendices nunca vai desaparecer, talvez se reduza, mas nunca vai sumir completamente, por a crendice é alimentada pela falta de instrução – recuso abundante ainda hoje, quiçá inesgotável. E eu aposto qualquer coisa com quem quiser topar a minha aposta que, neste Brasil de Deus, existe pelo menos uma pessoa que acredita que japonês tem pau pequeno porque no Japão só cresce pé de banana nanica.

Sim, temos que ser homens e no mais amplo sentido da palavra, pois ser homem é muito mais difícil do que se imagina. Há quem pense que ser homem é colocar uma gravata ou acordar de manhã e fazer a barba. Há quem acredite que ser homem é beijar uma mulher ou esmurrar outro homem. Ser homem é muito mais que isso.

Ser homem é, antes de tudo, saber quem somos e o que somos, sem mentir para ninguém, inclusive para nós mesmos. Ser homem é também saber dar o devido valor a todos que estão a nossa volta, independente de cor, credo, sexo ou sexualidade. Ser homem é saber admitir nossos erros e saber perdoar os que erram conosco. Ser homem é defender nossos ideais e perseguir nossos objetivos, é concretizar os nossos sonhos. E, acima de tudo, ser homem é saber ser menino no espírito e no coração, pois de nada adianta termos olhos experientes, se não temos pureza no olhar.

Sim, cada vez mais, temos que ser homens.

Sexta-feira, 10 de Dezembro. Faltam 15 dias para o Natal e 21 dias para o Reveillón. A época das Festas é a época de começar a ouvir “nossa, como o ano voou rápido” ou “parece que o Carnaval foi ontem”. É época de ir ao supermercado e enfrentar 2 horas para estacionar o carro, sair na porrada com quatro donas-de-casa para pegar o último peru do mercado, comprar sidra porque a grana não dá para comprar champagne. É época de sentir o cheiro da rabanada da sua vizinha queimando, ouvir os seus sobrinhos dizendo que vão tacar pedra no primeiro que der de presente roupas ao invés de um videogame, de ouvir seu pai recomendar um vinho tinto que parece Ki-Suko. É época de ir aos Correios, comprar um monte de cartões de Boas Festas para enviar para seus entes queridos. Encarar aquela fila e a atendente chata que fala “Leva o da Unicef”, esperar até a balconista achar os selos. Depois, chegar em casa e escrever os cartões para os seus entes queridos. Depois de escrever um texto diferente para cada um dos 76 destinatários (seus parentes em outros Estados merecem um agrado especial), voltar aos Correios, encarar outra fila para enviar as cartas, para pessoas que não vão te responder nem sequer te ligar. Sacrifício é o que esta época representa. É dar a cara a tapas pelos seus semelhantes.

É uma época de paz, onde os homens tentam esquecer suas diferenças e se dar as mãos. Sabe aquele seu vizinho que pegou a sua furadeira têm 6 meses, não devolveu e ainda por cima te acorda todo santo dia às 5h da matina usando-a? Perdoe! Sabe aquela sua tia que bebe demais nas festas, sobe na cadeira e começa a contar daquela vez que pegou você se masturbando no quarto de empregada? Perdoe! Lembra aquela sua namorada que incentivava você a ir jogar e beber com seus amigos e que você pegou na cama com o porteiro do prédio? Perdoe! E o seu ex-marido, que além de ter passado 3 anos desempregado, bebia o dinheiro das contas da casa e no final ainda te enchia de porrada? Perdoe. Perdão é o que esta época representa. É estender a mão, mesmo que enfaixada, a quem já a mordeu.

É época de cercar-se de seus entes queridos, reuní-los no calor de sua casa e compartilhar sua ceia com eles: seu tio cachaceiro que enxuga todo seu whisky escocês, aquela sua tia que fala na sua cara que o bacalhau que ela faz é muito melhor que o seu (e que levou 2 horas para ficar pronto), seu sobrinho pentelho que fica se pendurando na árvore de Natal e o irmão dele, que se diverte jogando as bolas de enfeite nas pessoas que passam na rua. Aquela sua prima que adora andar sem calcinha e que te dá bola na frente da sua mulher; seus amigos, que enchem a moringa de vinho e vomitam no seu sofá novo; seu cunhado, que sempre te chama num canto para te pedir um dinheiro emprestado e a grande estrela da noite: a sua sogra, que sempre fala para todos os convidados que você não presta, que vai roubar os melhores anos da filha dela e que quando ela chegar aos 50 anos, cheia de filhos para cuidar, aposta que você vai trocá-la pela sua secretária – que é 35 anos mais nova que você. E quando todos vão embora, quase de manhã cedo, e você ainda tem que arrumar a trincheira em que a sua casa se transformou, você sorri e não ver a hora do fim do ano seguinte chegar, prometendo a si mesmo que tudo vai ser melhor. Esperança é o que esta época representa. É puxar o pino da granada e torcer para que ela não exploda na sua mão.

Boas Festas a todos!

Só quem já perdeu um grande amor pode cantar, de verdade, um blues.

Nunca colhi algodão, nunca sequer senti em meus pés a lama escura das margens do Mississipi e de negro tenho apenas alguns traços e alguma musicalidade, mas já cantei – e muito – o blues. Já me faltam dedos para contar as vezes que deslizei o slide por sobre o braço gasto da minha guitarra ou quantas vezes minha garganta fez-se rouca ao cantar a dor sentida no coração. Dez? Quinze? Cem? Mil? Não sei mais. Apenas sei que foram muitas.

Por que o blues? Não sei dizer ao certo. Apesar da aparente simplicidade, existe algo muito complexo naqueles três acordes (e que eu não conseguiria explicar nem se estivesse sóbrio) que faz borbulhar dentro do peito um desejo violento de exteriorizar toda raiva, ódio, tristeza e solidão em forma de música. É disso que é feito o blues: de emoções incontroláveis e quem já ouviu Muddy Waters ou Albert King ou qualquer outro bluesman sabe que o blues nada mais é do que um grande desabafo e, na minha opinião, uma forma bem saudável de desabafar. Bem mais saudável do que enxergar o fundo de uma garrafa vazia de Jack Daniels ou quebrar espelhos com os punhos, acho eu. Amores perdidos não valem ferimentos nas mãos ou uma manhã de ressaca, mas merecem um bom blues e talvez algumas lágrimas.

Só quem já perdeu um grande amor pode cantar, de verdade, um blues. Já perdi, há muito, a conta. Sei apenas que há mais um blues na soma.

The Beatles - Love Is

Defendo-me então dos que me acusarem de infidelidade. Pois, quem pode afirmar não se sensibilizar com tanta beleza vária? Sim, me apaixono todo dia, e a cada dia por uma diferente. Em meu canto, e em meu pranto, cada uma delas tem seu valor. Se hoje eu pensar mais em fulana, ou em beltrana, terá sido por influência de algumas horas de convivência, ou de algum pensamento turvo que sobressalta no meio da noite.

Tolo do que acha que eu deveria amar biunivocamente. Amo a todas, e em cada dia amo mais uma ou outra, e nem por isso cada uma das anteriores terão menos valor. Todas me aprazem, todas permeiam em minha mente e me conduzem em delírios vociferozes. Ainda que peçam que eu me decida por uma única entre todas as belas, será meramente um formalismo. Em meu sonho estará sempre a amada do dia, e mesmo que seja a mesma eleita por vários dias, nunca será única, pois sou sensível à beleza de todas as canções dos Bealtes…

Deixo cá minha homenagem a amada do dia:

Across The Universe
Lennon/McCartney

Words are flying out like
endless rain into a paper cup
They slither while they pass
They slip away across the universe
Pools of sorrow waves of joy
are drifting thorough my open mind
Possessing and caressing me

Jai guru deva om
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world

Images of broken light which
dance before me like a million eyes
That call me on and on across the universe
Thoughts meander like a
restless wind inside a letter box
they tumble blindly as
they make their way across the universe

Jai guru deva om
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world

Sounds of laughter shades of earth
are ringing through my open views
inciting and inviting me
Limitless undying love which
shines around me like a million suns
It calls me on and on across the universe

Jai guru deva om
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Nothing’s gonna change my world
Jai guru deva
Jai guru deva

A saber: a amada de “ontem” era While My Guitar Gently Weeps, e de antes era With A Little Help From My Friends, e antes All You Need is Love, e antes… E a eleita formalmente é A Day in The Life.

Senhoras e senhores: tirem os casacos e cobertores de seus armários, pois mais uma vez recebemos a visita do Pai Inverno.

Confesso que esta é a minha estação preferida e sei que muita gente vai torcer o nariz e me chamar de maluco por gostar de frio; por isso, antes que as pessoas comecem a atirar pranchas de windsurf e baldinhos de praia na minha cabeça, eu quero deixar bem claro que eu não detesto o verão (eu estaria mentindo se dissesse que não gosto de beber cerveja na beira da praia, vendo as meninas desfilando com seus biquínis), apenas gosto mais do inverno. Por quê? Bem, eis a minha listinha das vantagens do inverno:

1. No inverno come-se e bebe-se melhor. Quem discorda que existe uma diferença considerável entre as saladinhas light consumidas no verão e os fondues de carne e queijo que enchem nossos estômagos no inverno? Ah, e aquela garrafa de whisky escocês que seu sogro lhe deu? É complicado beber whisky com o termômetro marcando 40º, concordam? Isso vale também para vinhos, conhaques e outras bebidas que não combinam com calor.
2. No inverno as pessoas se vestem melhor. Ok, ok, ok… antes que a marmanjada de plantão reclame que as moças demoram mais do que o normal (?) para se arrumar, peço para que não comecem a atirar latas de cerveja em mim sem antes admitir que elas ficam lindas em trajes de frio. E outra: alguém discorda que ir a um casamento ou visita a cliente ou reunião de trabalho ou qualquer outro compromisso onde se faz necessário o uso de terno e gravata é um suplício no calor?
3. No inverno dorme-se melhor (acho que esta foi unânime). Aliás, o inverno é tão propício para quem – como eu – adora dormir, que a estação se inicia na data da noite mais longa do ano. Ah, aproveitando que estamos falando de cama, o sexo também é melhor no inverno – já que todo friozinho é desculpa para um pouco de calor humano.

Concordando comigo ou discordando de mim, agasalhem-se bem e aproveitem ao máximo a visita do Pai Inverno, pois ele só vai embora em Setembro – infelizmente.