Saudades
de olhar meu rosto sem pêlos ou rugas
Saudades
de minhas mãos sem calos ou manchas
Saudades
Da falta de preocupação do começo em relação ao fim

Viver: é para isto que estamos aqui. Aprender, ensinar, rir, brincar e tudo mais que a vida possa nos oferecer. Mas quanto mais esprememos a vida, ávidos por todo seu sumo, a vida também nos espreme e nos sorve o viço da pele, a cor dos cabelos e a força das pernas. Quem não sabe que o preço que pagamos pela vida é a morte? E quando, geralmente, vem a morte? Quando estamos em idade avançada, braços e olhos cansados. Não pensem que vim aqui falar de trevas, mas sim de luz: quando se come uma fruta não sobram os caroços que dão vida a uma nova árvore e a novos frutos? É assim que vejo a velhice, como uma fruta devorada, despida do que é efêmero, como a beleza externa, até a semente – a sabedoria, o bastão que passamos adiante para que os que nos sucedem não batam o nariz em alguma parede, andando cegos por aí.

Não pense em idosos como objetos obsoletos ou como pessoas sem função: conhecimento é fruto da experiência. E quando a vida espremer e sorver tudo que puder de alguma pessoa de idade que você conheça, chore sim, a perda; mas nunca o fim da vida, pois ela nunca acaba, apenas muda de forma.

Não se falou em outra coisa na TV: o Projeto Genoma terminou de mapear o DNA do homo sapiens. Concordo que seja um grande avanço, mas não seria também uma grande preocupação?

Ora, que o homem tenta brincar de Deus, todo mundo sabe já faz tempo. Ovelhas clonadas, ratos com orelhas nas costas, boatos sobre a carne do Mc Donald’s: escolha seu tópico e teremos horas e horas agradáveis de conversa sem medo de ficar sem assunto. Temos o conhecimento, mas é de nosso conhecimento que nunca aprendemos a usá-lo direito. Descobrimos a pólvora e criamos bombas e armas de fogo, descobrimos como voar e criamos uma maneira de ceifar vidas sem o combate corpo a corpo, descobrimos a energia nuclear e vaporizamos milhares de pessoas, descobrimos o DNA e inventamos doenças que matam em questão de horas. E agora, o que faremos? Será que vamos pesquisar a cura das doenças que nos prendem aos preservativos, aos leitos ou às urnas funerárias? Qual será o mal que criaremos desta vez? Será um vírus mortal que aniquila soldados em questão de segundos? Pode muito bem ser um exército de soldados perfeitos, sem moral ou compaixão, sem preocupação com família ou filhos, uma perfeita máquina de guerra. Isso poderia ser feito! Bastaria apenas uma célula, alguns bilhões investidos e um estoque inesgotável de falta de escrúpulos. Temos isso de sobra por aí, não?

Por que sempre nos ajoelhamos e damos oferendas à guerra? Por que não usar nosso conhecimento em prol da vida em vez de tentar aniquilá-la? É uma pena que aqueles que tudo controlam sentados no trono não enxerguem que sua sede de governar lhes fará reis de um reino deserto.