– A senhora se considera uma mulher feliz? – ele perguntou, enquanto folheava o bloco de notas, vasculhando os registros anteriores.
– Se eu fosse feliz não estaríamos conversando. Feliz é uma palavra muito ampla – ela respondeu, ajeitando-se no divã. O velho estofamento era mais incômodo que a pergunta.
– Então a senhora não se considera feliz? – ele perguntou enquanto ajeitava os óculos que teimavam em correr para a ponta de seu nariz.
– Eu me considero uma mulher satisfeita, essa é a palavra adequada – ela disse olhando para o teto. Pensou em perguntar onde ele havia comprado aquele lustre.
– Lembro-me que, naquela entrevista que deu para a TV uma ou duas semanas atrás, a senhora afirmou que era muito feliz – disse ele, conseguindo manter os óculos fixos no rosto. Detestava-os e não sabia por qual motivo não usava lentes de contato.
– Se o senhor acredita em tudo que se diz em entrevistas, também deve acreditar em tudo que os políticos dizem em seus comícios, doutor – ela disparou, virando-se e olhando para o terapeuta pela primeira vez desde que instalou-se no divã. Havia um sorriso debochado em seus lábios vermelhos. – Eu disse o que se espera que uma pessoa pública diga em uma entrevista. O populacho quer sonhar com a vida perfeita das celebridades vendida pela mídia, eles não se interessam em saber que tudo não passa de fumaça e espelhos.
– Então a senhora não se considera uma mulher comum? – indagou com olhos fixos no verde implacável dos olhos dela. Enxugou a testa, forçando-se a não descer a vista até o decote.
– Sou exatamente igual a qualquer outra mulher do planeta, doutor. Apenas tive mais oportunidades que a maioria delas – ela sentenciou e voltou seu olhar ao lustre, pensando que o escritório do apartamento de Ipanema ficaria perfeito com um lustre igual. – Por isso eu me considero uma mulher satisfeita: a minha vida é ótima, não tenho do que reclamar! Sou jovem, bonita, tenho posses e tenho influência.
– Influência? – perguntou enquanto rabiscava qualquer coisa no bloco de notas. Seus olhos estavam perdidos nos fartos seios dela, que se empinavam mais ainda a cada vez que ela se ajeitava no divã.
– Três meses atrás fui fotografada usando uma saia que foi desenhada por uma estilista amiga minha e poucos dias depois todas as vitrines do Sudeste tinham uma peça igual em exposição. Semana passada eu mudei o corte do cabelo e só no caminho da minha casa até aqui eu vi cinco mulheres com o mesmo penteado. Influência, doutor – ela disse, abrindo a bolsa e pegando um maço de cigarros.
– Carisma – ele retrucou, cruzando as pernas para esconder a excitação. – Peço que a senhora não fume durante a sessão.
– Seis e meia-dúzia – ela deu de ombros, retornando o maço de cigarros à bolsa. – Como eu dizia, vivo bem e não tenho do que me queixar. Agora, felicidade… felicidade é uma coisa que eu realmente não possuo. Não sou uma pessoa triste, mas não acordo sorrindo todas as manhãs apenas por começar um novo dia.
– A senhora se sente solitária? – ele arguiu, colocando as mãos no colo e fitando o lustre. Se não tirasse os olhos dela, a ereção não passaria.
– O senhor só pode estar brincando, doutor. Com a minha assessoria, agenda, fãs e paparazzi, eu só fico sozinha na hora de dormir. E se o senhor está se referindo à minha vida amorosa, a minha cama só fica vazia quando eu quero – ela disse, com um sorriso malicioso.
– E ainda assim a senhora sente que falta alguma coisa na sua vida. – ele pontuou, ajeitando-se na cadeira. A dor na virilha era quase tão forte quanto sua vontade de possuí-la no chão do consultório.
– Sim, falta. Falta alguma coisa que eu não faço ideia do que seja, mas que ainda assim me deixa muito angustiada. – ela suspirou, levando a mão à bolsa. Precisava de um cigarro.
– Infelizmente o tempo acabou, mas falaremos mais sobre a sua angústia na próxima sessão. Nos vemos na próxima semana? – ele perguntou, abrindo a porta do consultório e escondendo meio corpo da mesma, tentando desafivelar o cinto de uma forma que ela não percebesse.
– Com certeza, doutor. – ela sorriu, louca por um cigarro e por nunca mais se deitar naquele divã incômodo.

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