Pálido e franzino, Acácio era a personificação da invisibilidade social. Alunos e professores pareciam alheios à sua presença tanto em sala de aula como nos corredores do Educandário Santo Inácio de Antioquia. Durante o recreio, ficava sozinho em um canto vazio do pátio, com os ombros curvados e o rosto enfiado em um caderno, rabiscando seus desenhos longe do olhar das outras crianças que corriam e brincavam umas com as outras até o soar da sirene. Teria passado despercebido por todo ensino médio se, durante uma aula de História do Brasil, a professora não o tivesse posto diante da classe para responder uma arguição. Aquela foi a primeira vez que as outras crianças tomaram ciência de que entre eles havia aquela pálida e franzina figura que miava as respostas do questionário em um débil fio de voz.

– Fale para fora, menino! – disse a professora em tom firme, batendo com a mão na mesa.

As palavras morreram em sua garganta. As mãos suadas tentaram traduzir as palavras que a boca trêmula não pronunciava. Os olhos se fecharam quando o calor da urina desceu por suas pernas e empoçou no frio piso da sala de aula. E o riso dos outros alunos quase cobriu a voz da professora, berrando impropérios durante o soar da sirene do recreio. Mandado ao banheiro masculino, Acácio tentou, em vão, secar a calça mijada com as toalhas de papel, quando um golpe na nuca o fez se chocar contra a pia de granito e cair no chão. Sua visão começou a escurecer e ele não pode ver nem quem nem quantos chutavam sua cabeça e seu corpo. Assim como o sangue, um sorriso brotou de seus lábios inchados. Era, enfim, visível.

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