Eu lembro quando corria atrás de você só para puxar o seu cabelo, bagunçar o laçarote de fita ou simplesmente desmontar o penteado que sua mãe fazia com tanto afinco. Rasgava a sua camisa, sujava a calça de barro na aula de Educação Artística e riscava todo o seu braço com hidrocor.

Mais tarde, botava o pé na frente para você tropeçar, roubava o seu estojo e pendurava a mochila no ventilador. Bolava apelidos e alcunhas desagradáveis que faziam você corar de raiva e depois de vergonha. Falava palavrões cabeludos na sua frente e espalhava para todos que você era estranha demais. Alta demais, magra demais, não tinha peito nem bunda. E que usava sutiã à toa, uma vez que tinha duas bolinhas de tênis de mesa debaixo da blusa.

Mais tarde, implicava com seus dentes blindados, com a sua voz meio esganiçada e com a foto daquela banda de garotos cafonas, dançarinos, de gel no cabelo e sorrisos falsos. Tentava borrar o seu batom e fazia guerra de brilho com a maquiagem que você levava para a escola.

Mais tarde, até lhe tirei para dançar, mas foi jogo rápido. Perfume demais. Frescura demais também. Você não deixava eu chegar muito perto, não deixava minha mão boba descer um pouco mais do que a cintura.

Mais tarde eu até lhe convidei para sair. Você meio receosa, mas com um decote formidável. Cheirosa, bem arrumada e do alto de saltos que lhe colocavam à altura de uma mulher. O primeiro beijo foi antes do resultado do vestibular.

Mais tarde, eu e você na cama. E aí, então, percebi que realmente algo havia mudado. Agora era você quem pedia para que eu puxasse o seu cabelo. Você pedia para que eu rasgasse logo as suas roupas. Você pedia para que eu falasse palavrões. E ficava vermelha de luxúria. Era eu quem pedia que você comprasse sutiã, daqueles de renda, meio transparentes. Sutiã e calcinha. Eu que acabava borrado com o seu batom. Eu que ficava segurando duas bolas de boliche que mal cabiam nas minhas mãos. Você me colocava apelidos fofinhos demais, que também me envergonhavam quando ditos em público.

Voltamos ao princípio. Talvez para perceber que nunca é tarde demais.

*Título surrupiado da obra do escritor italiano Antonio Tabucchi, que em nada tem a ver com este mísero texto…

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