João tinha cinco anos e uma certeza: queria um dragão de Komodo. Cheio de sua obstinação infantil, partiu para empreitadas na tentativa de conseguir o jurássico bichano.

Sentou-se no colo de Papai Noel. Quando interrogado pelo bom velhinho, alegou ter sido um menino de boa índole, que comia verduras, respeitava pai e mãe e dormia antes das nove horas da noite. Assim sendo, sentia-se no direito de escolher um presente diferenciado. Não hesitou em dizer o que queria ganhar: um dragão de Komodo. Espalhou pela casa bilhetes adesivos, onde lia-se ‘não esqueça o meu dragão de Komodo’. Junto a sua meia, no pé da árvore, colocou também alimento para o futuro animal de estimação. Foi inútil, pois Papai Noel o presenteou com um videogame.

Mais tarde, no aniversário de oito anos, passados alguns natais e descoberta a farsa de Papai Noel, argüiu o pai sobre a possibilidade de ganhar um bicho. Cachorro, papagaio, gato, hamster chinês? Nada disso, queria um dragão de Komodo E estava disposto à malcriação para isso. O pai tentou argumentar.

Filho, dragões de Komodo vivem em uma ilha da Indonésia. É muito longe.

Não adiantou.

Filho, dragões de Komodo são muito grandes. Medem 3,5 metros e pesam 125 quilos.

Não adiantou.

Filho, dragões de Komodo se alimentam de animais de grande porte, incluindo seres humanos.

Não adiantou. João só entendeu que chorar não iria adiantar em nada por volta dos 12 anos. Foi quando começou a aprender a desenhar o lagartão. Decorava as bordas das folhas pautadas do caderno com pequenos dragões de Komodo, feitos de esferográfica azul, rastejando por entre pedras e matas fechadas, em ilhas paradisíacas de águas cristalinas. No intervalo das aulas, aproveitava para adornar o quadro negro com dragões de Komodo feitos de giz branco, que ganhavam vida em contraste com o verde.

Se aos quinze anos alguém perguntasse ‘João, se você pudesse ser um animal, qualquer um, qual seria?’, a resposta estava na ponta da língua: um dragão de Komodo. Por quê? Porque sim. Ah, mas ‘porque sim’ não é resposta! Mas ‘porque sim não é resposta’ também não é argumento. E assim, prosseguia querendo ser o antigo réptil.

Ao completar 18 anos, fez uma tatuagem enorme, que cobriu as suas costas. Era um dragão de Komodo se alimentando de um búfalo enorme. Fez promessa e vestibular. Passou para biologia e fez mestrado em répteis, com doutorado na vida reprodutiva do dragão de Komodo. Conseguiu emprego em uma renomada universidade européia e, ao completar o quadragésimo aniversário e a primeira dezena de milhar na conta bancária, bancou uma viagem com toda a família, que era constituída por mulher e dois filhos, batizados Karen, Kyan e Klaus, tudo com k de Komodo, para a Indonésia. Ia ficar frente à frente com um dragão de Komodo.

Assim o fez. Observado pelos olhos dos filhos e pelas lentes da câmera da esposa. Aproximou-se de um exemplar da espécie e tomou uma surra com sua comprida e robusta calda. Caiu no chão sem defesas e começou a ser devorado. A família entrou em estado de desespero. Enquanto era mastigado, já sob efeito das nocivas e letais bactérias que habitam a boca dos dragões de Komodo, disse em tom de voz delirante palavras para suavizar o momento.

Mulher, filhos, este é um momento sublime para o papai. Por favor, perdoem o dragão de Komodo. Não odeiem esta linda e maravilhosa criatura.

João foi sumindo, lentamente, dilacerado e triturado, por detrás das mandíbulas do animal ameaçado de extinção. Sua vida virou filme. Mais tarde, livro. Mais tarde ainda, prêmio de biologia.

O último dragão de Komodo do planeta morreu caçado, 50 anos depois.

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