E pensar que a noite nos deixou apenas aquele rastro vermelho do sinal fechado refletido no sereno das pedrinhas brilhantes do asfalto vazio. Com o peso da gravidade, vezes a massa das nossas deformidades e o grave incomum do ruído de um contrabaixo arranhado por fios de crina de cavalo branco.

Nós perdemos o juízo, a carteira de identidade, o preservativo lubrificado, a fala, o maço de cigarros amarrotados e a conta do pouco tempo que nos restava. Agora sou obrigado a ficar sentado no meio-fio ouvindo as sirenes das ambulâncias, arrebatadoras, que não precisam gritar alto para pedir passagem antes que seja tarde demais, uma vez que as ruas estão vazias. O que elas querem é chamar a atenção.

Pense, sua porca: antes de encher as veias com morfina você podia ter pensado melhor na sua família. Porque depois, quando estiver com os braços lânguidos e furados amarrados para trás, com a boca seca de lábios miúdos espumando e sendo carregada à força por dois moços fortes vestidos de branco, você vai implorar pela intervenção divina.

Você é a noite, Leila. Tudo o que a gente pode ver. Você é a possibilidade.

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