Há alguns anos atrás, não saberei precisar a data, uma pesquisa revelou que, na maioria das vezes, quem “vence” na vida não são aqueles “melhores alunos” da escola. Claro que os piores também não poderiam ir muito longe. Aqueles que realmente sobem e assumem cargos de chefia em empresas e ganham muito dinheiro são os que eram medianos nos estudos. Aqueles que, embora não fossem totalmente relapsos nos estudos, viviam bagunçando, eram queridos por todos e amigos de todos. Não se destacavam nas provas, não eram nerds, e viviam escorregando em algumas matérias, conseguindo escapar da reprovação por um triz.

Este resultado não me surpreendeu nem um pouco. Embora eu não saiba identificar muito bem o que é causa e o que é conseqüência, o fato é que o perfil daqueles que tiveram bom desempenho escolar na infância é de uma pessoa mais fechada. Salvo exceções, estes são os que despendiam maior tempo estudando e, ou agiam assim por serem mais fechados, tímidos, quietos, ou acabavam se tornando um pouco assim por agirem desta forma. Já aquele aluno mais falante, bagunceiro, o ´figura´ da turma… Este tem carisma, tem muitos amigos. Aprendeu talvez a coisa mais importante, que é lidar com as pessoas. Quase sempre é alguém com este perfil que tem espírito de liderança, e tem o respeito de todos.

Quem está no mercado de trabalho, já deve ter percebido que quem se dá melhor e tem as melhores oportunidades não são aqueles que sabem mais, que tem um conhecimento técnico mais elevado, que são mais competentes. Não importa o quanto você sabe, e o quanto você estudou. O que mais conta para uma promoção profissional é o nível de responsabilidade que a pessoa pode suportar, a liderança que esta pessoa exerce sobre as outras.

Não posso dizer que isto é errado. Talvez seja injusto. Talvez o salário ao menos devesse ser idêntico, para quem faz e para quem manda fazer.

PS: Este que vos escreve está entre os que sempre foram bons alunos e tem a convicção de que nunca vai estar num cargo top, pela absoluta falta de capacidade em comandar pessoas e ações. Minha esperança é vir a ser tão bom tecnicamente que, se é pra ser subordinado, que pelo menos seja de uma p… empresa que pague muito bem.

Saudades
de olhar meu rosto sem pêlos ou rugas
Saudades
de minhas mãos sem calos ou manchas
Saudades
Da falta de preocupação do começo em relação ao fim

Viver: é para isto que estamos aqui. Aprender, ensinar, rir, brincar e tudo mais que a vida possa nos oferecer. Mas quanto mais esprememos a vida, ávidos por todo seu sumo, a vida também nos espreme e nos sorve o viço da pele, a cor dos cabelos e a força das pernas. Quem não sabe que o preço que pagamos pela vida é a morte? E quando, geralmente, vem a morte? Quando estamos em idade avançada, braços e olhos cansados. Não pensem que vim aqui falar de trevas, mas sim de luz: quando se come uma fruta não sobram os caroços que dão vida a uma nova árvore e a novos frutos? É assim que vejo a velhice, como uma fruta devorada, despida do que é efêmero, como a beleza externa, até a semente – a sabedoria, o bastão que passamos adiante para que os que nos sucedem não batam o nariz em alguma parede, andando cegos por aí.

Não pense em idosos como objetos obsoletos ou como pessoas sem função: conhecimento é fruto da experiência. E quando a vida espremer e sorver tudo que puder de alguma pessoa de idade que você conheça, chore sim, a perda; mas nunca o fim da vida, pois ela nunca acaba, apenas muda de forma.

“Quando não se encontra alguém melhor ou igual, é melhor ser solitário. Não se pode conviver com os tolos”. ¹

Eis uma frase que me martela a cabeça.

Um dia, de repente, você olha para o lado… Vê que está cercado de tolices e futilidades. Pensa que seus principais conhecimentos, ainda que rasos, vieram da convivência com pessoas com sede cultural. Percebe que estando ao lado de alguém com ampla visão do mundo, você consegue compartilhar uma fração desta perspectiva.

Um passo a frente, sua visão se torna tão mais clara que chega a atrapalhar sua nova forma de ver a tudo. Sua sede cultural não cessa. Ao contrário, aumenta, e dá a sensação de que nunca se findará. Seus amigos de antes já não servem mais. São tolos. Mas logo os novos também não servirão. O mundo deles é vasto demais, além disso, você continua se embebendo em cultura e estudo, e isto o tornará mais e mais seletivo.

Depois de um tempo, sozinho, você já não dará tanta importância aos livros na estante. Terá passado por desastrosas experiências amorosas com parceiros ditos cults, mas que eram independentes, insensíveis, alternativos e liberais demais para um relacionamento com você. Talvez perceba que sua escolha deveria ter caminhado para o lado de quem tinha calor humano a te fornecer, a te fornicar.

Ou talvez não. Provável que tudo que digo seja baseado apenas em minhas frustrações pessoais com mulheres independentes demais, que se julgavam superiores no relacionamento. E possivelmente, é para me enganar, e me conformar. Aí outra frase martela a cabeça:

“… mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira .” ²

Mas, uma coisa aprendi. A não me julgar superior a ninguém. A não ver ninguém como um tolo, pois o tolo maior pode ser eu mesmo. E, de qualquer forma, tenho alguém única e exclusivamente para amar, e posso reservar os ¿papos-cabeça¿ para as horas apropriadas, e com as pessoas certas.

Sem neura irmãos!

:o)

“Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes” ³


¹ Buda
² Renato Russo
³ Paulo Freire

Não se falou em outra coisa na TV: o Projeto Genoma terminou de mapear o DNA do homo sapiens. Concordo que seja um grande avanço, mas não seria também uma grande preocupação?

Ora, que o homem tenta brincar de Deus, todo mundo sabe já faz tempo. Ovelhas clonadas, ratos com orelhas nas costas, boatos sobre a carne do Mc Donald’s: escolha seu tópico e teremos horas e horas agradáveis de conversa sem medo de ficar sem assunto. Temos o conhecimento, mas é de nosso conhecimento que nunca aprendemos a usá-lo direito. Descobrimos a pólvora e criamos bombas e armas de fogo, descobrimos como voar e criamos uma maneira de ceifar vidas sem o combate corpo a corpo, descobrimos a energia nuclear e vaporizamos milhares de pessoas, descobrimos o DNA e inventamos doenças que matam em questão de horas. E agora, o que faremos? Será que vamos pesquisar a cura das doenças que nos prendem aos preservativos, aos leitos ou às urnas funerárias? Qual será o mal que criaremos desta vez? Será um vírus mortal que aniquila soldados em questão de segundos? Pode muito bem ser um exército de soldados perfeitos, sem moral ou compaixão, sem preocupação com família ou filhos, uma perfeita máquina de guerra. Isso poderia ser feito! Bastaria apenas uma célula, alguns bilhões investidos e um estoque inesgotável de falta de escrúpulos. Temos isso de sobra por aí, não?

Por que sempre nos ajoelhamos e damos oferendas à guerra? Por que não usar nosso conhecimento em prol da vida em vez de tentar aniquilá-la? É uma pena que aqueles que tudo controlam sentados no trono não enxerguem que sua sede de governar lhes fará reis de um reino deserto.

Trevo de quatro folhas, pé de coelho, figa: todo mundo tem uma receitinha que aprendeu com a vovó ou com a vizinha para espantar a má sorte. Você pode não acreditar na má sorte, mas que ela existe, existe. Sabe quando você está doido para fumar e só tem um cigarro no maço? Sabe quando você está tirando o xampu e acaba a água? Isso é má sorte. Não confunda com azar, que é muito mais complicado: azar é descobrir que sua mulher está grávida, sendo você estéril e ela um travesti.

Como tive a má sorte de não ter inspiração para escrever um texto bonito e bem escrito para encher os olhos dos leitores do Mondo, resolvi contar uma história sobre a má sorte. Espero que vocês gostem.

Era um domingo bonito, sol forte, mar de almirante, um daqueles dias que dá vontade de abrir a janela e tirar uma fotografia de qualquer coisa, pois tudo é belo sob o firmamento. E mais do que isso: era a final do campeonato Estadual e Zé Alberto estava empolgadíssimo. Abriu o armário e tirou de lá um embrulho, sentou-se na cama e começou a desfazer o embrulho, com muito cuidado para não rasgar o papel de presente. Embrulho desfeito, puxou com cuidado uma camisa, desfazendo a dobra frente ao seu rosto risonho: a camisa 10 do Flamengo. Cheirou-a como cheirou o cangote de sua esposa na lua de mel e beijou-a como beijou seu primeiro filho, após o parto. Então a apertou contra o peito e sorriu, olhando para a parede e sorrindo para o pôster do Zico, seu maior herói, o maior herói do seu clube. Com delicadeza, esticou-a na cama e foi tomar banho. Para Zé Alberto, vestir a camisa do Flamengo não era como vestir uma roupa qualquer: era como vestir um terno de missa, uma veste sagrada que não podia ser maculada pelo suor do trabalho diário! Para vestir a camisa do Flamengo – ainda mais a camisa 10, a camisa do Zico – era preciso estar puro, imaculado, banhado e cheiroso. E assim o fez: tomou banho, fez a barba, lavou os cabelos, cortou as unhas, tomou banho de perfume e vestiu sua camisa. Ah, como era bom sentir aquele tecido fino deslizando, envolvendo…

– Zé Alberto!!! Seu primo está lhe esperando para ir ao Maracanã. Vista-se rápido que eu estou saindo com as crianças para a casa da minha mãe e o Moura está sozinho na sala. Beijos!

Zé Alberto pegou o rádio de pilha e, junto com o primo Moura, entrou em seu carro e colocou a bandeira para fora da janela. O vento batia em seu rosto e tudo era lindo, tudo era belo, tudo era rubro-negro. Estacionou o carro e foi andando em direção à entrada do Maracanã: seu coração batia no ritmo acelerado da marcação dos surdos da torcida e, mesmo sem perceber, cantava músicas de torcida e o hino de seu time. A roleta se aproximava, Zé Alberto pegou sua carteira, abriu-a e… vazia. Onde estavam os ingressos? Pânico, medo, horror! Em plena final do Estadual, Maracanã lotado e Zé Alberto havia esquecido os ingressos em casa.

– Eu vou pegar o carro – disse ele, coração acelerado.
– Espera, Zé! Se você pegar o carro não vai encontrar lugar para estacionar – disse Moura.
– E como é que eu faço então, Moura? Diz para mim o que eu tenho que fazer! – desesperou-se Zé Alberto.
– Corre ali, primo! Pega um táxi que eu te espero aqui! – disse o primo Moura, apontando para um táxi vazio, estacionado.

E lá foi Zé Alberto. Sentindo o desespero do coitado, o taxista concordou em fazer a corrida com o pé na tábua, mas cobrou-lhe R$ 50,00 por alguma multa que pudesse tomar pelo meio do caminho. E lá foram eles, correndo como o vento pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ao descer do táxi, Zé Alberto abriu pulou o portão e correu em direção à porta da sala, que insistia em não abrir. Procurou a chave em seu bolso e não a encontrou: havia deixado a chave no porta-luvas do carro. Zé Alberto olhou o relógio: o juiz já havia dado início à partida e já se passavam 20 minutos de jogo. Forçou a porta, mas a maldita resistiu a todas as suas investidas e sua esposa não podia dar-lhe passagem, já que estava na casa da mãe. Olhou para o alto e viu que a janela do quarto de seu filho mais velho estava aberta. Então subiu no muro e foi se esgueirando até a janela e conseguiu, com muito custo, entrar em casa. Desceu as escadas feito uma flecha e apanhou os ingressos. Foi até a porta e… trancada. Teve que subir as escadas, pular a janela e se esgueirar pelo muro. Quando desceu e já estava com a mão na maçaneta do táxi, algo lhe puxou pelo pescoço.

Teje preso, meliante. Pensa que não o vi saindo pela janela, seu gatuno? – disse o policial, já enquadrando Zé Alberto.

E foi um Deus nos acuda: Zé Alberto chorava dali, PM se aborrecia daqui, Zé Alberto pedia socorro de lá, o PM mandava ele ficar quieto de cá. Foi aí que apareceu uma vizinha e disse que Zé Alberto era morador da casa e que não era ladrão. O PM aliviou, avisando que estaria de olho nele e que um passo fora da linha ia ser a conta. Zé Alberto agradeceu, entrando no táxi e saindo no maior desespero: Faltavam 30 minutos para o fim da partida.

Chegando ao Maracanã, ele deu de cara com Moura, que disse que o jogo estava empatado em 2 x 2, placar que daria o título ao Flamengo. Passaram pelas roletas e foram em direção à arquibancada, que era só festa: faltava cinco minutos para o fim do jogo! Faltava três minutos, faltava dois minutos, 1 minuto.

– Não deixa o Aílton cruzar!!! – gritou Zé Alberto.

O placar marcava 3 x 2 para o Fluminense. O juiz apitou e o som do apito ecoou na cabeça de Zé Alberto desde a saída do Maracanã até o portão de sua casa, trajeto que ele fez sem dar um pio. Ao saltar do carro, seu primo abraçou-o e disse:

– Fique assim não, primo. Sempre tem o ano que vem – disse Moura, sorrindo.
– O ano que vem? Tem o ano que vem? – disse Zé Alberto – Eu vou te mostrar o ano que vem! – e disse isso pegando um porrete que jazia no chão e avançando para cima de seu primo.

No exato momento que Zé Alberto ia desferir a porretada certeira na cabeça de seu primo, sentiu algo lhe agarrar pelo pescoço.

– Não falei que eu estava de olho em você, meliante? – disse o PM, gargalhando de forma sinistra.

Algumas pessoas me perguntaram do que se trata este blog. Minha resposta é simples: o Mondo, assim como o Mundo, é redondo e cinza! Esta expressão, o mundo é cinza, é o princípio da lógica difusa, ou Lógica Fuzzy.

Explico: para muitos casos, a lógica exata nos permite resolver todos os problemas. Assim, dois mais dois são quatro e isto é totalmente verdadeiro. A chamada verdade absoluta, no entanto, quase sempre é um piso falso. Definir as coisas como preto ou branco, sim ou não, um ou zero, é limitar demasiadamente a gama de possibilidades a que estamos expostos. Você poderia me dizer, por exemplo, quando alguém deixa de ser magro e passa a ser gordo? E o copo, está meio cheio ou meio vazio?!

O conceito de difusão é o que nos permite definir algo como verdadeiro até certo ponto. E nada é definitivo.

Vamos extrapolar um pouco a idéia de decisão fuzzy e pensarmos no conceito de boa música. O que é uma boa música? E quando ela deixa de ser boa? E pra quem ela é boa ou ruim? Definitivamente, as verdades absolutas são um erro. Um grande erro.

E por que o Mondo é, além de Redondo, cinza? Qual a relação entre a lógica fuzzy e este blog comunitário repleto de pessoas que se diferem tanto na maneira de pensar quanto na maneira de se expressar? A resposta é direta… Não tem como definir a cara e a temática deste blog com rótulos, dizendo “este blog é isto” ou “este blog é aquilo”. Ele é preto às vezes, e outras vezes branco. Mas na maior parte do tempo, ele é cinza.

Hmm… Talvez a comparação tenha sido tola, ou talvez eu não tenha sido claro. Digamos que foi válida até certo ponto, e clara até certo ponto, mesmo que este ponto seja bem raso à escala. :o)