Na madrugada
Quando cessam-se os passos
E o rugir dos motores

Quando cerram-se os olhos
E as línguas cansadas,
No repousar dos televisores
E dos velhos discos de vinil

Ao calar de todo som
E no morrer de toda luz,
O silêncio revela sua verdadeira voz.

É puro e escuro

É claro e raro

É singelo e belo

É casto e vasto

É viril e gentil

É vital e carnal

É pleno e sereno

É quente e latente

É chão e paixão

É perto o incerto

É nobre certeza

É certa nobreza

É giz aprendiz

É mudo desnudo

É sério mistério

É fado adorado

É fato recato

É festa modesta

É foz atroz

É peito

É leito

É trilho

É brilho

É moderno

É eterno

É esmero

É sincero

É meu

É seu

É nosso

O galo ainda não cantou
E Antônio já está acordado
Sorve rapidamente o café que sua mulher passou
E se prepara para enfrentar o roçado
Entra no mesmo caminhão todos dias
Espremido com os companheiros de profissão
Todos os passageiros são bóias-frias
Prontos para mais um dia de cão
Antônio sonha em comprar, algum dia,
Uma casa para ele e sua esposa irem morar
Mas com o salário ínfimo de bóia-fria
Ele mesmo sabe que seu sonho não vai se realizar
O caminhão pára e todos descem calados
Antônio pega sua foice e seu facão
Como todos fizeram nos dias passados
E como provavelmente, no futuro, farão
Antônio ganha a vida cortando cana
É a única coisa que ele sabe fazer:
Trabalhar feito um escravo todos os dias da semana
Para, no final do mês, uma mixaria receber
O sol arde forte sobre sua cabeça
Mas ele ainda cisma em continuar
Afinal, o facão não permite que ele esqueça
Que ele tem cinco bocas para alimentar
E que não pode amolecer
Antônio sabe que tem uma família para sustentar
E que mesmo que ele venha a adoecer
Ele tem a obrigação de trabalhar
Pragueja por não ter tido estudo
Pois se tivesse, talvez se tornasse um doutor
Assim, à sua família ele poderia dar tudo
Sem ter que contar com a ajuda do Senhor
Para quem Antônio toda noite ora
Pedindo para que sua condição melhore
Mas, sempre um filho seu, de fome, chora
E faz com que Antônio implore
Para que o sofrimento acabe
Mas parece que Deus nunca escuta
E no fundo, Antônio sabe
Que nunca vai poder largar a labuta
Ele sonha em melhorar, algum dia
Mas sabe que isso nunca vai acontecer
Antônio nasceu bóia-fria
E bóia-fria ele vai morrer.

La Tequila

No bebas la tequila
beba mi vino santo
Sí, todo amor es santo

No bebas la tequila
beba mi sangre caliente
y deja tu porción conmigo

No bebas la tequila
te entorpezcas con mi sangre
me embriagues con tu veneno

No bebas la tequila
beba más de mí

Saudade é faca cega rasgando o coração
Mas também é bálsamo que cura ferida
Saudade é vento que enche vela de embarcação
E também é beco sem saída

Saudade às vezes é motivo de morte
Mas, às vezes, é razão de vida
Saudade é a brisa suave que sopra do norte
É trago forte de cachaça curtida

Saudade é o caminho que corre ligeiro
Ou a estrada comprida que leva ao nada
Saudade é olhar o relógio, fitar o ponteiro
Prostrar-se em frente à porta fechada

Saudade é canção que agrada ao ouvido
Saudade é cartilha a ser estudada
Saudade é meio suspiro e gemido
Saudade é o primeiro passo de uma caminhada.

“E de tanto calar, eu me solto
arrebento o peito e grito.
esperneio. não sei calar.

E de tanto doer eu sangro
e do meu sangue vermelho ácido
plaquetas de amor

E de tanto morrer é que eu vôo
me faço viagem dos continentes
sou rio
margem
miragem
sou ventre

E de tanto querer eu não tenho
Não venço
Não morro
Só espio
candidamente a cinza
e entorpecida tarde que
c
a
i

Amanheço gélida
Fria descompassada
E o lençol esquenta
o que nada mais esquenta
ocupa o vazio
do que não preenche

De tanto
ser
o que eu nunca
fui”

Histórias
O que resta das glórias
Acalantos
Os prantos que derramei

Histórias
Minhas memórias
Encantos
Tantos que nem sei

Histórias
Os párias
E suas visões ilusórias

As árias
Onde cantei minhas memórias
Ilusões etárias.