Se fosse apenas pela poesia
Penso que o silêncio se calaria
Para admirar o infinito
E a saudade na qual habito

Eu, que persigo tanto o momento
Sento
E já nao sei se agüento
Porque no final o tempo sempre ganha
E em meu corpo a vontade ainda é tamanha

Eu me projeto no universo
Como moléculas de suor
Para escrever em pobres versos
O que gira ao meu redor

Se prolongo o pensamento
A caneta solta centelhas
Escreve com tinta vermelha:
“Pode mandar que eu agüento”

O pau de duas cabeças voltou a ser o principal assunto nos jornais. Uma jovem professora de vinte e três anos foi atacada pelo falo misterioso. Ela concordou em ceder um depoimento, respeitando o pedido pelo anonimato quanto ao seu verdadeiro nome. Confira este relato emocionante, na íntegra.

Eram onze horas da noite. Eu estava acabando de corrigir umas provas ainda na sala de aula e resolvi levar trabalho para casa, justamente porque sabia do pau de duas cabeças e não queria dar bobeira. Eu sou moça recatada, religiosa, cumpridora dos meus deveres, trabalhadora. Eu arrumei as carteiras, apaguei a luz e tranquei a sala. Ainda dei tchau para o zelador e saí. Quando eu dobrei a esquina, mais ou menos uns duzentos metros da escola, eu tive a sensação de que alguém estava me seguindo. Como a iluminação pública aqui é muito ruim, eu olhava para trás e não via nada, só breu. O problema é que eu ia passar ainda pelo muro do cemitério, que me dá muito medo. Eu tenho medo de fantasma. Mais medo de gente viva do que de assombração, é verdade. Mas também tenho medo de fantasma, da mulher de branco, da loira do banheiro, do velho do saco, da kombi que pega criança, do jason, da gangue que tira os seus rins e te deixa numa banheira cheia de gelo. Enfim, viver é perigoso. Como disse uma vez o João Kléber: para morrer, basta estar vivo. Eu não via nada, mas ouvia direitinho, eu tenho ouvido bom. Ouvia tipo um gemido, era estranho. Até porque não ouvia passos. Eram só os gemidos mesmo. Não deu outra: quando eu passei pelo muro do cemitério, senti uma fungada no cangote! Saí correndo sem olhar para trás e, não sei por quê, entrei no cemitério. Quando eu vi, já estava lá perdida no meio daqueles túmulos todos, completamente perdida. Tinha até névoa pairando sobre o chão. Coisa de novela. E o pior é que o gemido continuava atrás de mim. Acabei indo parar em um mausoléu, todo de chumbo, sinistro demais. A portinhola estava aberta, e lá dentro, ainda bem, as câmaras mortuárias estavam concretadas. Mas tinha muita barata e um cheiro de mofo terrível. Por uns instantes, o gemido parou. Ainda fiquei ali encolhida uma hora inteira com medo de sair no escuro. O problema é que só ia amanhecer em quatro horas. Resolvi correr. Eu corria bem quando era adolescente. Era da equipe de corrida do colégio. Ganhei até uma medalha de bronze. Então, abri a porta do mausoléu e saí correndo. De repente, lá estava o gemido e a fungada no cangote atrás de mim. Acelerei o passo e acabei tropeçando, caindo de bruços no chão. E foi assim mesmo que fiquei. Eu me lembro direitinho de como fui atacada. Eu não conseguia levantar porque havia um peso enorme nas minhas costas. Estava de saia e senti que ela era levantada. Foi então que percebi duas pontas grossas subindo as minhas pernas, uma de cada lado. Elas foram entrando pela calcinha e, sem arriá-la, se instalaram lá dentro. Ficaram roçando minha bunda um bom tempo, tipo assim, fazendo as preliminares. Eu desesperada, me arrepiando toda, imagina, logo eu, moça recatada de família, ia ser devorada pelo pau de duas cabeças? Só podia ser um pau de duas cabeças, porque dali em diante, foi dupla penetração. Era um vai e vem danado, quer dizer, um vão e vêm, uma coisa louca, na vagina, no ânus, em todos os meus buracos, uma cabeça em cada buraco, as duas no mesmo, revezamento, um verdadeiro trabalho em equipe. Eu tentava gritar por socorro, mas não conseguia. Gritava era de tesão. E ficava preocupada. Eu tentava parar de gritar de tesão, mas não conseguia. Logo eu, moça de família, gritando coisas horríveis como “põe tudo lá dentro, anda, depressa, porra!”, “não pára, que eu vou gozar” e “tá vindo de novo, ai meu deus, de novo”. Tive orgasmos múltiplos, fiquei toda lambuzada e assim foi até as cinco e meia da manhã, quando o sol nasceu. Eu acordei com um funcionário do cemitério me cutucando com uma vassoura. Paguei mico: fui logo agarrando o cabo da vassoura, bêbada de sono e êxtase, e pedindo mais… O moço não entendeu nada… ai que horror, logo eu, moça recatada de família. Tipo assim, eu estou triste, sabe? Não queria que fosse assim. Agora ficou com essa lembrança aqui, dessa noite no cemitério. Tenho muito medo de passar por lá de novo, não saio mais sozinha e muito menos à noite. Porém, ainda me arrepio quando me lembro do pau de duas cabeças. Nossa, quanto vigor! Eu estou sendo acompanhada por um psicólogo. Gatinho, ele. O pau dele nem tem duas cabeças. Como eu sei? Ah, bom… é… ele me disse. Foi. Ele me contou um dia que gostaria de estudar Eros x psique com ênfase no pau de duas cabeças. Algo assim. É só isso. Ah, gostei da entrevista. Tava nervosa, mas você me deixou à vontade. Você é tão jeitoso, agradável. Então, quer meu telefone, de repente para fazer mais perguntas? Sei lá, a gente podia conversar mais… O que você acha?

Três palavras triviais, a santíssima trindade, os três porquinhos, os três patetas, três pratos de trigo para três tigres tristes, tríade, triângulo, trimestre, tri legal.

Três marias, tricampeonato, trinca, três mosqueteiros, três amigos, três rios rj, três corações mg, três horas, trigêmeos, faixa três, trivela, trio los angeles, diga trinta e três.

Três pontos, múltiplos de três, tripé, trevo, trem fantasma, não, é três, não é trem, três oitão, três de paus, triciclo, três parágrafos, três linhas, três palavras cruciais.

Na minha graduação, havia uma certa rivalidade, dentro da turma, entre o grupinho dos nerds e o dos não-nerds. Mas quando entrava a galera dos outros anos, éramos todos uma turma só, a Info 02. E quando acirrava a rivalidade com o pessoal da computação, não havia separação de turmas. Eram todos a Informática. Se aparecia a turma da engenharia, bom, aí computação e informática eram uma coisa só. Agora, nas festas interuniversitárias, não importava que turma, área ou unidade, e sim que éramos USP, e os demais meros alunos de uma escolinha de beira de estrada, sustentada pelo governo federal (vulgo UFSCar).

Do mesmo modo, sou Corinthians, e contra qualquer outro time, só me vale a nação corintiana. Exceto em época de Copa do Mundo. Ah! Sim, a Copa. Agora somos todos uma torcida só, inflamados em verde-amarelo (com algumas exceções), torcendo pelo Brasil.

Será que precisaremos de uma guerra inter-galática pra que toda essa droga de mundo se una e as pessoas se reconheçam como iguais? Se for, que venham os ETs!

Ela repetia que as borboletas eram mais leves do que o ar. Perdia o equilíbrio, procurava apoio, pendia a cabeça para baixo e repetia que as borboletas eram mais leves do que o ar.

Já estava descalça, a maquiagem borrada pelo pranto, os sapatos em uma das mãos. Já havia chamado um taxi e jurado amor a um ex-namorado. Sem pausa para respirar ela repetia que as borboletas eram mais leves do que o ar.

Vomitou pelo menos seis vezes mais do que havia bebido. Arranhou a garganta, tossiu, cerrou os punhos e gritou palavrões. A boca ficava entreaberta e ela repetia que as borboletas eram mais leves do que o ar.

Antes de ser conduzida para casa, já desgrenhada e deformada pela angústia juvenil, cravou as unhas pintadas de vermelho nos braços de alguns conhecidos, agredecendo ao cuidado e repetindo que as borboletas eram mais leves do que o ar.

Ao se virar, deixou o dorso nú por entre as linhas paralelas do decote. Lá estavam as borboletas feitas de tinta. Milhares delas. Cada uma mais leve do que o ar.

I’ve been working all day
I’ve been thinking a lot

And I’ve been working like a dog

Braços na máquina operando a situação
Crescimento da produção
E o lucro é do patrão
Semana é do patrão
Ganância é do patrão
E o lucro é do patrão

Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade

Ah não seria mal
Ó meu Deus
Se eu fosse é errado eu sei
Sustentado pelo mundo
A Etiópia é assim
Subaquistão é assim

E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descançar
E voltar prá casa pros teus braços

When I’m home ev’rything seems to be right
When I’m home feeling you holding me tight, tight, yeh

Legenda/Créditos:

Legião Urbana – Mariane e Música de Trabalho
The Beatles – A Hard Day’s Night
Pato Fú – Vida de Operário e Spoc