As formigas trabalham. Sem parar. Faça sol, ou faça chuva. Suas minúsculas perninhas pisam o chão, as paredes, troncos acima, galhos abaixo. Espalham feromônio pelo lastro de brisa, diurna e noturna.

As formigas trabalham durante o verão, enquanto as cigarras cantam, dançam, interpretam. Todo esforço em prol da extensa comunidade. As cigarras, desengonçadas, são como mendigos bêbados e cambaleantes atrás do último trago, evitando o porre. As formigas são peças de uma engrenagem maior, carregando o peso do mundo em suas costas. Você já parou para notar como elas são rapidinhas? As formigas trabalham para a rainha.

E você, criança, aprenda que o trabalho enobrece o homem (e a mulher), dignifica, constrói, fortifica (formiga tem gênero?). Trabalhe para o rei, ou para a rainha, ou para quem tem o rei na barriga. Carregue o peso do mundo nas suas costas.

E cuspa em uma cigarra quando o inverno chegar.

Era apenas o cursor, mas sua sensação era de suas próprias mãos correndo aquela pele delicada. Dedilhou, com o mouse, infelizmente, cada centímetro do colo da mulher. E que mulher! Ele gostava de dizer que seu trabalho era simplesmente tornar a foto o retrato mais fiel possível dela, pois nela não havia defeitos. Tudo era belo. Tudo era perfeito. Tudo parecia estar no seu devido lugar.

Obcecou sua idéia em furtivos pensamentos obscenos. Embora se sentisse abençoado pelo grato trabalho a fazer, sentia necessidade de mais. Queria tocá-la, mais que retocá-la. Queria poder despi-la com o tatear do carimbo, ou, de preferência, com suas próprias mãos. Queria fazer sentir o que sentia em si.

Tirou tudo que não interessava. Contornou-a sem pressa. Com um simples clique, tudo o que não era ela sumia. Ficava só o que havia de mais belo, de mais forte. Ficava só ela, na imagem e em seus pensamentos. Ficava só, ele, a pensar na utopia. Ficava… E só ele sabe como.

Ela chega devagar, ocupando um canto da sala
Depois sentindo-se a vontade abre logo as malas
Procura pelos cabides vazios e pendura longos casacos
Calcas jeans, blusas vermelhas, meias tres-quartos
O seu cheiro ja esta em todas as minhas gavetas
Minhas gravatas, minhas jaquetas

Pouco tempo depois, nao forra mais a cama
Sua voz ja nao diz que me ama
E me sufoca no escuro
Entre lagrimas e solucos
E eu a peco que va embora
Que va doer la fora

Me deixe ser sozinho
Que vou tentar seguir meu caminho
Porque minha maior vontade
E que voce abandone, saudade
Que pare seus sussurros frios
E deixe meus cabides vazios

“Parece-me que você andou perdendo o sono” – disse-me um estranho em um trem.

Eu o fitei com meus olhos cansados e gelados e respondi:

“Eu tive aqueles sonhos novamente. Em um deles, havia uma garota que eu amava, e nós dançávamos até perder o fôlego. No outro, eles me trancavam em uma cela e tentavam me convencer de sua morte. Eu sou apenas um pobre jovem, novo no amor e me lembrando de quando a conheci. Porém, estou envelhecendo de cansaço nesta cela. Não preguei o olho durante a noite, e o sono já se dissipou para bem longe.”

***

“Veja só, minha garota se foi para bem longe e eu ainda me afogo no meu próprio pranto. Como uma estrela de cinema despenteada, em um bar incendiado, conversando com o seu drink. Ela me prometeu o mundo e mais. Como pode fazer isso comigo? Agora minha cabeça tropeça. Pelo menos meus olhos conseguem enxergar. Todas estas estrelas no céu são para mim”

***

Assim que a fumaça negra ganha o contorno do horizonte, o apito soa, e Tinseltown dança por detrás dos raios do sol. Eu me deito, sereno, em minha cama junto ao gatilho da minha arma. E que nenhuma bondosa mulher apareça novamente, dançando e encantando os meus sonhos. Com punhos firmes, não terei dúvida: aproveitarei cada grito.

Texto livremente inspirado, interpretado e traduzido da música ‘Last train to Satansville’, da banda inglesa Swervedriver.

Desde a primeira vez que me vi assim
Tão distante da realidade e da normalidade
Desde que me tornei o que sou, maldita
Desde que me vejo assim
Não tenho tido tempo pra fazer o que você faz
Não tenho tido tempo pra pensar no que lhe dizer
Pra que você procure me entender
Porque não é isso que eu espero de você
Eu espero que você desapareça da minha frente
E me deixe viver minha vida em paz!

Catei um punhado de flores campestres e amarrei-as com um barbante. Chorei um pouco e deixei as lágrimas hidratarem as pequenas pétalas. Elas escorregaram pelo caule e umedeceram também o barbante.

Caminhei apressado, de certa forma ansioso, para chegar logo. Suei um pouco por causa do colarinho apertado no pescoço. Chorei mais um pouco e deixei as lágrimas percorrem o rosto, o queixo, até chegarem ao tórax.

Chegando à portaria do prédio, toquei o botão do porteiro eletrônico. Não obtive resposta. Tentei forçar entrada pela grade e acabei sujando a mão esquerda com uma espécie de graxa. Chorei novamente um punhado, que se alastrou rapidamente pelas linhas do pensamento, da vida e do amor.

Julguei mais adequado tocar novamente o porteiro eletrônico.

Obtive resposta após meia hora ininterrupta de tentativas escandalosas. Ela disse que as flores não a comoviam mais. Eu perguntei sobre as lágrimas.

“Lágrimas lhe comovem? Eu tenho muitas. Posso lhe transbordar com elas.”

Depois deste dia, o porteiro eletrônico permaneceu mudo. Para sempre.

As piores discussões são aquelas em que não temos razão. E foi numa dessas que me meti nessa noite.

Confesso que eu já estava um pouco nervoso, mas aquilo me irritou profundamente. Foi muito desaforo! Me chamar de gordo assim, na minha cara!? Que atrevimento!

O desentendimento começou ao cair da tarde, início da noite, e desenrolou-se por longos 10 minutos. Tentei argumentar algo. Disse, por exemplo, que a culpa era do que havia entre nós.. mas não teve jeito. Sem razão, tive que me render e admitir minha culpa… a contra-gosto, claro.

Ah! Mas claro que ainda posso xingar, e muito!

Maldito Espelho!