Fiquei surpreendido com alguns fatos decorridos da vitória de Dilma Rousseff. Havia uma crença real de alguns setores da sociedade paulista que acreditavam de forma veemente na vitória do candidato tucano.

Nada poderia ser mais surreal. Houve apenas uma única pesquisa que indicou a possibilidade de José Serra alcançar Dilma no pleito; mesmo assim, foi antes do início da campanha de segundo turno, desastrosa para Serra.

Dilma foi um pouco inferior a Serra nos debates, mas por não ter ainda o traquejo político, o timing de respostas cronometradas, simples e diretas. Isso facilitou para o tucano, que é calejado nesse esporte de debates, mas é tão verborrágico quanto Dilma. Mas seu timing e considerações finais eram melhores.

Porém o debate não possui mais o mesmo peso que teve outrora. A campanha eleitoral já havia consolidado algo de forma intensa na mente de boa parte do eleitorado que dificilmente o debate decidiria em favor de Serra; Dilma se tornou a extensão de Lula.

Não que ela realmente seja. Dilma não possui o carisma do presidente operário, não possui o poder que Lula tem sobre o PT, tampouco possui seu traquejo político. Dilma possui sua maior qualidade no modo operacional. Ela executa funções de modo excepcional.

Tanto que a função de politicagem da Casa Civil não foi exercida por ela, em fato. Dilma atuou mais próxima do poder de execução, integração e coordenação de ministérios. Também possuiu um papel fundamental em aproximar o governo federal de prefeitos da base aliada, o que de certa forma facilitou a aliança de partidos menores ao entorno de seu nome e gerou o racha do PMDB, por questão de desfavorecimento de prefeituras  administrada pelo partido da região Sul e no Estado de São Paulo.

A gestão Dilma será a mais interessante, do ponto de vista partidário, que as de Lula e FHC. Nela, o PT realmente exercerá um poder de gestão mais forte. Lula ocupou um espaço muito grande no poder. Ele podou e muito o PT. Podou ainda mais quando seus partidários encabeçaram escândalos. E a gestão FHC era centrada em uma elite cultural USPiana que traiu as próprias aspirações ideológicas que rodeiam seu nome.

Dilma não é Lula, por isso precisa de uma base de sustentação muito maior. Os cabeças do PT terão poder de ação superior ao que tiveram nos últimos anos e isso assusta a algumas pessoas. Pessoalmente, eu fico curioso. Creio que é neste momento que iremos descobrir o que é o PT sem a figura de Lula, qual é seu real posicionamento, qual sua ideologia, como o PT realmente pensa a democracia.

No final, Dilma não ganhou apenas porque Lula a lançou, apoiou e batalhou por sua campanha. Dilma não ganhou apenas por ter tido uma campanha de excelente nível técnico. Não convém discutir se era melhor ou pior candidata. Mas é fundamental entender que ninguém se mostrou como real alternativa a gestão atual.

Marina era uma terceira vertente que saiu do PT, era um rosto pintado de verde, mas erguido no vermelho. Serra nada mais é que o continuísmo do que já temos. Porém, Serra e o PSDB se esqueceram que o povo viu que Lula e o PT seguiram o crescente do país, mas de forma mais intensa, de forma mais visível para o povo. PT não ganha por causa do bolsa-família. O PT ganha porque a lembrança que o povo tem anterior a do benefício é turva.

O povo não enxerga o crescimento do país como um processo que nasce na gestão Itamar Franco. O povo vê algo quando sua vida está melhor de forma prática. Tudo que veio antes, é denotado como sofrimento. E a linguagem do PT explora isso de forma eficiente.

PSDB não sabe se assumir como forma deste processo. Fala no economês, fala que o PT unificou benefícios. O PT, mostra a expansão do benefício, mostra o crescimento do nordeste e norte. Regiões que hoje decidem eleições.

O problema se encontra aqui. O PSDB não entende que o povo optou pelo PT não porque ele seja tão diferente. Mas porque ambos se propõem a fazer a mesma coisa. O povo não vê tanta diferença entre os políticos. Para ele, tirando o Lula, é tudo a mesma corja. Mas o povo sente, pelas suas memórias, pelos seus sentimentos e por aquilo que foi ressaltado pelo discurso pela campanha que o PT fez melhor a mesma coisa que o PSDB se compromete a fazer.

Ai, então, ficou fácil, ficou simples. Vai ter escândalo? Com azul ou vermelho tem. A vida vai continuar difícil? Fosse Serra ou fosse Dilma, iria. Ficou fácil quando o candidato de azul é o mesmo com as mesmas falas desde 2002. Foi só votar igual.

Já estava óbvio. Só Serra e seu marketeiro não quiseram ver.

 

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