Há cerca de catorze anos eu conheci a minha estrela. Ela usava vestidos infantis, de manga fofa e cintura franzida, sapatinhos brancos envernizados. Pele morena e cabelos longos. E ainda tinha dentes de leite. Tínhamos as mesmas amizades, freqüentávamos os mesmos “clubinhos”. Éramos vizinhas de bairro.

Por algum tempo eu convivi com a minha estrela. E então, por força das circunstâncias, ela sumiu. Ou eu sumi. Não sei.

Anos se passaram e – vejam só! – encontro, na mesma classe de sétima série, um brilho incomum, um brilho que lembrou o de minha estrela há tempos perdida. Ainda tímida. Mesmos olhos grandes e cabelos longos. Porém os dentes não eram mais de leite. Era a minha estrela!

Estava mais alta. O corpo havia ganhado suas formas femininas. Era agora uma moça. Uma moça que prendia a atenção dos garotos com o belo sorriso e as coxas morenas com parte à mostra na saia de pregas do uniforme.

Somente um ano depois é que minha estrela e eu nos tornamos mais próximas, e pude conhecer, pouco a pouco, tamanho esplendor. E, pouco a pouco, ainda conheço. A cada dia a minha estrela mais me surpreende, mais me encanta.

A minha estrela, que se fez ombros pra eu chorar.
Que se fez braços pra me abrigar.
Que se fez sorrisos pra me esperar.
Que se fez sonhos pra eu acreditar.

A minha estrela, que sempre soube quando ouvir e quando falar.
E quando calar.

A minha estrela, que coloriu os dias e iluminou as noites.

Hoje a minha estrela já tem mais de vinte anos, e seu brilho se expande em crescente exponencial. Passou como uma estrela cadente na minha infância e se tornou um sol na minha vida.

E eu amo a minha estrela.
A minha estrela.
À minha estrela.