Não acreditem em tudo o que lhes dizem os livros; o caminho que descrevo agora não é um ciclo.

Sinto meu coração partido.
Partido em três pedaços grandes e bem definidos: o átrio direito, o ventrículo direito e todo o lado esquerdo.O átrio direito recebe o que há de pior em mim, até porque não saberia lidar com o que há de melhor. Recebe meu sangue pobre, meu amor pobre. Sem oxigênio. Sem valor. Sem nada. E, também sem muito esforço, manda meu amor pobre pro ventrículo direito. Ele não sabe, mas a valva não permite que esse meu amor volte.

O ventrículo direito recebe esse sangue sem saber por que, mas percebe logo que é um amor sem vida. Um amor sem amor. Mas o ventrículo entende e, num ato de piedade, se esforça pra tentar enriquecer esse amor, enviando-o aos pulmões. Ele sempre sabe do que preciso.

E, então, tenho agora um sangue rico; um amor cheio de vida.

E tu és o lado esquerdo deste meu coração partido. És quem recebe o melhor de mim, o meu melhor sangue, o meu melhor amor. Acolhes meu sangue com carinho em teu átrio e, cuidadosamente, me lança ao teu ventrículo. Num abraço forte e confiante, teu ventrículo faz com que esse amor bom se espalhe por todo o meu corpo.

E renova-me. E faz-me bem.
Renovas-me. Fazes-me bem.

Fizeste com que eu me amasse mais.
E por isso, mas não só por isso, amo-te.
Sempre. E pra sempre.