Deu-se que, numa casa não muito longe daqui, uma criança de quase 3 anos que até então não tinha falado um único monossílabo, profere seu primeiro grunhido decifrável.

– Aaaaaaaai, que lindo! Vem ver, amor! Vem ver!
– Que foi?
– O Alfredo Augusto! Ele falou, ele falou!
– Sério?!
– Sim!!! Você precisa ver!!!
– E o que ele disse? “Papai”?
– Não.
– “Papá”?
– Não…
– “Pá”…?
– Não!!!
– O que foi então?
– Ele disse “Blau”.
– Disse o que?
– “Blau”.
– (…)
– Repete, meu amor, repete pro papai ouvir! B – L – A – U!
E a criança:
– Blau.
– Ahhhhh, garotão! Que orgulho! Fala de novo pro papai ouvir, fala!
– Blau.
– Isso aí, campeão! Ana, vou ligar pro pessoal da firma! Eles precisam ouvir isso!
– E eu vou chamar a Dona Cotinha!

Ignorando o fato de que os primeiros raios de sol de um belo domingo tinham acabado de aparecer, marido e mulher foram buscar seus companheiros de trabalho e fofoca, respectivamente, para exibir as façanhas do pimpolho.

Da firma vieram três homens. Dona Cotinha chegou com sua filha e suas duas netas.

A platéia se acomodou no sofá, em círculo, de modo a deixar o centro da sala livre para o espetáculo. E que espetáculo, afinal o guri já tinha 3 anos!

– Fala, meu anjo, fala de novo pra mamãe, fala. B – L – A – U.
– (…)
– Fala, meu amor! Mostra pra Dona Cotinha! Vamos lá, repete com a mamãe: B – L – A – U!
– (…)
– Vamos, querido! Só mais uma vez! Mamãe ajuda você: B – L – A – U!

E nenhuma reação do rebento!
A platéia se entreolha.
O pai leva as mãos à cabeça e solta um suspiro.
A mãe, levemente envergonhada, ainda tenta:
– Presta atenção na mamãe, ó: B – L – A – U!

Sim, exatamente assim. Pausadamente. Começando com a língua no céu da boca e finalizando com o biquinho, no U.

E o guri ainda mantém os olhinhos de interrogação.

A mãe arrisca uma última tentativa:
– Por favor, querido. Olha só, todo esse pessoal veio só pra ouvir você falar! Diz pra mamãe, diz! Blau! Diz, meu anjo! Blau! Não é simples? Blau! Blau! Viu só? Não é difícil, não pode ser difícil!!! Pelo amor de Deus, diz essa…
– Calma, Ana! – interrompe o pai.

A mãe se senta no chão e olha pra criança, incrédula, enquanto o pai pede desculpas ao público por acordá-los tão cedo num domingo e os encaminha até a porta de saída.
– Humpf! – bravejou Dona Cotinha, ao sair.

– Eu vou voltar a dormir. – afirmou o pai.
– Eu também. Você ainda me mata de vergonha! – disse ao filho.

Tomou o pequenino pela mão e o levou de volta ao quarto de brinquedos. Deu-lhe um beijo na testa e voltou para seu merecido descanso.

Já da cama, pai e mãe se entreolham ao ouvir, de longe, uma voz infantil que cantava, ainda que sem ritmo:

– Meu uixinho blau blau de blinquedo, vou contar pla voxê um xegledo… ai ai ai, ui blau blau!