Fracasso. Malogro. Insucesso. Ato de fracassar. Todos nós em algum momento de nossa vã existência já nos confrontamos com essa palavra. E fugimos, evitamos, procuramos com toda a força de nosso ser mantê-la bem distante de nossos sonhos e metas. E quando nos deparamos com ela? Negamos. Ou até aceitamos, pra justificar uma futura vitória. Quantas vezes já nos pegamos dizendo: – O que importa é o aprendizado!

Sim. O fracasso tem o poder de nos tirar o sono, de assombrar nossas metas, de nos fazer ter cautelas às vezes exacerbadas, nos fazer perder a cabeça, causar stress, mas… e quando o fracasso é inevitável? E vou além: e quando o fracasso é inerente ao ser em questão?

Sim. Eu faço parte de uma elite, nem tão elitizada assim, porém mal vista, digna às vezes de pena ou de deboche. Sim. Eu sou um fracassado.

Ser fracassado é ter a consciência plena de que nada que possa vir a fazer é passível de dar certo. Não adianta a formação, grau de instrução ou capacidade de aprendizado. Nada disso adianta. A sorte, que é elemento bem visível em grande parte dos seres humanos, em alguns mais que outros, é irrealidade pura para seres como nós. Como se a ventura estivesse sempre com um sorriso sarcástico em seus lábios maviosos.

Ser fracassado é saber que já que não pode se contar com a sorte, ter a certeza de que não se deve perder tanto tempo se dedicando a qualquer atividade. Pois não será agraciada com o dom da concretização. Se der certo, é porque outros elementos foram envolvidos, provindos de outras pessoas. E não se alegrem, caros colegas, vai acontecer pra eles e até resolverem cansar de sua companhia.

Ser fracassado é acostumar-se a viver sempre à margem dos acontecimentos. Mendigar pequenas migalhas de atenção e se satisfazer com isso, pois é o máximo que poderá obter em sua vida medíocre. Geralmente faz parte do perfil do fracassado ser boa gente. Até porque eu nunca vi um ser rude e grosso ser fracassado. Isso é característica dos seres agraciados pelo acaso.

Como reconhecer um fracassado? Existem alguns eventos que se realizam de uma forma natural e espontânea: o indivíduo nasce, cresce, estuda, trabalha, se relaciona, procria, trabalha mais um pouco, cuida da prole, se aposenta, envelhece e morre. Essa é a lei natural. Não adianta reclamar, caro leitor, discordar e dizer que “prefere de outra forma”. Essa é a lei natural. Tudo que se acrescenta a mais é um “bônus” que a vida nos oferece. O fracassado não obedece a essa regra, tampouco à ordem e certamente é privado de algum ponto acima descrito. Tem problemas na infância, ou não consegue um bom trabalho, ou é um zero à esquerda em relacionamentos e muito menos tem a prole que deseja para perpetuar seus cromossomos (até porque é a seleção natural: por quê a natureza permitiria a multiplicação da “raça fracassada”?). Você se aplica em algum deles? Eu particularmente me aplico em vários.

Mas ser fracassado não é apenas ônus. É também saber que faz parte do grande sistema de equilíbrio do Universo, afinal, como já se cita sabiamente no dito popular: “para um rir, alguém tem que chorar”. Já pararam pra pensar que existem pessoas extremamente agraciadas pela boa mãe sorte? Os chamados “virados pra lua”. Ora bolas, se existem esses serem iluminados, por que não haveriam de existir os que estão fadados ao fracasso? É a lei natural. Sorriam e alegrem-se, caros mancebos!

Pensem bem, nobres amigos, às vezes a resposta pra tanta lamentação, injúria, depressão e inquietação está na incapacidade de assumir a condição de fracassado. Não perca mais tempo brigando contra as leis naturais. A aceitação dessa condição é o caminho mais digno. Não desperdice ao menos isso, pois ao fracassado resta ao menos uma coisa: a dignidade.

Sejam bem vindos ao fracasso!

(E que o último a sair apague a luz…)

eu me perco. simplesmente quando ele me olha meio de lado. surrupiado. roubado. ou quando deitada ele se deleita da minha pele e me enche de beijos. eu me encontro quando percebo que minha metade é assim, humana demais. que ferve demais. grita. não se acalma. eu me disperso, quando ele chega manso. ou quando com palavras me enche de rubor. eu me importo, quando estas podem ser mais fortes do que aquilo que eu suporto. são tão duras que me faltam algumas para a resposta. eu fico inebriada, anestesiada ao ser despida com os jeito malandro ou quando ele se encaixa em meus quadrantes. com seu jeito de homem menino que me encanta. sou menina, criança quando ele me gasta, irrita, só pra me fazer montar uma careta na face. a gente se diverte, ri a beça mas silencia. cala. e nosso silêncio desta vez não grita. ele cala com a gente. eu me despedaço, quando vejo que logo termina. que tão logo não vou sentir seu gosto em minha saliva, que não vou manter-me quente logo de manhã e percebo que não cabe em mim mais o que tanto lutei pra não ter. esse amor bandido surrado, vedado e sincero que com ele vem e tanto me satisfaz.5

Alguma coisa no jeito como ela se movimenta mexe diretamente com o meu básico instinto. Não é algo óbvio como os trajes minúsculos ou como ela rodopia no poste, mas um pequeno detalhe imperceptível ao resto da platéia, algo indetectável pelo olhar dos interessados apenas na farta trivialidade que a blusa amarrada e a minúscula saia quadriculada nem se esforçam em esconder. Talvez o jeito como as gotículas de suor brilham sob a luz negra e transformam-se em raios azulados a cada giro ou como o estroboscópio a faz sorrir quadro a quadro, um perfeito ensaio fotográfico que, a cada rodopio, ganha o movimento felino contido no seu engatinhar preguiçoso pela passarela. Talvez a idéia paradoxal de ver sem poder tocar, não sei ao certo. Apenas sei que alguma coisa no jeito como ela se movimenta me estimula além do racional, naquela área que toda pessoa de bem e temente a Deus se envergonha de mostrar mesmo com a luz da mesinha de cabeceira apagada, nos breves instantes de petit mort com a pessoa amada; alguma coisa em cada passo dado sobre os saltos agulha corta dos meus ouvidos a batida drum ’n’ bass e remove da minha vista tudo que não seja a sua silhueta, inunda minhas narinas com seu cheiro e faz minha pele arder em febre, fazendo-me salivar. Alguma coisa no jeito que ela se movimenta desperta-me o cio e a vontade quase irresistível de saciá-lo segurando-a pelas ancas em uma das mesas do bar, com toda agressividade e beleza de um casal de tigre copulando. É alguma coisa no jeito que ela se movimenta, eu só não sei o que é.

Mais de dois bilhões de habitantes do terceiro planeta à partir do Sol, tomados por um incrível sentimento de perplexidade, franziram a testa ao mesmo tempo ao notar que seus calendários, que deveriam registrar o primeiro dia de março, mostravam-lhes um trigésimo dia em fevereiro. O barulho dos bilhões de computadores sendo resetados ao mesmo tempo, somado ao ruído de bilhões de calendários de papel sendo manuseados fez com que pássaros por todo o mundo se assustassem e alçassem vôo rumo a um céu estranhamente cintilante, que fez com que os pilotos de todos os aeroportos do planeta se mantivessem em solo, observando boquiabertos, juntamente com suas tripulações e passageiros, o estranho brilho prateado que descia do firmamento e lentamente dourava o chão. Então, ouviu-se um estrondo como nenhum outro, que fez com que todos parassem o que estavam fazendo e saíssem de suas casas para assistir um carro de fogo surgir nas nuvens e cortar o céu dos trópicos em alta velocidade. O bólido incandescente desacelerou e pousou com suavidade no canteiro central de uma avenida movimentada, fazendo que os transeuntes se aglomerassem à sua volta, assustados e atraídos pelas labaredas azuladas. Subitamente, as portas do carro de fogo se abriram e seu passageiro se revelou para os que assistiam a chegada do enviado do Céu.

– Véio, é Jesus! – disse um motoboy, agarrando-se à touca que usava. – Mas ele não tá meio… fortinho?
– Que Jesus o quê, mano… Jesus tem cabelão, a testa do sujeito aí vai quase na nuca, ‘tá ligado? – sussurrou um contínuo, tamborilando os dedos no envelope de papel pardo. – Será que é Moisés? Eu não ‘tô vendo cajado nenhum…
– Vocês são dois ignorantes. – disse uma velhinha, abrindo caminho na multidão para ver o carro de fogo mais de perto. – Se o calendário está marcando 30 de fevereiro, esse só pode ser São Nunca.

O santo limpou a garganta e a multidão ficou em silêncio. Então sua voz grave ribombou pela avenida.

– Ouvi e ouvi com atenção, pois quem vos fala é emissário d’ Aquele cujo nome é Eu Sou! Venho do Reino dos Céus para avisar-lhes que Deus está muito descontente com o rumo das coisas aqui na Terra e… o que a senhora acha que está fazendo? – disse São Nunca, indignado com a velhinha, que passava a bengala nas chamas do carro.
– É o mesmo carro de fogo que levou Elias ao Céu, não? – perguntou a velhinha, examinando a bengala por cima dos bifocais. Não havia marcas de queimadura.
– Sim, é o mesmo carro que levou o Elias. – respondeu São Nunca, fingindo paciência. – Se a senhora me dá licença, eu preciso falar ao povo sobre…
– Dá licença, santidade! – disso o contínuo, retirando os fones de ouvido enquanto se aproximava do santo. – Desculpa aí a intromissão da mina terceira idade, mas é que o povo não ‘tá acostumado a ver essas carretas de fogo por aí, ‘tá ligado? Aliás, sem querer ser parecer abusado nem nada… qual é o consumo?
– Oito quilômetros por litro na cidade, onze na estrada e nada no Inferno, onde tudo é quebra-molas. – respondeu o santo, impacientando-se. – Jesus amado… é para isso que me tiraram do Céu? Nem um minuto e já tem gente atrapalhando o meu serviço! Quer saber? Eu não vou é falar mais nada com vocês. Para que lado fica essa tal de ONU?
– Ih, mano… tu ‘tá longe. A ONU fica lá… lá… lá fora do Brasil, ‘tá ligado? – Disse o motoboy, encolhendo-se diante do santo, visivelmente zangado. – Mas pra alguém que já fez dois milagres num dia só, fazer aparecer 30 de fevereiro no calendário e parar as duas pistas da Paulista sem ninguém reclamar nem tomar multa, chegar lá é moleza, certo? – disse e sorriu para São Nunca, que não parecia menos mal-humorado.
– Nova Iorque. – disse a velhinha, firmando-se na bengala.
– Capital dos Estados Unidos! – o motoboy e o contínuo disseram em uníssono e se abraçaram, entre risos.
– A capital dos Estados Unidos é Washington, seus ignorantes! – a velhinha ralhou com os dois, sem tirar os olhos do santo. – É uma cidade enorme, no norte das Américas.
– Já que é tão sabida, a senhora vai comigo até a ONU – decretou São Nunca e as portas do carro de fogo se abriram. – E vocês dois vão junto para ajudá-la. – mal o santo falou e ambos correram para ajudar a velhinha a entrar no carro.

São Nunca olhou para o céu, que ainda cintilava, mais uma vez antes de entrar no carro de fogo e fez o sinal da cruz, pedindo paciência a Deus na próxima etapa de sua jornada. Então o carro de fogo subiu e apontou para o norte, desaparecendo do olhar incrédulo dos transeuntes da Paulista em meio ao firmamento prateado.

Continua

A melhor aluna de português da classe era Dulce. Seus cadernos eram um exemplo de capricho, limpos e recheados da letra redondinha que apenas as alunas aplicadas possuem. Eram impecáveis, como o pequeno diário onde Dulce escrevia, suspirando, toda noite antes de dormir. Dulce também era a melhor aluna em Ciências, sabia que o ponto de fusão da água se deva à temperatura de 0° Celsius e que essa temperatura equivalia a 32° Fahrenheit e 273,15° Kelvin. Sabia também que seu sangue parecia evaporar quando, olhando pela janela da sala de aula, seus olhos encontravam o sorriso de Lacerda, bebericando aguardente e jogando bilhar no botequim do outro lado do cruzamento. Ninguém tinha notas mais altas em Francês que Dulce, sua pronúncia e fluência eram impecáveis, seu domínio da língua impressionava a professora e os colegas de classe. E também impressionou Lacerda, que descobriu o frescor dos contornos adolescentes de Dulce na viela atrás do Bar do Carreirinha, quase na hora da missa. Dulce era a melhor aluna de matemática do colégio: sabia de cor a tabuada de 7 e sabia diferenciar um triângulo escaleno de um isósceles. Entretanto, a aritmética a traiu um dia, quando 1+1 deu 3 e o pai de Dulce foi tirar a prova dos nove com Lacerda no bar do cruzamento, arrastando-a consigo pelos cabelos. Dulce era melhor aluna em Religião, sabia de cor as rezas e o nome dos apóstolos e sabia que os suicidas não podem cruzar os portões do Paraíso, mas isso não a impediu de se atirar na frente de um carro de praça quando viu o vermelho brotar no branco brim do paletó do seu primeiro amor.

Gotas d’água chocavam-se violentamente contra a janela, endossando a notícia que o locutor de voz sorumbática acabava de transmitir no rádio: aquele seria o maior temporal que a cidade via em cinco anos. Sentado na beira da grande cama de casal, alheio à barulheira da chuva martelando janelas, calhas e telhas, ele olhava fixamente uma velha fotografia em preto e branco como se quisesse mergulhar nas recordações impressas naquele pedaço de papel fotográfico em suas mãos, que mostrava um dia completamente diferente daquele dia chuvoso e plúmbeo. Um dia feliz, um sábado perfeito de sol.

Alguém batia à porta do quarto, mas seus ouvidos estavam inundados com o riso das crianças que corriam pela grama do parque naquela tarde de sábado em que ele ajudara àquela bela desconhecida recuperar o cachorro que havia se soltado da coleira. Bastou lembrar da primeira troca de olhares para um turbilhão de recordações inundasse seu pensamento com a mesma força da chuva que caia pesadamente sobre a cidade. Reviveu jantares, passeios, sussurros, brigas, beijos, o som da respiração pesada; e assim como o céu cinzento, ele chorou copiosamente.

As batidas na porta do quarto aumentaram de intensidade e ele despertou de seu devaneio. Olhou pelo vidro semi-embaçado e fitou a enchente carregando correnteza abaixo a sujeira das ladeiras próximas, então escancarou a janela e deixou a chuva entrar e molhar-lhe o corpo, como se toda tristeza que sentia pudesse ser carregada pela água e desaparecer no carpete, junto com suas lágrimas. As batidas aumentaram de intensidade e, mesmo com o barulho do temporal castigando tudo sob o firmamento, era possível ouvir uma voz fora do quarto pedindo que ele abrisse a porta. Lentamente ele encaminhou-se para o armário, enquanto a maçaneta girava violentamente. De dentro do armário tirou um terno preto, com corte italiano. Os gritos e as batidas continuavam do lado de fora do cômodo, mas ele pacientemente deu o nó na gravata e, sentado à beira da cama, laceou os sapatos. Segurou mais uma vez a fotografia e um sorriso brotou de seus lábios no mesmo instante que uma chave destravou a fechadura e a porta se abriu, batendo contra uma pesada cômoda que barricava a porta.

– Abra! – disse o dono do braço que tentava avançar pela fresta da porta entreaberta. – Abra, pelo amor de Deus! Sou eu, seu irmão!
– No momento que eu a vi sabia que ela era perfeita para mim – ele disse, olhando para o belo rosto em preto e branco na fotografia.
– Pelo amor de Deus, não faça nenhuma besteira. – o braço tentava, inutilmente, empurrar a porta. – Uma mulher que abandona um homem bom como você no altar não merece que você cometa uma estupidez, irmão! Abra esta porta! Você vai encontrar uma mulher que o mereça de verdade!
– Já a encontrei, irmão. Já a encontrei. – ele disse e com delicadeza beijou a testa da moça que jazia sem vida, vestida de noiva, na grande cama de casal – Ela está mais bonita do que quando nos conhecemos – ele disse, ajeitando o retrato em preto e branco sobre seus seios e deitando-se ao lado dela. Abriu a gaveta do criado mudo e de lá tirou uma pistola. O vento forte fez com que as gotas de chuva alcançassem a cama, diluindo no colchão o vermelho que se espalhou após o estampido.