I.

– Precisamos conversar – a voz de Gérson praticamente escorregou pelo fone, tão trêmula que estava. Suas mãos suavam.
– Não tenho nada a tratar com o senhor – Fernanda respondeu, seca, enquanto observava a rua através de uma fresta nas cortinas de renda. Havia acabado de amarrar o cordão do roupão branco.
– Nanda, a gente precisa conversar – Gérson disse com a voz embargada.
– Já disse que não temos nada para conversar. Por favor, não me ligue mais – Fernanda sibilou, fazendo uma concha com a mão direita. Era a terceira vez que Gérson telefonava naquela semana, desrespeitando o pedido que Fernanda fizera havia um mês. Será que ele não percebia que estava sendo inconveniente, ligando para a casa de uma mulher bem casada e mãe de uma linda menina, ainda mais quando ela o tinha dispensado? E se sua filha ou seu marido atendesse? Fernanda não queria nem pensar naquilo. Odiava escândalos.

II.

A fina chuva de verão chocava-se contra o vidro e era recolhida pelo pára-brisa do carro de Walter. Faltava cinco dias para seu aniversário de casamento e ele era só sorrisos. Em verdade, sempre fora um homem sorridente, simpático e bem-quisto por todos em sua vizinhança, dono de um sorriso sincero e largo, composto por dentes extremamente alinhados e brancos. Mas naquele dia em especial, seu sorriso estava mais branco e mais brilhante: havia conseguido o presente ideal para sua esposa. Foram meses de procura, mas ele havia enfim encontrado o vestido que sua esposa tanto queria. Seu sorriso abria-se cada vez mais toda vez que ele imaginava o corpo perfeito de Fernanda coberto pelo tecido fino, seus lindos seios marcando a seda e suas coxas aparecendo pela fenda lateral da roupa. Sim, ela ficaria lindíssima em seu novo vestido de seda vermelho-sangue e ofuscaria todas as mulheres que estivessem presentes na comemoração de suas bodas. Doze anos de casamento e ela ainda continuava linda como no dia em que eles se conheceram. O sorriso de Walter não poderia estar mais brilhante.

Estacionou o carro e, com muito cuidado, escondeu o vestido em uma caixa na mala do carro. “Ela vai ter uma surpresa e tanto”, Walter pensou. Subiu a rampa da garagem e caminhou até a caixa de correios, onde as contas de luz, telefone, do cartão de crédito e da TV por assinatura o aguardavam. Pegou os envelopes e, enquanto os examinava, percebeu um pequeno envelope azul-celeste endereçado a ele, sem remetente. Sem importar-se, colocou o envelope entre os outros e caminhou até a entrada da casa, respirando profundamente o cheiro das plantas molhadas que ladeavam o pequeno caminho de largos seixos que conduzia à porta principal. Enquanto a chave girava na engrenagem da fechadura, Walter ouviu o bater de pequenas patas e unhas na madeira escura da porta. Era Zazá, a pequena cadela pinscher de Fernanda, que latia e batia as pequenas patas na porta, esperando Walter entrar para fazer-lhe festa. Walter ajoelhou-se sobre o tapete da entrada e acariciou a barriga de Zazá, que latia ininterruptamente. Ergueu-se, apoiando uma das mãos na parede e adentrou na sala, onde sua esposa estava colocando o telefone no gancho.

– Olá, amor. Era para mim? – Walter perguntou, beijando com suavidade os lábios de sua esposa.
– Não, era do bufê perguntando se queríamos filet mignon ou camarão para o jantar do nosso aniversário de casamento – ela respondeu, olhando Walter nos olhos e sorrindo.
– Diga que você pediu o camarão – Walter sorriu, franzindo a testa.
– Anda enjoado da carne, querido? – Fernanda sorriu e beijou-lhe os lábios.
– Passe o dia inteiro dentro de um açougue e você vai me entender – ele respondeu, beijando-lhe a testa e indo em direção ao escritório, para guardar as contas.
– Boutique de carnes! Açougue era aquilo que o seu pai tinha – ela retrucou, torcendo o nariz.
– O que meu pai tinha era um abatedouro, ele matava os bois. Eu vendo carnes, o que faz de mim um açougueiro – ele disse, ligando o computador e separando os envelopes das contas.
– Você é um empresário, Walter. Açougueiros passam o dia cortando carne e você não faz mais isso, graças a Deus. Hoje você é proprietário de uma rede de boutiques de carne – ela falou severa, olhando-o separar os envelopes por cima de seus ombros. – Alguma carta para mim?
– Não, mas se você quiser ficar com a fatura do cartão de crédito, fique à vontade – ele virou-se na direção de Fernanda e estendeu-lhe a correspondência, com um sorriso no canto direito da boca.
– Dispenso, querido. Esse é o pequeno preço que você paga por ter uma mulher bonita como eu – ela disse e sorriu, puxando o cordão do roupão, que caiu a seus pés e revelou a bela nudez de Fernanda, um corpo perfeito ainda salpicado com gotas d’água. Ela sentou-se no colo de Walter, que a abraçou, beijando com avidez os mamilos rosados e intumescidos de sua esposa. Ele a tomou no colo e a colocou em cima da bancada do computador e, com as mãos trêmulas, abriu o zíper de sua calça e encaixou-se entre as coxas grossas de Fernanda. Os papéis cairam do móvel enquanto o casal se entregava ao desejo e o chão ficou coberto com as contas de água, luz, TV por assinatura, orçamentos de consertos de um motor de um refrigerador e um pequeno envelope azul-celeste, onde lia-se em letras pretas apenas o nome de Walter.

Continua

Querida Adiva, como você está hein?
Eu deveria saber a resposta já que temos sido inseparáveis durantes os útimos 23 anos, mas como você me conhece bem, sabe que respostas são algo distante da minha natureza.
Sabe querida, ando meio frustrada! Não sei o motivo e muito menos de quem é a culpa, só sei que é assim que me sinto atualmente e isso cansa!
Você deve estar perguntando o que me falta, e eu digo que não tenho certeza mas, muitas coisas faltam…
Um dos empregos preenche minhas manhãs com vazios, sono e tédio, o outro me dá satisfação e prazer, mas vale lembrar que o dinheiro é pouco em ambos.
A monografia me enche de agonia e frustração, sendo que nem comecei a escrevê-la (hummm talvez seja esse o motivo…hehe).
Os planos futuros estão encaminhados e caminhando, mas mesmo assim me dá uma sensação de demora que consome meu sono, meus pensamentos!
Ah querida não quero ficar aqui sendo a chata, reclamando, então fico por aqui.
Me escreva qualquer dia desses ok?
beijos,
LoveSnowFlake

Alego reticente

A vossa senhoria

Que não há mal intento

Em minha cantoria

Se há ledo engano

De fato não haveria

Ao som desse canto

Toda noite todo dia

Se de ti fosse eu

E você minha alegria

Secaria meu pranto

Romperia o encanto

Encolheria num canto

E jamais cantaria

As palavras parecem nem ter um bom pretexto para sair do pensamento. ficam aqui permeando a borda dos dedos e se embaralham completamente na hora de serem colocadas no computador. da última vez que tentei colocá-las no papel, danou-se, foi ai que todas ficaram tímidas. desisti depois de alguns rabiscos. Elas ficam assim, loucas para explicitar tudo, beirando as letras do teclado. mas quando digito.cade? Sumiram. Escafederam-se. Acreditam que ficam assim paradas pelo cansaço fisico do corpo de alguém que trabalha. Mas a mente? Não..a mente não cansa, ela revira arquivos velhos, fotos velhas, coisas novas, músicas, letras, ela revira fotografias dos segundos anteriores a tudo isso. A mente não descansa, mesmo quando se cansa, ela fica lá…repetindo, repetindo,como a música de Maria Rita – é melhor colocar a música agora, quem sabe brota uma inspiração? – como um disco de vinil riscado ao meio enquanto a agulha tenta interpretar o que contém naquele espaço. a mente incendeia aquele amor correlato. pela ponta dos dedos desisto de escrever. vamos navegar na internet. navegar. queria saber quem inventou este termo. se surfar é assim troco isso pelo sapateado, é muito mais interessante. mas, vamos dando procedência, o que eu quero mesmo? Ah..lembrei,estou a procura de inspiração. Brutti, sporchi e cativi me levam a tentar falar de sexo, mas como falar de sexo se nem isso eu ando fazendo? Nada…a vida resume-se a trabalho. Uns flertes entre um sofá do Matrix e os bancos de ônibus da linha Peri Peri. Só trabalho..trabalho..trabalho..e lá vou eu novamente tentar achar um pretexto. ops, desculpem, um texto (não posso subjulgar meus leitores desta forma..me perdoem pela descrença) Mas fazer o que se tudo aquilo que eu leio neste momento me soa sem eira (acho que as pessoas não gostam de escrever em vésperas de feriado, tai uma boa desculpa)De repente um estalo:leio entre palavras, para tau. tal qual? tal qual esperamos que a vida aconteça.tai um bom tema (como se eu já não tivesse explorado ele o suficiente…mas vamos facilitar a sua vida leitor: assista o filme Elizabethtowm, e um dia na mesa de um bar, regados de algo líquido – mas não necessáriamente alcóolico, conversamos sobre) Basta começar assim: “Ih, olha a vida. olha ela pela janela acontecendo. AGORA!” Agora? Ops..trabalho. Toca naõ telefone. me dá um momento? Obrigada. Mas sabe,nem quero ó. Tem como me servir uma manhã desarmada ai? Ando precisando de coisas mais fáceis pra pensar. se der para não pensar, eu agradeço. sabe? algo assim, sem muito trabalho. Ops..e lá vai a mente….rasgando o verbo…Gentem se vocês pudessem caber aqui, dentro dela, ulá lá, não sei não se alguém sairia vivo dessa coisa de estar entre paredes e celas, mas é daqui que vou escrevendo este post para você, já que tanto você quer encontrar algo para ler.verdade é que eu fui gastando seu tempo, gastando, levando você a ler, mas estou aqui pra encher línguiça sabe? Porque a vida é assim, você acredita que está fazendo o possível para ser feliz, mas está só enchendo linguíça, porque quem é mesmo que é feliz assim? Preso a uma tela de computador? Feliz mesmo são aquelas pessoas que neste momento estão longe daqui, e nem perdem o tempo lendo as minhas baboseiras…e quer saber..vou indo..viver ali do lado e daqui a pouco eu volto.

E pensar que a noite nos deixou apenas aquele rastro vermelho do sinal fechado refletido no sereno das pedrinhas brilhantes do asfalto vazio. Com o peso da gravidade, vezes a massa das nossas deformidades e o grave incomum do ruído de um contrabaixo arranhado por fios de crina de cavalo branco.

Nós perdemos o juízo, a carteira de identidade, o preservativo lubrificado, a fala, o maço de cigarros amarrotados e a conta do pouco tempo que nos restava. Agora sou obrigado a ficar sentado no meio-fio ouvindo as sirenes das ambulâncias, arrebatadoras, que não precisam gritar alto para pedir passagem antes que seja tarde demais, uma vez que as ruas estão vazias. O que elas querem é chamar a atenção.

Pense, sua porca: antes de encher as veias com morfina você podia ter pensado melhor na sua família. Porque depois, quando estiver com os braços lânguidos e furados amarrados para trás, com a boca seca de lábios miúdos espumando e sendo carregada à força por dois moços fortes vestidos de branco, você vai implorar pela intervenção divina.

Você é a noite, Leila. Tudo o que a gente pode ver. Você é a possibilidade.

Me dê apenas um dia do seu calendário
Uma palavra que esteja no meio do seu diálogo
Um beijo qualquer dos seus lábios mundanos
E o suor do seu corpo cansado

Seu peito aquecido de desejo
Enche de vontade todo o meu quarto
Tenho uma avalanche de segredos
Que confesso enquanto lhe aguardo

Segure com força os meus cabelos
Escute os meus gritos abafados
Falando de amor incerto e passageiro
Como tudo no seu calendário